O enquadramento é quase injusto. Praia do Monte Verde, falésia, mar aberto, pôr do sol açoriano. A paisagem faz metade do trabalho.

 

O problema é que, quando o cenário é tão forte, a música precisa de estar à altura. E nem sempre está.

O MEO Monte Verde cresceu em dimensão e visibilidade nos últimos anos. Tornou-se ponto de encontro importante no verão açoriano e atrai público continental e internacional. Mas há uma sensação persistente de que o festival ainda não decidiu o que quer ser.

Cartazes seguros, risco mínimo

A programação tende a seguir uma lógica previsível. Nomes que garantem bilheteira, artistas com presença constante nos festivais portugueses, uma mistura de pop, urbano e indie acessível. Funciona. Enche. Mas raramente surpreende.

Falta curadoria com personalidade. Falta uma linha estética clara que diferencie o Monte Verde de tantos outros festivais de verão. Quando se olha para o cartaz, é difícil identificar um fio condutor artístico que vá além da lógica comercial.

O peso da localização

Ir aos Açores não é o mesmo que ir a um festival no continente. Implica avião, custos adicionais, planeamento. Isso cria uma expectativa maior. Quem faz esse esforço espera algo único, irrepetível.

A paisagem ajuda, claro. Mas não substitui identidade cultural. O festival poderia explorar mais a insularidade, as ligações atlânticas, a música das diásporas. Poderia transformar a geografia em conceito artístico. Até agora, isso acontece apenas de forma superficial.

Dimensão versus ambição

O Monte Verde apresenta-se como grande evento açoriano. E é, dentro do contexto regional. Mas quando comparado com grandes festivais europeus, a escala é outra. O marketing cria expectativa de megaevento. A experiência real é mais contida.

Nada disso é necessariamente negativo. O problema surge quando a comunicação promete mais do que a programação entrega. O público atual é exigente. Já viu muito. Já viajou. Já comparou.

Dependência do formato clássico

A estrutura repete o modelo típico de festival patrocinado. Palco principal, nomes fortes, alguma diversidade sonora, presença de marca muito visível. É fórmula consolidada. Mas também é fórmula saturada.

Num mercado onde quase todas as cidades têm festival de verão, destacar-se exige visão. O Monte Verde tem o cenário natural. Falta transformar essa vantagem em identidade artística consistente.

Potencial ainda por cumprir

O mais curioso é que o festival não é fraco. É competente. Funciona logisticamente. Gera impacto económico local. Traz nomes reconhecidos. Cumpre.

Mas cumprir já não chega. A pergunta é outra. Pode ser mais do que isso?

Com a paisagem que tem, com a posição geográfica estratégica no Atlântico, o Monte Verde poderia tornar-se referência diferenciadora. Poderia arriscar mais, apostar em curadoria ousada, criar experiências paralelas que vão além do palco principal.

Por enquanto, vive muito bem do postal. E talvez esteja confortável aí. Mas os festivais que marcam época são os que decidem arriscar antes de serem obrigados a fazê-lo.

Os artigos sobre o Festival Monte Verde ao longo dos anos