Tudo começou durante um apagão, mas a ideia de desligar a eletricidade acabou por abrir um novo caminho para os Pink Pussycats From Hell. Em Hellectricless, o duo transforma a energia do garage rock numa experiência acústica, experimenta novas formas de dar vida às canções e descobre que, por vezes, retirar a distorção permite encontrar outras camadas na música. Entre versões inesperadas, convidados improváveis e o humor que faz parte da identidade da banda, Mighty Hunter e Danger Rabbit explicam como nasceu este disco, o que aprenderam durante o processo e porque continuam a preferir não saber exatamente para onde os levará o próximo passo.
Tudo começou durante um apagão. Lembram-se do momento em que perceberam que aquela falta de eletricidade podia dar origem a um disco? Foi uma ideia imediata ou precisaram de algum tempo para perceber o que tinham nas mãos?
A ideia foi imediata. Perceber o que tínhamos nas mãos demorou um pouco mais, porque estava tudo às escuras. Esse momento foi mesmo só o mote inicial para o disco. Rapidamente se transformou num desafio de descobrir como poderiam funcionar as músicas neste novo formato.
O vosso som está muito ligado à distorção, ao volume e à energia do garage rock. Quando começaram a tocar as canções em formato acústico, qual foi a primeira coisa que vos surpreendeu?
Foi o facto de várias delas continuarem a funcionar, mas muitas vezes por razões diferentes das originais. O processo passou por experimentar algumas abordagens a todas as nossas músicas. Fomos trabalhando aquelas que funcionavam melhor. Nem sempre foram as que estávamos à espera. Tivemos algumas surpresas.
O título Hellectricless mantém o imaginário de Hell que acompanha a banda, mas brinca com a ausência de eletricidade. Como chegaram ao nome e em que medida o humor faz parte da maneira como encaram este projeto?
O humor é uma parte essencial do rock’n’roll e está lá desde o início. Existem muitas formas de fazer música, todas válidas, mas gostamos que a nossa viva na fronteira entre a realidade e a ficção. Levamos muito a sério o que fazemos, sem nos levarmos demasiado a sério.
Adaptar uma canção a outro formato pode mudar completamente a forma como ela funciona. Qual foi o tema mais difícil de transformar para este álbum? Houve alguma versão que acabou por seguir um caminho muito diferente do original?
Não sei se houve algum mais difícil. Todas foram experiências diferentes. Hellpless foi a primeira música que experimentámos e ficámos tão surpreendidos com o resultado que nos deu vontade de continuar e fazer um disco à volta desta ideia. Ficou bastante diferente do original. Tem vários dos mesmos ingredientes, mas, à primeira vista, parece quase um tema novo e funciona por si.
«Tainted Love» já foi interpretada de inúmeras maneiras. O que vos levou a escolher esta canção e como conseguiram aproximá-la do universo dos Pink Pussycats From Hell sem perder aquilo que a torna reconhecível?
Foi mais um desafio que pusemos a nós próprios. É um tema que está muito associado aos anos 80 e aos sintetizadores, mas, na realidade, o original é bem mais próximo do rock’n’roll. A primeira gravação foi feita por Gloria Jones, em 1964, e tem um ritmo bastante mais acelerado, com secção de metais e muito swing! Talvez tenha sido esse swing que a teleportou para o nosso mundo.
Hellectricless inclui também uma faixa inédita. Foi escrita de propósito para este disco ou surgiu durante o processo de trabalho? O facto de o álbum ter uma abordagem acústica condicionou a sua composição?
Foi um tema que surgiu durante as gravações, por isso nasceu já com a formação acústica. Tínhamos a ideia de incluir um tema inédito no disco, mas decidimos que não íamos forçar isso a acontecer. Acabou por ser numa tarde a tocar com uma amiga que surgiu a ideia que deu origem à música. É, aliás, a primeira vez que alguém externo à banda participa no processo de escrita. Talvez um dia possamos eletrificar a Hellectrolyte.
O álbum conta com a participação de The Midnight Crooks e do Portlock Brass Ensemble, com instrumentos que vão do piano e dos sintetizadores à tuba e ao trombone. Como surgiu esta formação e em que momento perceberam que as canções precisavam de mais do que a guitarra e a bateria do duo?
Como vivemos e trabalhamos num mundo que é só nosso, torna-se possível decidir quem lá existe. Surge a necessidade de gravar um trombone, o músico aparece, grava e desaparece logo de seguida. Facilita muito o processo!
Trabalhar com tantos músicos num projeto associado a um duo levanta desafios próprios. Como dividiram as decisões? Houve momentos em que as ideias de Mighty Hunter e Danger Rabbit seguiram direções diferentes?
É também muito simples. A regra é que é permitido experimentar tudo, mas só sobrevive o que for unânime entre nós. Podem mudar muitas coisas, mas, à partida, essa regra é para continuar.
Gravaram, misturaram, masterizaram e produziram o álbum no Donkey Shot Studios, em Lisboa. O que ganharam ao assumir todo esse controlo criativo e qual foi a parte mais exigente de levar Hellectricless do conceito inicial até à versão final?
Até agora, tem sido esse o processo. Fazer tudo tem desafios. A grande vantagem tende a ser, simultaneamente, o maior problema. Permite-nos avançar sem pressão em relação ao tempo, voltar atrás, mudar de ideias e experimentar tudo. Mas também é possível demorar imenso tempo a terminar. Temos ficado melhores a perceber quando parar.
«Hellpless», lançado a 25 de setembro, foi o primeiro avanço do álbum. Porque escolheram este tema para apresentar Hellectricless e o que revela sobre o disco que ainda não conhecíamos da banda?
Como já dissemos há pouco, acabou por ser o tema que serviu de arranque ao projeto. Continuámos a voltar a ele ao longo das gravações e acabou por funcionar como uma referência para o ambiente que queríamos para o disco. Achámos apropriado que também fosse o arranque do álbum e o primeiro tema a apresentar.
A passagem do estúdio para o palco pode ser particularmente interessante num álbum com tantos instrumentos e participações. Como vão apresentar Hellectricless no Fermentage, em Lisboa, a 15 de novembro? O público pode esperar uma reprodução fiel do disco ou novas surpresas?
Gostamos muito de desafios. Até notícia em contrário, a ideia é assumirmos os dois a responsabilidade de tocar o disco ao vivo. Tal como nos concertos elétricos, mais importante do que reproduzir todos os elementos separados é representar a música da forma mais fiel à sua identidade!
Depois de Hell-P, Hell Niña, HElll e agora Hellectricless, a banda mostrou que não tem interesse em ficar presa a uma única fórmula. Depois desta experiência, conseguem imaginar outro disco acústico ou estão já com vontade de voltar a ligar tudo no máximo?
A ideia é nunca ficar parado no mesmo sítio (costuma ser fatal para os coelhos). Este disco foi o primeiro que abordámos com uma ideia definida do que queríamos e, mesmo assim, fomos surpreendidos. A nossa abordagem tende a ser ao contrário: as coisas acontecem e depois logo vemos o que fazer com elas. Vamos ver o que o universo nos atira no futuro.
ler:Pink Pussycats From Hell regressam a “Hellpless”
