Entre a palavra dita e a música que se insinua nas pausas, nasce um objeto raro. “Os Melros” é o primeiro álbum de Miguel da Silva e chega a 20 de março de 2026 com uma ideia simples mas ambiciosa: colocar a viola de fado em diálogo direto com poesia inédita de João Monge.

O projeto parte de uma imagem estranha e sedutora. “Os melros voam a tinta-da-china e só comem ovo estrelado”. Dois versos que parecem brincar com o absurdo e com o quotidiano. Mas é precisamente nesse território que o disco se constrói, entre imaginação, humor e uma musicalidade que procura novas formas dentro da tradição portuguesa.
Um disco onde música e poesia respiram juntas
“Os Melros” nasce de uma colaboração próxima entre o guitarrista e compositor Miguel da Silva e o poeta João Monge. Em vez de tratar a poesia como simples texto declamado sobre música, o álbum procura um diálogo mais orgânico. Cada faixa funciona como um espaço onde palavra e som crescem juntos.
A viola de fado assume aqui o papel central. Miguel da Silva trabalha o instrumento para além da função habitual de acompanhamento, explorando ostinatos, variações tímbricas e pequenas estruturas melódicas que abrem espaço à voz e à interpretação.
As palavras de João Monge surgem então como matéria viva. Versos enigmáticos, imagens inesperadas e pequenas provocações poéticas que convidam o ouvinte a completar o significado.
Um elenco de vozes e intérpretes
Para dar corpo ao universo criado entre música e poesia, Miguel da Silva reuniu um conjunto de intérpretes ligados ao teatro e à palavra dita. André Gago, Maria João Luís, Pedro Lamares, Sandro Feliciano e Zeca Medeiros são responsáveis por revelar os textos de João Monge ao longo do disco.
A dimensão vocal é ampliada por um ensemble composto por Sara Afonso, Manon Marques, Pedro Miguel e Filipe Leal. As vozes surgem como camada musical, criando harmonias e texturas que atravessam o disco com delicadeza.
Nas percussões, Iúri Oliveira acrescenta energia e movimento, cruzando ritmos tradicionais com abordagens mais contemporâneas. Em momentos específicos, a voz de Andrea Imaginario surge como elemento expressivo adicional, reforçando a dimensão emocional do trabalho.
O single “Os Melros”
O primeiro avanço do álbum é precisamente o tema que lhe dá nome. “Os Melros” parte diretamente dos versos de João Monge que inspiraram o projeto. A imagem dos pássaros desenhados “a tinta-da-china” transforma-se numa ideia musical marcada por repetição hipnótica da viola e por camadas vocais que expandem o cenário sonoro.
Entre humor, estranheza e imaginação, a música procura traduzir esse jogo entre o real e o fantástico. A sensação é de algo familiar, mas ligeiramente deslocado. Como se o fado estivesse a olhar para um território novo.
Ante-estreia em Lisboa
Antes da edição oficial, o público terá oportunidade de ouvir parte deste universo ao vivo. “Os Melros” será apresentado a 19 de março de 2026, às 18h30, na Atmosfera M, em Lisboa, numa sessão integrada no ciclo Ciclo de Poesia e qualquer coisa mais.
Neste encontro especial, Miguel da Silva convida Maria João Luís e André Gago para dar voz à poesia de João Monge. Acompanhado por Ciro Bertini e Iúri Oliveira, o concerto funciona como uma porta de entrada para o disco que chega no dia seguinte.
Entre versos enigmáticos e cordas de viola que se repetem como pensamento em movimento, “Os Melros” começa a ganhar vida ali. Talvez como naquele verso inicial que continua a ecoar. Melros desenhados no ar, um traço de tinta negra no céu. E a sensação de que a música ainda está a começar.

