O Misty Fest continua a afirmar-se como um dos poucos espaços em Portugal onde a música se vive como experiência e não apenas como espetáculo. A 17ª edição, marcada para novembro, aprofunda essa linha ao anunciar dois nomes que trabalham precisamente nessa fronteira entre som, corpo e perceção: East Forest e Niklas Paschburg.

Mais do que concertos, o festival propõe encontros. E neste caso, encontros com duas abordagens distintas ao mesmo impulso: usar a música como ferramenta de expansão sensorial, emocional e até espiritual.
East Forest e a música como prática interior
Por detrás de East Forest está Krishna-Trevor Oswalt, figura central num movimento que cruza música, meditação e estados alterados de consciência. Desde 2008, o seu trabalho tem vindo a construir um espaço sonoro que não se limita à escuta tradicional. Funciona como guia.
O mais recente projeto, Lovingly: A Soundtrack For The Psychedelic Practitioner, vol. III, leva essa ideia ao limite. Com mais de seis horas de duração, nasce de sessões ao vivo em contextos terapêuticos, pensadas para acompanhar jornadas completas. É música que não pede atenção fragmentada. Exige entrega.
Um percurso global entre espiritualidade e eletrónica
Ao longo de mais de 30 álbuns, East Forest tem cruzado linguagens que à partida parecem distantes: ambient, neoclássico, eletrónica e até traços de avant-pop. Esse cruzamento não surge como exercício estético, mas como necessidade funcional dentro da experiência que propõe.
As colaborações com figuras como Ram Dass ou Jon Hopkins ajudam a contextualizar esse percurso. Há aqui uma ideia clara de comunidade artística focada na transformação pessoal através do som.
Niklas Paschburg e o equilíbrio entre tradição e eletrónica
No outro extremo, mas com pontos de contacto evidentes, surge Niklas Paschburg. A sua formação clássica no piano convive com uma exploração contínua dos sintetizadores, criando um território híbrido onde o acústico e o digital não competem, complementam-se.
Álbuns como Oceanic, Svalbard e Panta Rhei mostram essa evolução. Existe uma sensibilidade melódica evidente, mas também uma curiosidade constante em expandir texturas e ambientes.
Um novo capítulo com L’Écho de Bretagne
O mais recente EP, L’Écho de Bretagne, marca uma nova fase. Mais cinematográfico, mais atmosférico, aponta para um espetáculo ao vivo que se quer imersivo e emocionalmente intenso.
Niklas Paschburg tem vindo a circular entre contextos muito distintos, de clubes a igrejas, de festivais a salas de concerto. Essa versatilidade traduz-se numa linguagem acessível sem perder profundidade.
Um festival que aposta na experiência
O Misty Fest mantém assim a sua identidade: menos centrado em nomes massivos e mais focado em propostas que desafiam a forma como se ouve música ao vivo.
A presença de East Forest e Niklas Paschburg não é apenas um anúncio de programação. É uma declaração de intenção. Novembro aproxima-se com a promessa de concertos que pedem silêncio, atenção e talvez algo mais difícil de definir.

