A história da música eletrónica nos Açores tem nomes que surgem com frequência quando se fala de pioneirismo, mas poucos percursos atravessam tantas décadas de criação, experimentação e reinvenção como o de Mário Raposo. Nascido em São Miguel, o músico e compositor construiu uma obra que passa pela eletrónica, new age, bandas sonoras, publicidade, teatro infantil e colaboração com vários artistas açorianos, sempre guiado pela curiosidade e pela vontade de explorar novos territórios sonoros.
Muito antes de a música eletrónica ganhar a visibilidade que tem hoje, já Mário Raposo procurava nos sintetizadores uma forma diferente de criar e imaginar música. Em 1985, ao lado de Jorge Paulo Moniz, fundou o RAM, considerado o primeiro projeto de música eletrónica dos Açores. Desde então, o seu percurso tem sido marcado por uma constante procura de novas sonoridades, influenciado por nomes como Jean-Michel Jarre, Vangelis, Kraftwerk e Tangerine Dream, mas sem nunca perder uma identidade própria.
Nesta conversa com o Musicatotal, recorda os primeiros passos na música, fala da aventura pioneira do RAM, das bandas sonoras, das colaborações artísticas e da evolução da eletrónica nas ilhas. Uma viagem por mais de quatro décadas de criação musical vista por alguém que continua a olhar para o futuro com a mesma curiosidade dos primeiros dias.

Crescer em São Miguel numa altura em que a música eletrónica era quase inexistente nos Açores obrigava a criar o próprio caminho. Como começou essa descoberta dos sintetizadores e da composição?
Mário Raposo: Lembro-me de que ainda era muito pequeno, nem 10 anos tinha, quando os meus pais me ofereceram um pequeno teclado no Natal. Nessa mesma noite pus-me a tocar uma melodia natalícia, penso que “Noite Feliz” (Silent Night), algo que rapidamente chamou a atenção da família. Do lado paterno existe uma forte tradição de gosto pela música e isso acabou por se refletir em mim.
O fascínio pelos sintetizadores surgiu através de géneros que nem sequer eram considerados música eletrónica, como o funk e a disco dos anos 70. Sempre gostei de ritmo e, quando esse ritmo vinha acompanhado por sons eletrónicos, melhor ainda. Entre os artistas que mais me marcaram nessa fase estavam Giorgio Moroder e o grupo francês Space.
Comecei a fazer as minhas primeiras composições na adolescência, quando os meus pais me ofereceram um órgão antigo, com pernas de madeira, que soava quase como um acordeão e funcionava com uma ventoinha. O meu primeiro verdadeiro sintetizador foi um Casio CZ-101, adquirido pouco depois de o Jorge Paulo Moniz comprar o dele. Foi aí que nasceu o projeto eletrónico RAM.
Recorda-se do momento em que percebeu que nomes como Jean-Michel Jarre, Vangelis ou Kraftwerk iam mudar a forma como via a música?
M R: Tenho ideia de ter começado pelos Kraftwerk, através do álbum The Man-Machine, que continua a ser o meu favorito. Curiosamente, a primeira vez que ouvi Equinoxe, de Jean-Michel Jarre, não fiquei particularmente impressionado. Só mais tarde, quando voltei a ouvi-lo, comecei a sentir um fascínio enorme por aquele som que parecia transportar-me para outros mundos. Ainda hoje considero esse disco uma das melhores obras da música eletrónica.
O fascínio por Vangelis continua, de certa forma, envolto em algum mistério. Lembro-me apenas de que o primeiro álbum dele que ouvi foi Albedo 0.39, de 1976. Houve uma época em que as rádios e até a televisão passavam ocasionalmente temas dele sem eu saber quem era o autor. Julgo que isso me ajudou, aos poucos, a apreciar verdadeiramente a sua música.
Estes três nomes, aos quais mais tarde se juntaram os Tangerine Dream, foram decisivos para moldar a minha identidade musical mais eletrónica.
Em 1985 nasceu o projeto RAM, apontado como o primeiro projeto de música eletrónica dos Açores. O que representava fazer música eletrónica naquela época e naquele contexto insular?
MR : A nossa atração pelos sintetizadores e a possibilidade de investir num Casio CZ-101 foram os principais fatores que deram origem ao projeto. Não existia nenhum plano elaborado. Queríamos simplesmente juntar-nos, experimentar sons, improvisar melodias, acordes e batidas criadas com programadores de ritmo.
Os temas foram surgindo naturalmente e eram gravados em cassetes. Mais tarde juntaram-se dois elementos: Eduardo Tavares, na programação rítmica, e Luís Carreiro, nos sintetizadores.
É verdade que o equipamento que utilizávamos estava longe dos modelos de topo de marcas como Roland, Korg, Moog ou Oberheim, mas, dentro do contexto açoriano da época, penso que conseguimos afirmar uma presença importante na música feita exclusivamente com sintetizadores. Foi uma experiência divertida, enriquecedora e muito marcante.
A sua música atravessa o jazz, a música clássica, a new age, a eletrónica e até uma linguagem próxima da composição cinematográfica. Essas influências surgem de forma intuitiva ou existe um lado mais pensado na construção das composições?
MR: Penso que surgem naturalmente porque, além de autodidata, considero-me bastante eclético. Consigo encontrar beleza em géneros muito diferentes, desde a música clássica, que teve influência familiar, até à eletrónica, à new age, ao jazz-fusão, ao pop-rock, à world music e à música tradicional.
O interesse pelas bandas sonoras surgiu mais tarde. Sempre gostei de experimentar diferentes formas de expressão musical, tanto na composição como nos arranjos. Algumas ideias aparecem de forma intuitiva, outras resultam da experimentação. Como sempre gostei de mergulhar no meu próprio universo criativo, nunca me faltou tempo para explorar essas possibilidades.
Ao longo dos anos trabalhou em publicidade, rádio, documentários, teatro infantil e bandas sonoras. O que aprendeu nesses formatos que acabou por transportar para os seus discos pessoais?
MR: Por volta de 1995, a IRIS Audiovisuais, através de Carlos França e Luís Cordeiro, convidou-me para criar um jingle. Esse trabalho acabou por abrir portas para a composição de bandas sonoras para documentários, promocionais, publicidade e também para o telefilme Um Natal Distante, produzido em parceria com a RTP Açores.
Foi uma fase muito interessante e criativa. O teatro infantil teve um percurso paralelo, sobretudo porque muitas vezes exige uma abordagem semelhante à de uma banda sonora. Alguns projetos foram lançados em CD ou em formato podcast, onde a música assume um papel fundamental na narrativa.
Creio que essa experiência influenciou alguns dos meus álbuns mais conceptuais, particularmente trabalhos como Humanization ou Wolf 424.
Como foi o processo criativo da banda sonora de Um Natal Distante? Compor para imagem altera muito a forma de pensar a música?
MR: Sim, altera bastante. Embora a equipa da IRIS me tenha dado liberdade criativa, existe sempre a necessidade de respeitar o guião e as exigências dramáticas de cada cena.
Lembro-me de me inspirar em várias bandas sonoras que admiro, sobretudo na forma como determinados instrumentos clássicos são utilizados para reforçar emoções ou criar ambientes específicos. Foi um processo exigente, mas extremamente estimulante.
Para esse trabalho utilizei uma orquestra virtual baseada em samples e piano, procurando criar uma linguagem musical adequada à narrativa.
Participou em trabalhos de músicos como Luís Bettencourt, Aníbal Raposo e Carmen Raposo. O que mais aprecia numa colaboração artística?
MR: Aquilo que mais me interessa é a fusão de diferentes formas de expressão musical. Cada artista traz referências e sensibilidades próprias.
No caso do Aníbal Raposo, por exemplo, estamos a falar de um músico e poeta com influências muito distintas das minhas. Ainda assim, encontro pontos de contacto através da música portuguesa de qualidade, como José Afonso, Fausto, Trovante ou Júlio Pereira.
Normalmente dão-me liberdade para criar os arranjos, embora procure sempre respeitar a identidade do projeto. Com a Carmen Raposo tive a oportunidade de produzir integralmente um álbum de originais. Atualmente continuamos a atuar juntos e temos um tema original chamado Nosso Canto disponível nas plataformas digitais.
Muitas vezes estas colaborações acabam por gerar resultados inesperados e bastante gratificantes.
A atuação no Tremor aproximou a sua música de uma geração mais nova. Sentiu que o público começou a olhar para o seu percurso de forma diferente depois desse concerto?
MR: É difícil responder com certeza, mas gosto de acreditar que sim. Estou ligado à música eletrónica há muitos anos, mas nunca fui particularmente ativo nos concertos ao vivo com os meus projetos instrumentais.
Durante muito tempo tive a sensação de que este género tinha um público muito reduzido nos Açores. Hoje noto uma abertura muito maior, especialmente entre as gerações mais novas. As plataformas de streaming também ajudam a dar mais visibilidade ao trabalho desenvolvido por músicos independentes.
Tenho sentido uma maior proximidade das pessoas em relação aos meus projetos e pretendo continuar a atuar ao vivo sempre que surjam oportunidades.
Muitos dos seus trabalhos têm uma forte componente atmosférica. A insularidade açoriana influencia diretamente a forma como cria música?
MR: Penso que sim, mesmo que de forma indireta. Gosto muito da nossa terra e do contacto com a natureza. Tenho várias composições inspiradas por paisagens e ambientes açorianos, algumas das quais deverão integrar um novo álbum que pretendo editar ainda este ano.
Naturalmente, essa dimensão atmosférica também resulta da influência de artistas e bandas que admiro, mas viver nos Açores deixa sempre uma marca na forma como observamos o mundo e o traduzimos artisticamente.
Hoje existe um interesse renovado pela música ambiente, analógica e por uma eletrónica mais contemplativa. Como observa esta nova geração de produtores e compositores?
MR: Sou assumidamente da velha guarda da música eletrónica. Vejo muitos projetos atuais extremamente interessantes, alguns claramente influenciados pela eletrónica clássica e vintage.
Também encontro propostas muito sofisticadas do ponto de vista sonoro e tecnológico. No entanto, por vezes sinto que a componente composicional fica para segundo plano, tornando a música mais fria ou repetitiva. É apenas uma opinião pessoal.
Ao mesmo tempo, nunca houve tanta oferta como hoje. Existe uma enorme diversidade de projetos e isso permite que cada pessoa encontre aquilo com que mais se identifica. A procura por música contemplativa, relaxante e meditativa também cresceu bastante, o que demonstra que este tipo de linguagem continua a ter espaço e relevância.
Quando olha para o percurso feito desde os anos 80 até hoje, sente que a música eletrónica portuguesa ainda conhece pouco da história criada fora dos grandes centros?
MR: Penso que sim. Portugal nunca foi propriamente um dos maiores consumidores de música eletrónica. Durante décadas, este género ficou muitas vezes na sombra de estilos mais populares e comerciais.
Quando falamos de projetos desenvolvidos fora dos grandes centros urbanos, essa dificuldade torna-se ainda mais evidente. A divulgação continua a ser complicada e chegar a determinados meios nem sempre é fácil. Já tentei, por exemplo, promover a minha música junto de algumas rádios online importantes e encontrei resistência.
Continuo a achar que a música eletrónica produzida em Portugal merece uma divulgação muito mais consistente.
Depois de tantos anos ligados à composição e à experimentação sonora, o que continua a motivá-lo artisticamente e que ideias ainda gostaria de explorar no futuro?
MR: A própria música continua a ser a grande motivação. É um refúgio, uma forma de equilíbrio e um espaço de liberdade criativa.
Quem faz música por paixão sabe que nunca consegue prever totalmente o que vem a seguir. Em 2021, por exemplo, fui convidado por um jornalista de Nova Iorque para integrar um projeto internacional relacionado com o documentário The Outlaw Ocean. Essa experiência levou-me a explorar novas sonoridades ligadas à world music e à música étnica.
No futuro gostaria de realizar mais atuações ao vivo, embora saiba que serão pontuais. Também mantenho algum interesse pelas bandas sonoras, apesar de reconhecer que é uma área extremamente competitiva e exigente.
Ainda assim, gosto de acreditar que novas oportunidades podem surgir a qualquer momento. É precisamente essa possibilidade que mantém viva a vontade de continuar a criar.




