Sexta-feira, Fevereiro 20, 2026

OMNILAB +: uma residência artística para músicos 60+ onde a criação ganha outro tempo

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Durante seis dias, a Black Box do Teatro José Lúcio da Silva deixou de ser apenas uma sala de espetáculo. Tornou-se laboratório, refúgio e ponto de partida. Entre 1 e 6 de dezembro, quatro músicos com mais de 60 anos reuniram-se ali para criar de raiz, sem pressa e sem nostalgia encenada.

 

 

O OMNILAB + surge como um novo momento dentro do universo OMNILAB, com uma proposta clara: abrir espaço a outras gerações e afirmar que a música não reconhece limites etários. Desta residência nasceu um tema original, “Rock Ingolês”, e um mini-documentário que acompanha todo o processo criativo em formato banda.

Um laboratório pensado para outras gerações

A ideia de dedicar uma residência artística a músicos seniores não é apenas simbólica. É uma tomada de posição. Num panorama cultural frequentemente centrado na novidade e na juventude, o OMNILAB + desloca o foco para a experiência acumulada e para a maturidade como matéria criativa.

Cristóvão Santos na guitarra e voz, Vítor Salvino no bandolim, Rogério Fonseca no baixo e António Afonso na bateria aceitaram o desafio de voltar a organizar o quotidiano em torno de ensaios, conversas e escuta ativa. A Black Box tornou-se espaço de partilha de referências, memórias e expectativas. Não se tratou de revisitar repertório antigo, mas de construir algo novo, em coletivo.

“Rock Ingolês”: memória transformada em canção

Entre diálogos, tentativas e ajustes, ganhou forma “Rock Ingolês”. O ponto de partida foi uma letra escrita por Camilo Barata, amigo de longa data de um dos participantes. O texto tinha uma história própria. Em 1982, na praia do Pedrógão, foi cantado como serenata numa roda de amigos.

Décadas depois, essa memória regressa com outra densidade. A canção fala de amor e amizade, mas carrega também o peso do tempo vivido. Ao ser trabalhada em residência, deixou de ser apenas recordação para se tornar composição coletiva. Cada instrumento acrescentou uma camada, cada ensaio redefiniu o equilíbrio. O resultado é um tema que cruza passado e presente sem se prender a nenhum deles.

O processo como protagonista

Mais do que apresentar um single, o OMNILAB + decidiu documentar o caminho. O mini-documentário acompanha os dias de trabalho, revela os momentos de dúvida, as primeiras versões imperfeitas, os silêncios antes de uma nova tentativa.

Este registo valoriza aquilo que muitas vezes fica fora do olhar público: o processo. Criar implica negociar ideias, experimentar soluções, aceitar falhas. Mesmo com décadas de experiência, cada ensaio é território novo. O filme torna visível essa construção coletiva e reforça a dimensão humana do projeto.

Um sinal para o futuro das residências 60+

O lançamento de “Rock Ingolês” e do documentário consolida o OMNILAB como plataforma de encontro, escuta e criação em diferentes fases da vida. Esta primeira edição do OMNILAB + não surge como episódio isolado. Abre caminho a futuras residências dedicadas a músicos com mais de 60 anos.

Num contexto em que a longevidade artística raramente é colocada no centro do debate, iniciativas como esta ajudam a reequilibrar a narrativa. A experiência deixa de ser vista como passado acumulado e passa a ser matéria ativa. O projeto continuará atento a novos participantes, através das redes da Omnilab e da Omnichord.

O que ficou daquela semana em Leiria não se resume a uma gravação ou a um filme. Ficou a sensação de que, quando há tempo, escuta e vontade, a criação encontra sempre espaço. E talvez seja precisamente aí que a música continua a provar a sua resistência.

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