Os Azeitonas lançam “Palma da Mão” antes do regresso ao Tivoli BBVA

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O rock português dos anos 2000 habituou-se a olhar para dentro. Agora olha para o ecrã. No arranque de 2026, Os Azeitonas recuperam uma canção escrita em 2007 e transformam-na num comentário direto ao presente. “Palma da Mão” chega numa altura em que a discussão sobre dependência digital já não é tendência, é rotina.

 

O single antecede o concerto de 12 de março no Teatro Tivoli BBVA, que marca o regresso da banda a Lisboa após nove anos. O momento não é apenas promocional. Funciona como reposicionamento simbólico de um grupo que sempre soube observar o quotidiano com ironia, mas que agora troca o sorriso enviesado por uma tensão mais explícita.

Uma canção resgatada com nova intenção

“Palma da Mão” esteve guardada durante quase duas décadas. A melodia existia, a ideia também, mas faltava-lhe urgência. Essa urgência chegou. A nova letra atualiza o tema e aponta ao centro do problema: a dependência crescente do ecrã e a forma como ele altera a nossa maneira de estar e ver o mundo.

A própria banda descreve o tema como um grito de revolta rock. Não há metáforas excessivas nem rodeios conceptuais. Existe frustração, existe alerta. Existe também a consciência de que a música continua a ser o território onde conseguem responder ao desconforto coletivo.

Entre identidade e maturidade sonora

A assinatura mantém-se fiel ao ADN do grupo. Letra de Marlon, música de Marlon e Salsa. A diferença sente-se no peso da produção. André Indiana assume produção e mistura, trazendo maior densidade ao som, enquanto Mário Barreiros trata da masterização com o rigor técnico que lhe é reconhecido.

O resultado não soa a relíquia recuperada. Soa a canção que esperou o tempo certo. A crueza mantém-se, mas há uma maturidade que não existia em 2007. O discurso é menos ingénuo, mais direto. Talvez porque o contexto também o exige.

O regresso a Lisboa como ponto de viragem

O concerto no Tivoli BBVA não é apenas mais uma data. Representa o reencontro com a capital depois de nove anos de ausência. Esse intervalo cria expectativa. E também responsabilidade.

No alinhamento estará “Palma da Mão”, mas não só. A noite contará ainda com convidados como Ana Bacalhau e Luís Trigacheiro, dois nomes que cruzam gerações e ampliam o alcance do espetáculo. A escolha não parece aleatória. Sugere diálogo entre fases distintas da música portuguesa contemporânea.

Um gesto pequeno num debate maior

Falar sobre dependência digital através de uma canção pode parecer gesto modesto. Mas o rock sempre funcionou como comentário social, mesmo quando disfarçado de refrão simples. Aqui, a crítica é frontal e assume posição.

Num panorama nacional onde muitas vezes se evita confronto direto, a banda opta por apontar o dedo ao hábito coletivo que nos ocupa a palma da mão todos os dias. A ironia do título é evidente, mas o desconforto é real.

Os bilhetes para o concerto já se encontram à venda. O palco está preparado. A pergunta que fica não é se a canção resulta ao vivo. É perceber até que ponto estamos dispostos a ouvir aquilo que ela nos está a dizer enquanto seguramos o telemóvel.

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