Lisboa voltou a acordar com o corpo a mexer antes da cabeça perceber porquê. O novo single de Pedro Mafama já está disponível em todas as plataformas digitais e chega como um gesto claro de afirmação: a pista de dança também pode ser território de memória, fricção e identidade.
Em “GANDAIA”, o músico junta-se a Petty, voz incontornável na génese dos Buraka Som Sistema, e entra de frente no pulsar da Quinta do Mocho. O resultado é um tema que cruza Batida, herança tradicional e eletrónica europeia num mesmo fôlego, sem pedir licença a géneros ou fronteiras.
A noite como ponto de partida
Pedro Mafama construiu uma carreira a partir do risco. Em “Ikea” desmontou a ansiedade urbana com ironia crua. Em “Minotauro” explorou o labirinto emocional entre Lisboa e São Paulo. Agora, em “GANDAIA”, escolhe a noite como narrativa e como espaço político.
A canção começa como quem sai de Luanda ao cair da tarde e aterra em Lisboa já com o grave no peito. Há uma sensação de deslocação constante, mas também de pertença. Mafama não descreve a cidade, atravessa-a. E nessa travessia, a pista torna-se arquivo vivo.
Petty e a herança da Batida
A presença de Petty não é apenas um convite simbólico. A sua voz carrega a memória da explosão que os Buraka Som Sistema provocaram na música portuguesa e europeia. Ao juntá-la a este novo contexto, Mafama não cita o passado, atualiza-o.
A produção executiva de El Conductor sustenta essa tensão entre raiz e projeção. O ritmo bebe diretamente da Batida de Lisboa e do Kuduro, com contributo de Diiony G, produtor ligado à Quinta do Mocho e à órbita da Príncipe Discos. O groove é físico, direto, quase inevitável. Não é um exercício de estilo. É afirmação de território.
Tradição reinventada sem folclore
Um dos gestos mais ousados de “GANDAIA” é o uso de um sample associado ao trabalho de Michel Giacometti e aos Galandum Galundaina. A herança tradicional portuguesa surge aqui descontextualizada e reconfigurada, encaixada num ambiente de clubbing contemporâneo.
Não há intenção museológica. O passado não é tratado como peça de vitrine. É matéria-prima em movimento. Ao lado de nomes como Pedro Gerardo, Sónia Trópicos e Púrpura, Mafama constrói uma produção plural, onde diferentes linguagens se cruzam sem hierarquia rígida. A tradição dança com o sintetizador e não pede desculpa por isso.
Um percurso sem fórmulas
Quem acompanha Pedro Mafama desde “Como Assim” reconhece um padrão curioso: a ausência de padrão. De “Por Este Rio Abaixo” ao universo popular e intenso de “Estava no Abismo e Dei um Passo Em Frente”, o artista tem recusado zonas de conforto.
“GANDAIA” reforça essa recusa. O tema aponta para um novo álbum ainda envolto em reserva, mas já sugerido como culminar de uma caminhada feita de desvios calculados e intuição. Mafama posiciona-se como catalisador de mundos, alguém que não separa fado, batida, tradição e eletrónica em compartimentos estanques.
Neste encontro com Petty e com o coração rítmico da Quinta do Mocho, percebe-se que a música lusófona contemporânea continua a deslocar o seu centro. E talvez a pergunta não seja para onde vai agora, mas quem terá coragem de acompanhar o próximo passo.


