Num momento em que o debate cultural volta a ganhar urgência, a discoteca Jamaica, em Lisboa, prepara-se para receber um lançamento que cruza pensamento, memória e intervenção. Não é apenas a chegada de um livro às livrarias.

É também um gesto simbólico: levar reflexão crítica para um espaço historicamente ligado à noite, à música e à convivência urbana.
“O Poder da Cultura: Questões Permanentes”, de António Pinto Ribeiro, reúne textos escritos ao longo de quase três décadas, entre 1996 e 2023. O livro chega às livrarias a 26 de março e propõe uma leitura contínua das transformações culturais, sociais e políticas que marcaram este período.
Três décadas de pensamento reunidas num só volume
A base desta obra está na reunião de ensaios que atravessam diferentes fases do pensamento contemporâneo. O autor organiza textos que dialogam entre si, apesar da distância temporal, criando uma linha de continuidade que permite perceber como certas questões permanecem em aberto.
Ao longo destas páginas, surgem reflexões sobre a evolução dos modos de conhecimento, a transformação dos sistemas de comunicação e o impacto direto dessas mudanças na forma como as sociedades se organizam. O livro não funciona como arquivo fechado. Pelo contrário, mantém-se em movimento, como se cada texto continuasse a responder ao presente.
Cultura, memória e transformação social
Um dos eixos centrais da obra é a relação entre cultura e memória. António Pinto Ribeiro trata a memória não como registo passivo, mas como ferramenta ativa de interpretação do mundo. É através dela que se constroem leituras críticas sobre o presente e possibilidades de ação coletiva.
O contexto global também atravessa o livro. As mudanças geopolíticas, os fluxos migratórios e a crescente complexidade das democracias surgem como forças que pressionam e redefinem o campo cultural. Neste cenário, a cultura deixa de ser apenas expressão para se afirmar como espaço de resistência e reorganização social.
Do conceito de “cultura” ao “cultural”
Um dos pontos mais interessantes da obra está na problematização do próprio termo “cultura”. O autor considera-o insuficiente para descrever a complexidade atual. Em vez disso, propõe o conceito de “o cultural”, inspirado no pensamento de Arjun Appadurai.
Este “cultural” surge como um sistema aberto, em constante transformação, onde coexistem diferentes identidades, práticas e tensões. Não há fronteiras fixas nem definições rígidas. Existe um campo dinâmico, onde tudo está em relação.
Essa mudança conceptual não é apenas teórica. Tem implicações diretas na forma como se pensa a produção artística, a política cultural e o papel das comunidades no mundo contemporâneo.
Um livro que insiste na relevância da cultura
“O Poder da Cultura” afirma-se como um conjunto de ensaios que não procura respostas definitivas. O foco está na capacidade da cultura enquanto sistema vivo, capaz de gerar sentido, resistência e até esperança em contextos de instabilidade.
O lançamento na Jamaica reforça essa ideia de cruzamento entre teoria e vida real. Um espaço marcado pela música e pela história urbana acolhe agora um livro que pensa exatamente isso: como os contextos moldam as práticas culturais e como estas, por sua vez, devolvem significado ao mundo.
Entre páginas que atravessam décadas e um presente em constante mutação, fica a sensação de que estas questões não se fecham aqui. Continuam a deslocar-se, a ganhar novas formas, talvez à espera de outras leituras, noutros lugares, noutras noites.

