Mudanças subtis no processo criativo costumam dizer mais do que viragens declaradas. O novo trabalho de James Hoare surge precisamente nesse território: um disco que não rompe com o passado de forma explícita, mas que desloca o centro de gravidade do seu som.

A poucos dias da mudança para o sul de França, o músico decidiu registar ideias de forma quase imediata, deixando que o acaso, o tempo curto e a urgência moldassem o resultado final.
Double Exposure chega a 17 de abril e apresenta-se como um objeto instável, construído a partir de impulsos rápidos e decisões pouco filtradas. Mais do que um statement fechado, o disco funciona como um registo de momento, capturado com a imperfeição e a espontaneidade que isso implica.
Guitarras em segundo plano, textura em primeiro
Há um detalhe que salta logo à escuta: as guitarras deixam de ser o eixo principal. Não desaparecem, mas recuam. Passam a surgir como textura, como fragmento, como eco. Essa escolha altera profundamente a forma como as canções respiram.
“Regrets”, o tema de abertura, ainda guarda um gesto clássico com o seu solo duplo a atravessar o estéreo, mas rapidamente se percebe que o disco prefere outros caminhos. Órgãos crus, caixas de ritmos rudimentares e camadas instáveis assumem o protagonismo. O som torna-se mais físico, mais próximo, quase táctil.
Um disco de contrastes e estados mentais
Existe uma dualidade constante ao longo do álbum. “Worst Trip” mergulha num território sombrio e inquieto, enquanto “You’ve Got the Key” responde com uma leveza psicadélica que remete para outra época, quase como se tivesse sido gravada décadas atrás.
“Everything’s Easy” desloca novamente o eixo, aproximando-se de uma soul branca, luminosa, pensada para viagens longas e silenciosas. Nada permanece fixo durante muito tempo. Cada faixa abre uma porta diferente, sem preocupação em manter coerência linear. O que existe é uma lógica emocional, não estrutural.
O papel central das máquinas e da urgência
“Rear View Mirror”, single de apresentação, condensa bem a abordagem do disco. As caixas de ritmos dominam o espaço e empurram a canção para uma repetição quase hipnótica. A referência pode apontar para um certo minimalismo eletrónico filtrado por sensibilidades indie, mas o mais importante aqui é o método.
Grande parte do álbum foi gravada de forma quase instantânea. Sem excesso de overdubs, sem arranjos minuciosos. A ideia era capturar a primeira forma das canções, antes que fossem racionalizadas. Isso dá ao disco uma qualidade crua, por vezes próxima de uma demo, mas também mais honesta na sua intenção.
Entre fita magnética e memória difusa
Gravado numa máquina de fita de 16 pistas, Double Exposure assume a sua natureza analógica não como estética retro, mas como ferramenta prática. Limitações técnicas tornam-se decisões criativas. O erro, o ruído e a imperfeição passam a fazer parte da linguagem.
Faixas como “Instrumental No. 1” ou “Riverside Drive” reforçam essa ideia de captura momentânea. Surgem, desenvolvem-se o suficiente e desaparecem sem insistência. Como uma imagem sobreposta que nunca chega a fixar-se totalmente.
O título acaba por funcionar como chave de leitura. Dupla exposição. Camadas que coexistem sem hierarquia clara. Ideias que não foram pensadas para durar, mas que, por isso mesmo, acabam por deixar um rasto mais difícil de ignorar.










