Segunda-feira, 7 de Setembro de 2026
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Mais de 60 artistas homenageiam Arnaldo Baptista. E as canções dos Mutantes ficam de fora

Por Jorge Silva Medeiros 7 Set 2026

É difícil separar Arnaldo Baptista dos Mutantes. A banda ocupa um lugar demasiado grande na história da música brasileira e na memória de várias gerações para desaparecer quando se fala do músico que ajudou a fundá-la.

Por isso, a decisão mais interessante da homenagem aos 78 anos de Arnaldo Baptista está precisamente no que não inclui: nenhuma das 56 novas gravações recupera canções dos Mutantes.

Mais de 60 artistas participam em Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas, um projeto inteiramente dedicado à carreira a solo do músico brasileiro. Sandra Sá, Zé Ramalho, Boogarins, Helio Flanders, Zeca Baleiro, Leo Jaime, Edgard Scandurra e vários outros nomes voltam agora a uma obra que viveu durante décadas à sombra da dimensão histórica dos Mutantes.

A homenagem não tenta apagar essa história. Faz outra coisa: muda o foco.

Não para a parte que precisa de ser lembrada.

Para a parte que talvez ainda precise de ser redescoberta.

O problema de homenagear alguém que já é uma lenda

 

 

Uma homenagem pode transformar um artista numa estátua.

Recupera as canções mais conhecidas, repete as imagens que todos reconhecem e confirma aquilo que já sabemos. O resultado pode ser respeitoso, mas raramente acrescenta alguma coisa à relação com a obra.

Com Arnaldo Baptista, seria fácil seguir esse caminho.

Bastava regressar aos Mutantes. Escolher os temas mais conhecidos. Reconstituir uma parte da história e reunir músicos de diferentes gerações em torno dela.

Mas Arnaldo Baptista 7.8 escolhe outra direção.

Ao concentrar-se exclusivamente na carreira a solo, o projeto obriga a deslocar o olhar para uma zona da discografia de Arnaldo Baptista que ficou muitas vezes em segundo plano. Não porque fosse menos importante, mas porque a sombra dos Mutantes é inevitavelmente longa.

A decisão muda também o significado da homenagem.

Arnaldo Baptista não é apresentado apenas como uma figura histórica que precisa de ser celebrada. As suas canções voltam a ser tratadas como matéria viva, disponível para músicos que chegaram até elas em épocas e por caminhos diferentes.

Mais de 60 artistas, quatro discos e uma obra vista de vários lugares

O projeto reúne 56 novas gravações, distribuídas por quatro coletâneas: Cobre, Sunny, Pink e Jeans.

O número de participantes impressiona, mas a diversidade das escolhas é ainda mais reveladora.

Boogarins revisitam “Bomba ‘H’ Sobre São Paulo”. Sandra Sá interpreta “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?”. Zé Ramalho participa com “Fique Aqui Comigo”, enquanto Helio Flanders surge com “I Fell in Love One Day”.

Leo Jaime regressa também a uma relação criativa que partilhou com Arnaldo Baptista nos anos 1970. O projeto reúne ainda músicos associados a diferentes momentos do rock brasileiro, da canção popular e da música independente.

Não existe aqui uma geração a prestar homenagem a outra.

Existem artistas de diferentes gerações a encontrar algo nas mesmas canções.

Essa diferença é decisiva.

Uma influência torna-se realmente interessante quando deixa de ser uma obrigação ou uma referência decorativa. Quando ninguém precisa de soar como o artista que admira para reconhecer a importância daquilo que recebeu.

É nesse ponto que as 56 versões deixam de ser apenas um conjunto de tributos e passam a mostrar quantas possibilidades continuam escondidas dentro da mesma obra.

O respeito não está em copiar Arnaldo Baptista

Uma homenagem pode tornar-se irrelevante quando confunde respeito com reprodução.

Copiar um arranjo, imitar uma voz ou tentar reconstruir uma época pode parecer uma demonstração de fidelidade. Mas uma obra não ganha necessariamente uma nova vida por ser repetida.

O interesse deste projeto está precisamente na possibilidade de as canções de Arnaldo Baptista passarem para outras linguagens.

Cada artista parte da mesma matéria, mas leva-a para um território próprio. Algumas versões aproximam-se da memória das gravações originais. Outras afastam-se. Outras ainda recuperam relações pessoais e criativas com o próprio músico.

O Violeta de Outono incorporou trechos do piano original de Arnaldo Baptista numa nova leitura de “Jesus, Come Back to Earth”. Rod Krieger trabalhou com instrumentos e equipamento ligados ao músico para construir a sua versão de “The Cowboy”.

Não são gestos de reprodução.

São formas diferentes de manter uma ligação à origem sem tentar congelá-la.

E talvez seja essa a verdadeira prova de uma canção.

As melhores sobrevivem porque permitem que alguém lhes faça outra pergunta.

Aos 78 anos, Arnaldo Baptista ainda não pertence apenas ao passado

Arnaldo Baptista não precisa que mais de 60 artistas lhe expliquem a importância histórica.

Essa importância está estabelecida há muito tempo.

O que este projeto mostra é outra coisa: a obra continua a provocar respostas.

Músicos de diferentes gerações continuam a encontrar nestas canções espaço para experimentar, transformar e descobrir caminhos que não estavam necessariamente visíveis nas gravações originais.

Os Mutantes continuam a ser uma parte inevitável da história de Arnaldo Baptista. Esta homenagem não tenta discutir isso.

Prefere mostrar aquilo que acontece quando, por um momento, se olha para outro lado.

Para a carreira a solo.

Para as canções que ficaram fora do centro da narrativa.

E para os músicos que, décadas depois, continuam a encontrá-las.

Aos 78 anos, Arnaldo Baptista recebe uma homenagem de mais de 60 artistas. Mas talvez o número não seja o mais importante.

O mais interessante é que as suas canções continuam a mudar de mãos.

E ainda não se sabe até onde podem chegar.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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