Terça-feira, 1 de Setembro de 2026
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Lauryn Hill no Kalorama: um concerto, três décadas e uma árvore genealógica demasiado grande para caber num palco

Por Graziano Tullio 1 Set 2026

O Kalorama nunca quis ser um segundo NOS Alive, muito menos um mini Rock in Rio. Desde a primeira edição, construiu uma identidade própria através de uma curadoria que evita tanto o mainstream mais previsível como o conforto do indie para iniciados. É um festival interessado em nomes inesperados, cruzamentos improváveis e, sobretudo, em concertos que tenham alguma coisa para contar. Por isso, fazia sentido Lauryn Hill ser a cabeça de cartaz daquela noite. E fazia ainda mais sentido que não viesse simplesmente apresentar um alinhamento de êxitos.

O problema é que aquilo que muitos esperavam ser um concerto de Lauryn Hill acabou por ser outra coisa: um pequeno festival dentro do festival. Uma celebração dos 30 anos dos Fugees, uma viagem por The Miseducation of Lauryn Hill, uma homenagem à cultura reggae, uma extensão da genealogia Marley e, pelo meio, um encontro familiar com Zion Marley e YG Marley. Lauryn Hill trouxe a casa toda. E talvez tenha trazido demasiada gente.

É esta a contradição que explica as leituras tão diferentes que surgiram depois do concerto. Para uns, foi uma noite generosa, musicalmente rica, cheia de referências e de história. Para outros, foi um espetáculo excessivamente disperso, em que a artista que todos tinham vindo ver passou demasiado tempo fora de palco. As duas coisas são verdade. Talvez a questão mais interessante não seja saber se Lauryn Hill deu um bom ou um mau concerto. É perceber que concerto ela decidiu dar. E, para isso, é preciso voltar ao princípio.

 

Primeiro, a origem

O primeiro bloco foi dedicado ao motivo oficial da noite: os 30 anos de The Score, o álbum que transformou os Fugees de promessa do hip-hop em fenómeno mundial. O alinhamento foi suficientemente explícito para não deixar dúvidas: “Vocab”, do primeiro álbum dos Fugees, Blunted on Reality (1994), abriu o caminho para “How Many Mics”, “Zealots” e “The Score”, antes de um medley com “The Mask”, “The Beast”, “Cowboys” e “Manifest”, todos retirados de The Score.

Lauryn entrou em palco com uma presença que continua intacta e, sobretudo, mostrou uma coisa que por vezes fica esquecida quando se fala da sua carreira: o flow continua reconhecível, mas não é apenas uma questão de velocidade ou precisão. Lauryn pode ser desconfortável com a máquina do star system, mas musicalmente, quando o espetáculo finalmente arranca, continua a saber exatamente o que está a fazer. A banda permitiu-lhe afastar-se das versões de estúdio e explorar outros espaços entre hip-hop, soul, jazz, reggae e música tocada ao vivo.

 

O álbum que todos vieram ouvir

Depois de The Score, Hill lança “If I Ruled the World”, a colaboração com Nas que, em 1996, a colocou também no centro do enorme momento de popularidade que os Fugees atravessavam. E então chega aquilo que o público esperava desde o primeiro minuto: The Miseducation of Lauryn Hill. “Everything Is Everything”, “Lost Ones”, “Ex-Factor”, “To Zion”.

Aqui acontece uma das coisas mais interessantes (e discutíveis) de toda a noite. Estas não são reproduções das versões que conhecemos dos discos. Os arranjos são reconstruídos com mais groove, mais espaço para a banda, mudanças de dinâmica e uma mistura que por vezes parece querer escapar às estruturas originais. É uma escolha artisticamente legítima, mas cria também um conflito com aquilo que o público veio buscar. As pessoas não querem apenas reconhecer o refrão: querem cantá-lo inteiro. Quando a música é reorquestrada, alongada ou deixada deslizar para outra dinâmica, Lauryn ganha liberdade como intérprete, mas perde alguma da resposta imediata de quem está do outro lado da barreira.

É uma questão antiga na música ao vivo: queremos ouvir a canção que conhecemos ou queremos descobrir o que o artista pode fazer agora com ela? Lauryn escolhe claramente a segunda hipótese. E isso ajuda a compreender todo o resto da noite.

 

Quando o concerto deixa de ser um concerto de Lauryn Hill

A partir daqui o espetáculo toma uma curva que, para muita gente, terá parecido quase uma saída de estrada. Sobem ao palco os filhos de Lauryn – Zion Marley e YG Marley – e começa um longo capítulo reggae.

Zion apresenta material próprio, intercalado com “I Shot the Sheriff” e “Three Little Birds”, duas canções do avô Bob Marley.

Depois regressa Lauryn para “Final Hour”, um dos momentos musicalmente mais interessantes do concerto: uma canção em que rap e canto coexistem numa linguagem que cruza hip-hop, jazz e instrumentos ao vivo. Com os metais a ganhar espaço, a voz de Hill vai crescendo em intensidade.

Mas logo depois sai outra vez.

YG Marley assume o palco com “Freedom”, “Survival” e “Fiyah”, antes de homenagear também o avô com “Turn Your Lights Down Low” e terminar com “Praise Jah in the Moonlight”, o seu maior êxito internacional.

Musicalmente, há uma lógica. Historicamente, há uma lógica ainda maior. Lauryn Hill está a desenhar uma linha que liga Fugees, Miseducation, reggae, Bob Marley, a família Marley e a geração seguinte. Só que uma lógica não é necessariamente uma boa dramaturgia de concerto.

Este bloco ocupa uma parte demasiado grande da noite para um concerto apresentado em nome de Lauryn Hill. A artista aparece para introduzir ou fechar segmentos, deixando cair, de vez em quando, uma espécie de lembrete de serviço público como quando arranca com “Doo Wop” – como quem diz: “sim, sabemos porque é que vocês estão aqui”.

 

Wyclef Jean: a história podia ter sido outra

Os dois fundaram os Fugees em 1990. Trinta anos depois de The Score, a expectativa de vê-los juntos não é propriamente um detalhe.

Wyclef traz “No Woman, No Cry”, “911”, “Maria Maria”, “Guantanamera” e “Hips Don’t Lie”. Um set list mais próxima de uma demonstração do currículo de Wyclef do que de uma construção narrativa necessária para uma celebração dos Fugees. E é pena, porque Wyclef e Lauryn tinham ali uma oportunidade rara. Em vez de cada um apresentar o seu catálogo, podiam ter feito aquilo que os dois fizeram tão bem há 30 anos: criar alguma coisa juntos. O problema não foi a falta de talento. Foi a falta de foco.

É uma situação curiosa: o público está a assistir a uma espécie de aula prática sobre a história musical de uma comunidade de artistas e, simultaneamente, começa a olhar para o relógio. Quem pagou para ver Lauryn Hill não comprou necessariamente uma noite de Bob Marley, YG Marley, Zion Marley e Wyclef Jean. Pode apreciar tudo isso e, ainda assim, querer mais Lauryn Hill.

É precisamente isto o que torna o concerto tão peculiar: a artista parece ter entendido a sua própria carreira como uma história musical maior do que ela mesma, enquanto o público continua a entendê-la como a razão principal para estar ali.

 

Quando tudo faz sentido

Depois de tantas ramificações, regressa aquilo que todos estavam à espera de ouvir. “Killing Me Softly”, “Ready or Not”, “Fu-Gee-La” De repente, tudo encaixa. Depois de uma noite inteira a explicar as ligações entre as coisas, este trecho final não precisa de explicação nenhuma.

 

Então, afinal, foi bom ou foi mau?

É uma pergunta demasiado simples para este concerto. Se estivermos à procura de um concerto convencional de Lauryn Hill, a noite do Kalorama deixou motivos suficientes para levantar uma sobrancelha: demasiado tempo fora de palco, demasiados convidados, demasiados desvios. Como escolha artística, tudo isso é fascinante. Como concerto para quem comprou um bilhete para ver Lauryn Hill, é inevitavelmente frustrante.

Os arranjos musicais de todo o espetáculo dá-nos uma pista para entender melhor o que aconteceu. Lauryn não tentou reconstruir The Score ou The Miseducation of Lauryn Hill nota por nota. Reescreveu as canções para o palco, dando espaço à banda, ao groove, ao rap e às diferentes linguagens e mundos que ela própria atravessou ao longo da sua vida. A Lauryn recusa a ideia de que um concerto de aniversário tenha de ser uma máquina de nostalgia. Em vez de nos entregar simplesmente as canções que conhecemos, mostra-nos as relações que existem entre elas, de onde vieram e para onde foram. O problema é que o público não estava a espera de uma aula tão longa.

Talvez a resposta esteja num detalhe que aconteceu já depois do concerto. Lauryn Hill desceu do palco e ficou cerca de meia hora junto ao público, a tirar fotografias e a assinar autógrafos. Depois de passar a noite inteira a distribuir pedaços da sua história, acabou por entregar também a coisa mais simples de todas: ela própria, sem música e sem intermediários.

No fundo, talvez tenhamos passado a noite inteira a pedir a Lauryn Hill que fizesse aquilo que ela parece menos interessada em fazer: um concerto linear, disciplinado, nostálgico. Ela quer fazer de artista, junto do seu público. Touché.

 

 

 

Graziano Tullio
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