Nem todas as homenagens passam por olhar para trás. Algumas procuram perceber de que forma um artista continua a transformar o presente. É essa a proposta do Capítulo #6, no Museu de Leiria, dedicado a Alice Coltrane, uma criadora que mudou para sempre a história do jazz e cuja influência continua a fazer-se sentir muito para além desse universo musical.
Em vez de reconstruir uma biografia ou revisitar os seus discos, o projeto convida artistas contemporâneos a responder criativamente ao seu legado. O resultado é um encontro entre diferentes gerações, linguagens e formas de pensar a arte, mostrando que a obra de Alice Coltrane permanece viva porque continua a inspirar novas criações.
Nesta entrevista, os responsáveis pelo Capítulo explicam a evolução do projeto, refletem sobre a importância artística e espiritual de Alice Coltrane e revelam porque acreditam que a cultura deve ser um espaço de diálogo permanente entre o património e a criação contemporânea.
O Capítulo parte sempre de uma ideia muito particular: imaginar um disco que nunca existiu. Como nasceu este conceito e porque continua a fazer sentido?
O projeto nasceu da vontade de desafiar artistas, músicos e artistas visuais a imaginarem aquilo que poderia ser um disco póstumo da figura em destaque em cada edição. O desafio passava tanto pela criação de uma composição musical como pelo desenvolvimento da respetiva capa, numa espécie de exercício de continuidade criativa. A ideia entusiasmava-nos precisamente por permitir trazer de volta, de forma simbólica, artistas que tanto admiramos, através do olhar, das mãos e dos ouvidos de criadores contemporâneos cujo trabalho também valorizamos.
Com o crescimento do projeto, fomos, no entanto, repensando esta proposta. Percebemos que pedir a um artista que criasse um hipotético “novo disco” de alguém cuja obra marcou profundamente a história da música podia ser, de certa forma, um exercício demasiado ambicioso e até ingrato. Afinal, estamos a falar de artistas que influenciaram gerações e, em muitos casos, transformaram a forma como determinados géneros musicais passaram a ser pensados e criados.
Foi nesse momento que decidimos reformular o desafio, procurando uma abordagem mais respeitosa perante o legado destes criadores e, ao mesmo tempo, mais estimulante para os artistas convidados. Em vez de imaginarem um disco póstumo, passámos a convidá-los a criar uma obra original, sonora ou visual, inspirada na vida, na obra e no universo artístico da personalidade em destaque. O objetivo deixou de ser prolongar artificialmente a produção do artista homenageado e passou a ser estabelecer um diálogo com o seu legado, deixando que esse encontro influenciasse naturalmente a criação.
Esta mudança revelou-se decisiva. Ao libertarmos os artistas da responsabilidade de “continuar” uma obra que não lhes pertence, abriu-se um campo muito mais vasto de possibilidades criativas. As peças passaram a afirmar-se pela sua originalidade e autenticidade, tornando-se não uma tentativa de recriar o passado, mas uma nova criação que nasce do encontro entre diferentes gerações, linguagens e sensibilidades artísticas.
Nesta edição escolheram Alice Coltrane. O que tornou a sua obra incontornável para este novo Capítulo?
Alice Coltrane é uma figura incontornável da história do jazz, não apenas pela extraordinária qualidade da sua obra, mas porque foi responsável por expandir as fronteiras do próprio género. Numa época em que o jazz era um universo predominantemente masculino, afirmou-se como compositora, pianista, harpista e líder artística, embora o reconhecimento do seu trabalho tenha sido, durante muitos anos, ofuscado pela associação ao nome do seu marido, John Coltrane.
A sua importância reside também na coragem de desenvolver uma linguagem verdadeiramente original. Foi uma das primeiras artistas a colocar a harpa no centro da criação jazzística, cruzando-a com o piano, o órgão e outras sonoridades pouco habituais no género. Paralelamente, aproximou o jazz da música clássica indiana e de outras tradições espirituais, dando origem a uma estética profundamente inovadora que viria a marcar o chamado spiritual jazz.
Após a morte de John Coltrane, a espiritualidade passou a ocupar um lugar central na sua vida. Tornou-se discípula do mestre hindu Swami Satchidananda, estudou filosofia védica e fundou, mais tarde, um ashram na Califórnia, onde a música assumiu um papel de contemplação e elevação espiritual. Essa procura refletiu-se diretamente na sua obra, que passou a encarar o som como um meio de introspeção, ligação entre culturas e transformação humana. Hoje, Alice Coltrane é reconhecida como uma artista visionária cuja influência continua a estender-se muito para além do jazz, inspirando músicos de diferentes géneros e gerações.
Alice Coltrane é frequentemente lembrada como uma das grandes figuras do jazz, mas a sua música ultrapassa claramente esse rótulo. Como definem hoje o seu legado?
Alice Coltrane deixou um legado que ultrapassa o universo do jazz. A sua obra influenciou músicos de diferentes géneros pela forma como uniu improvisação, espiritualidade e inovação, mostrando que a música pode ser um espaço de contemplação, transformação e diálogo entre culturas. Ao mesmo tempo, afirmou-se como uma voz singular num período marcado pela luta pelos direitos civis e pela afirmação da cultura afro-americana, contribuindo para alargar o papel da música enquanto expressão artística, social e humana.
Em vez de uma exposição biográfica, o projeto convida artistas contemporâneos a responder criativamente ao seu universo. Porque preferem esta abordagem à homenagem tradicional?
Este projeto assume também uma dimensão de mediação cultural, procurando dar a conhecer estas figuras a um público mais alargado, que nem sempre está familiarizado com os seus percursos ou com a importância que tiveram na história da música. Em cada edição escolhemos artistas que transformaram profundamente determinados géneros musicais através de linguagens muito próprias, muitas vezes afastadas do circuito mais comercial, mas cujo legado continua a ser uma referência incontornável para sucessivas gerações de criadores.
No entanto, entendemos que a melhor forma de apresentar estas personalidades não passa por uma abordagem exclusivamente documental ou biográfica. Procuramos fazê-lo através do olhar de artistas contemporâneos, desafiando-os a estabelecer um diálogo criativo com a vida e a obra da figura em destaque. Dessa forma, o projeto não só homenageia estes nomes fundamentais da história da música, como demonstra a forma como o seu legado permanece vivo, inspirando novas leituras, novas linguagens e novas criações.
Que aspetos da personalidade e da obra de Alice Coltrane foram mais importantes na construção desta edição?
Acabei por abordar esta questão anteriormente, mas diria que os aspetos da personalidade e da obra de Alice Coltrane que mais influenciaram a construção desta edição foram a singularidade da sua linguagem artística, a profunda ligação à espiritualidade e à contemplação e a forma como entendia a música como um espaço de transformação, capaz de nos transportar, promover a introspeção e até contribuir para a regulação emocional. Acresce ainda o facto de se ter afirmado como compositora, instrumentista e líder artística num universo predominantemente masculino, abrindo caminho para outras mulheres e deixando um legado que continua a inspirar músicos e criadores em todo o mundo.
A colaboração entre Leonor Arnaut e Neuza Matias junta música e artes visuais. Como foi pensado este diálogo entre duas linguagens diferentes?
A proposta não passa por desenvolverem um trabalho conjunto, mas sim por desafiar cada artista a explorar, de forma autónoma e a partir da sua própria linguagem, o universo de Alice Coltrane. Cada uma cria uma obra original, uma sonora e outra visual, inspirada na vida, na obra e no legado da artista.
O mais interessante é que, apesar de não existir qualquer colaboração direta entre ambas durante o processo criativo, acabam por surgir inúmeras coincidências entre os dois trabalhos. É frequente encontrarmos pontos de contacto nas referências, nos conceitos ou até na forma como interpretam determinados aspetos da vida e da obra de Alice Coltrane.
No dia da apresentação da peça sonora, realizamos uma conversa aberta com as artistas, onde partilham os respetivos processos de investigação e criação. É um momento particularmente enriquecedor, porque permite perceber como duas disciplinas distintas podem chegar a conclusões semelhantes a partir da mesma fonte de inspiração, revelando afinidades inesperadas e diferentes formas de interpretar um mesmo universo artístico.
No caso de Leonor Arnaut, houve alguma indicação artística específica ou foi-lhe dada total liberdade para criar?
Foi-lhe dada total liberdade para criar. Apenas três indicações: artista a trabalhar, material disponível para apresentar e tempo ideal, sendo que este último não é obrigatório.
A criação da capa imaginária por Neuza Matias representa um disco que nunca existiu. Que desafios coloca trabalhar sobre uma obra apenas possível e não real?
Esta pergunta, se calhar, é mais direcionada para a artista, apesar de o desafio não ter sido bem esse, como indicado acima.
O concerto de 27 de setembro será o ponto alto deste Capítulo. O que poderá o público esperar dessa apresentação ao vivo?
Não diria que o concerto é o ponto alto da programação. É, naturalmente, o momento que encerra o desafio lançado às artistas convidadas e assinala a conclusão do processo criativo, mas é apenas uma das suas etapas.
Pessoalmente, considero até mais interessante a conversa que antecede o concerto, onde as artistas partilham o percurso de investigação e criação que desenvolveram. É nesse momento que conseguimos perceber verdadeiramente como figuras como Alice Coltrane continuam a influenciar a criação artística contemporânea e como um mesmo universo pode dar origem a interpretações tão distintas, mas, simultaneamente, tão próximas.
Quanto ao concerto, acredito que o público pode esperar uma experiência única. Leonor Arnaut é uma das artistas mais promissoras do jazz português, com um percurso que tem vindo a afirmar-se também a nível internacional. O facto de estar a criar uma obra inédita a partir do legado de uma figura tão marcante como Alice Coltrane faz antever um momento de grande qualidade artística. Ainda assim, gostamos que exista sempre um elemento de surpresa. Faz parte da essência do projeto: permitir que o público descubra, em primeira mão, o resultado deste encontro entre o legado de um artista incontornável e a visão de um criador contemporâneo.
O Capítulo desafia-nos a imaginar o presente a partir do passado. Consideram que este formato também nos ajuda a pensar o futuro da criação artística?
Sem dúvida. A criação, a imaginação e a criatividade sempre foram motores fundamentais da evolução das sociedades. São os artistas que, muitas vezes, imaginam primeiro aquilo que ainda não existe, desafiam convenções, levantam novas questões e propõem diferentes formas de olhar para o mundo. Essa capacidade de experimentar e pensar para além do estabelecido acaba por influenciar outras áreas do conhecimento. Cientistas, engenheiros, arquitetos, designers ou até decisores políticos inspiram-se frequentemente em novas formas de pensar e de criar para desenvolver soluções que transformam a vida das pessoas. A cultura não é apenas um reflexo da sociedade; é também uma força que a antecede, a questiona e a impulsiona para novas possibilidades.
Depois de Alice Coltrane, chegam Miriam Makeba e Jorge Peixinho em 2026. O que liga estes três nomes, apesar de pertencerem a universos tão diferentes?
O que liga todos estes nomes é, precisamente, uma das razões que deu origem a este projeto. Procuramos destacar artistas fundamentais na história dos seus géneros musicais, criadores que romperam convenções, desenvolveram linguagens próprias e introduziram novas formas de pensar e fazer música. São figuras que inspiraram, e continuam a inspirar, sucessivas gerações de artistas, mas cujo reconhecimento permanece, muitas vezes, circunscrito ao universo da música e dos seus profissionais. Com este projeto, pretendemos aproximar esses legados de um público mais alargado, revelando a importância que tiveram na evolução da criação artística e demonstrando que a sua influência continua viva na música contemporânea.
Ao longo das várias edições, houve algum Capítulo que tenha surpreendido particularmente a equipa pela reação do público?
Até ao momento, todas as edições tiveram uma excelente receção por parte do público, tendo esgotado ou ficado muito próximas da lotação esgotada. As reações têm sido sempre muito positivas, o que demonstra que existe interesse em descobrir estas figuras através de uma abordagem contemporânea.
Se tivesse de destacar uma edição, talvez escolhesse a dedicada a Ryuichi Sakamoto. A Casota Collective conseguiu criar um universo visual particularmente marcante, complementando a composição musical com uma instalação cénica construída a partir de um piano vertical queimado. O vídeo projetado durante o espetáculo mostrava precisamente esse piano a arder, enquanto o próprio instrumento, já queimado, integrava o cenário da apresentação. A força simbólica desta imagem, aliada à música e ao legado de Sakamoto, criou uma experiência muito imersiva que acabou por marcar de forma especial o público.
Ainda assim, acredito que cada edição se distingue pela personalidade do artista homenageado e pela forma singular como os criadores convidados interpretam esse universo, tornando cada experiência única.
Se Alice Coltrane pudesse visitar esta exposição e assistir ao concerto de Leonor Arnaut, o que gostariam que ela reconhecesse neste trabalho?
Gostaríamos que Alice Coltrane pudesse reconhecer, nesta edição, o profundo respeito e admiração que temos pela sua obra e pelo legado que deixou às gerações seguintes. Que percebesse que a sua música continua a inspirar artistas em todo o mundo e que a sua visão artística permanece extraordinariamente atual. Enquanto compositora, instrumentista, criadora e mulher, abriu caminhos que continuam a ser percorridos por novas gerações de músicos. Acima de tudo, gostaríamos que sentisse que este projeto não procura reinterpretar a sua obra, mas antes prestar-lhe uma homenagem sincera, celebrando a sua capacidade de continuar a transformar a forma como pensamos, criamos e vivemos a música.
Que mensagem gostariam que os visitantes levassem consigo depois de percorrerem o Capítulo #6?
Gostaríamos que os visitantes saíssem desta edição do Capítulo com vontade de continuar a descobrir Alice Coltrane e outras figuras fundamentais da história da música, percebendo que muitos dos artistas que hoje ouvimos foram profundamente influenciados por criadores menos conhecidos do grande público.
Esperamos também que esta abordagem mais contemporânea e interdisciplinar possa aproximar novos públicos do Museu de Leiria. O museu é um espaço de enorme importância para a história da cidade e acreditamos que projetos como o Capítulo demonstram que estes lugares podem ser também espaços vivos de criação, experimentação e diálogo entre património e arte contemporânea.
Outro aspeto que consideramos essencial é que cada edição seja, progressivamente, mais acessível. Temos vindo a implementar medidas como a interpretação em Língua Gestual Portuguesa, a audiodescrição dos conteúdos expositivos para pessoas cegas e com baixa visão e uma preocupação crescente com princípios de design acessível na comunicação da exposição. A isto junta-se o facto de o próprio Museu de Leiria ser um espaço preparado para receber pessoas com mobilidade reduzida. A acessibilidade não é, para nós, um complemento do projeto; é uma parte integrante da forma como entendemos o acesso à cultura.
No fundo, gostaríamos que o público saísse com a sensação de que a arte pode ser um lugar de encontro: entre gerações, entre disciplinas, entre diferentes formas de sentir e compreender o mundo e também entre pessoas com diferentes necessidades e experiências de fruição cultural.
Alice Coltrane continua a inspirar novas gerações
