Uma canção de embalar costuma servir para adormecer. “Do Berço”, o novo single de Mau Uivo, faz quase o contrário. A voz multiplica-se, as camadas começam a ocupar espaços diferentes e aquilo que poderia ser uma melodia de conforto ganha uma estranheza difícil de ignorar. O tema chega hoje, 25 de setembro, e é o segundo avanço de Berçário, EP de estreia de Miguel Menezes, com edição marcada para 13 de novembro.
Depois de “Casa Branca”, apresentada em julho, Mau Uivo volta a entrar num território onde a canção não precisa de seguir uma linha previsível. Em “Do Berço”, a memória aparece menos como recordação e mais como matéria sonora, feita de vozes, silêncios, sobreposições e pequenas deslocações.
Uma canção de embalar que não adormece
A cadência está lá, mas não conduz necessariamente ao descanso. Miguel Menezes parte da ideia de uma canção de embalar e vai desmontando aquilo que esperamos encontrar nesse formato.
A voz é o elemento que mais transforma a faixa. Registos agudos e graves cruzam-se, sobrepõem-se e parecem pertencer a momentos diferentes da mesma história. Em determinados momentos existe intimidade; noutros, a sensação é de distância. A música deixa espaço para que essas duas coisas coexistam.
Não é apenas uma questão de cantar várias partes. Menezes utiliza a própria voz como instrumento, criando camadas que alteram a percepção da canção e tornam menos evidente onde começa uma personagem e termina outra.
“A voz deixa de ser apenas voz e passa a funcionar como matéria sonora.”
Miguel Menezes entre a canção e a experimentação
O percurso de Miguel Menezes ajuda a perceber de onde vem esta abordagem. Contrabaixista ligado à música clássica, às orquestras e ao jazz, o músico transporta para Mau Uivo uma experiência construída em diferentes linguagens musicais.
Em “Do Berço”, essa experiência não aparece como demonstração técnica. Está na forma como os sons são organizados e na liberdade para deixar a composição escapar às estruturas mais convencionais da canção.
Menezes assume composição, produção, gravação e interpretação vocal, construindo praticamente sozinho o universo do tema. Guitarra, voz, sampling e tratamento sonoro vão formando uma peça em que a textura tem quase tanta importância como a melodia.
O som ganha uma segunda dimensão
A mistura e a masterização de “Do Berço” são assinadas por Nelson Carvalho, num trabalho particularmente importante para uma faixa construída a partir de várias camadas vocais.
A dimensão visual fica novamente entregue a Filipe C. Monteiro, colaborador habitual de Miguel Menezes, responsável pelo videoclipe oficial. A imagem prolonga o universo criado pela música sem retirar à faixa o espaço necessário para ser escutada por si própria.
“Do Berço” acaba por funcionar nesse ponto de equilíbrio entre uma canção reconhecível e uma peça que está constantemente a deslocar os seus próprios limites.
Berçário começa a ganhar forma
O single é o segundo avanço de Berçário, EP de estreia de Mau Uivo, previsto para 13 de novembro. O trabalho reúne cinco temas totalmente escritos, produzidos, gravados e interpretados por Miguel Menezes.
O alinhamento inclui “Casa Branca”, “Do Berço” e o futuro single “Lição”, além de uma faixa instrumental. A guitarra e a voz surgem como bases importantes, mas o trabalho desenvolve-se através de tratamento vocal, amostragem, manipulação sonora e exploração de ambientes alternativos.
A mistura do EP foi assegurada por Moritz Kerschbaumer, enquanto a masterização ficou novamente a cargo de Nelson Carvalho.
Berçário parece nascer desse espaço entre aquilo que já conhecemos e aquilo que ainda está a ganhar forma. “Do Berço” é, por agora, a parte mais inquieta desse processo. Uma canção que parte de um gesto antigo, quase familiar, mas que prefere deixar a luz acesa.
