A poucos dias da chegada de “Brilho”, marcada para 13 de março, Krazye Loko olha para trás sem nostalgia e para a frente sem ilusões fáceis. O percurso não foi linear, nem protegido. Foi feito de desilusões, pausas forçadas, maturidade conquistada fora dos holofotes e uma ligação inquebrável a Setúbal. Nesta conversa, fala-se de identidade, resistência e da escolha consciente de continuar.
Cresceste entre referências portuguesas e africanas. Quando percebeste que a música deixava de ser apenas emoção e passava a ser expressão tua?
Cresci no meio de ritmos africanos e portugueses, dias passados entre família e amigos ao ritmo de várias culturas. A música sempre me trouxe um brilho especial. Transmitia sentimento e deixava-me emotivo. Desde que aprendi a escrever que adorava criar histórias e relatar factos. Depois vieram os poemas. Fazer com que as frases rimassem foi algo muito especial porque juntava o meu gosto pela escrita com a musicalidade. Foi nesse cruzamento que percebi que também podia transmitir o que sentia através de textos rimados acompanhados por uma melodia que me representasse.
Vencer o Bocage Rap em 2005 parecia o início de uma ascensão. O que aconteceu realmente depois desse momento?
O prémio era gravar e lançar um CD num estúdio profissional. Fui lá uma vez conhecer o espaço. Quando voltei, o estúdio tinha encerrado sem aviso. Essa situação trouxe-me uma grande desilusão. O sonho transformou-se num pesadelo. A falta de apoio e de conhecimento na área também pesou. Acabei por dar prioridade a outros trabalhos e fiquei meio parado no rap durante algum tempo.
O período de afastamento mudou-te de que forma?
Ganhei maturidade como ser humano. A idade trouxe mais consciência e uma visão mais apurada sobre o meio à minha volta. Artisticamente também evoluí. Mesmo sem lançar nada, continuei a escrever, a gravar demos e a manter ligação à música. Nunca me desliguei completamente.
Que papel concreto tem Setúbal na tua identidade artística?
Setúbal é a minha cidade natal. Foi aqui que cresci e me desenvolvi. Tudo o que aprendi, desde cultura a hábitos, veio daqui. Aqui chorei e fui feliz. Krazye Loko é fruto direto desta cidade. Teve a maior influência nos caminhos que tracei e percorri.
A ligação a Allen Halloween marcou o teu percurso. O que aprendeste com ele?
Allen é como um irmão. Quando fala, prende-te às palavras. É direto, objetivo, e isso nota-se na música dele. Nas nossas conversas aprendi muito, até na forma de trabalhar o meu timbre grave e anasalado. Passei a dominar melhor essa característica e a aplicá-la na minha música.
Como te posicionas num cenário onde o consumo musical é cada vez mais rápido?
Venho de uma altura em que se consumiam trabalhos completos, com tempo. Hoje tudo é mais rápido. Eu identifico-me mais com a lógica antiga. Procuro criar músicas que nunca percam o sentido, que soem atuais mesmo com o passar dos anos. Sentimentos e vivências continuam a tocar as pessoas, seja no dia do lançamento ou anos depois.

Depois de “Viagem”, sentiste que ainda havia algo por resolver antes de avançares?
Não. “Viagem” já era um projeto que queria fazer há algum tempo, num formato clássico boom bap, que é a minha raiz. Peguei em ideias antigas e montei o puzzle. Nada ficou por dizer. Já “Brilho” encaixa mais na minha fase atual. É um trabalho mais calmo, continua a trazer realidade, mas de forma mais leve e positiva.
A palavra superação atravessa “Brilho”. De onde nasce essa necessidade?
Já pensei em desistir várias vezes, mas ganhei força para continuar. Nem tudo corre como queremos. A vida é feita de altos e baixos e a minha não é diferente. Existem obstáculos que nos fazem hesitar. “Brilho” é um alerta para quem já pensou em desistir. A mensagem é superar medos e problemas e seguir em frente, lutar pelo que nos faz sentir bem.
Há em ti necessidade de reafirmar o teu lugar?
Sou seguro de mim e sei o meu valor. “Brilho” é mais um projeto onde coloco textos, vivências e formas de pensar, agora de forma mais leve. Mantenho-me fiel a mim mesmo e a quem me ouve.
A tua escrita mudou ao longo dos anos?
No início era mais frio e revoltado. Com o tempo tornei-me mais maduro. Hoje a escrita é mais positiva e equilibrada, mas continuo direto e verdadeiro.
Num mercado volátil, como encaras a pressão das tendências?
Tenho de sentir o meu trabalho e fazê-lo da forma que gosto. Não posso arrepender-me do que faço. O que é moda hoje pode não ser amanhã. O mais importante é manter fidelidade a mim próprio.
O que ambicionas construir a partir daqui e o que nunca sacrificarias?
Quero continuar a fazer o que mais gosto e ganhar terreno dentro da minha comunidade. Trazer cada vez mais público que se identifique comigo. Tudo implica sacrifícios, mas nunca sacrificarei a liberdade de me exprimir na minha escrita.
