Nostalgia, escuta contemporânea e a estranha sensação de reconhecer tudo

Há um momento muito específico em que isto acontece. Estou a ouvir uma música nova, sentado na ponta do sofá, luz baixa, o telemóvel pousado de lado. A faixa ainda não acabou e eu já sei para onde vai. Não porque seja fraca. Nem porque seja óbvia. É mais subtil do que isso. O corpo reconhece o caminho antes da cabeça chegar lá. As mãos relaxam. Tudo encaixa cedo demais. Fico ali, confortável. E depois aparece um silêncio estranho dentro da escuta, como se algo tivesse passado sem se fixar.
Este texto nasce dessa sensação repetida na música contemporânea. Da forma como a nostalgia, mesmo quando não é declarada, passou a moldar a maneira como ouvimos, escolhemos e escrevemos sobre cultura hoje. Não como tese. Como hábito que se instala sem pedir licença.
O prazer imediato de reconhecer
Reconhecer sabe bem. Sempre soube. Ouvir algo novo e perceber logo de onde vem. Isto soa a. Isto lembra me. Isto podia ter sido feito noutro tempo. Há uma pequena vitória nisso. Uma sensação de pertença. De estar dentro da conversa, de não ficar para trás enquanto tudo avança depressa.
Mas esse prazer tem um preço discreto. Quando tudo nos é familiar, a surpresa começa a perder força. A música deixa de nos deslocar. Passa por nós sem deixar rasto. Não volta dias depois. Não insiste quando o dia fica silencioso. Funciona. Cumpre. Mas raramente incomoda. E talvez seja esse incómodo que faz com que certas canções regressem quando ninguém as está a pedir.
Quando o passado deixou de ser visita
O passado sempre esteve presente na música. Isso não é novidade. O que mudou foi a intensidade. Durante muito tempo, olhar para trás era um gesto pontual. Um disco antigo ao fim da tarde. Uma banda que regressava uma vez, quase como exceção.
Hoje o passado está em todo o lado. Em digressões comemorativas. Em álbuns tocados do início ao fim décadas depois. Em reedições cuidadosas, quase solenes. Nada disto é errado por si só. O problema talvez seja a quantidade. Quando algo ocupa sempre o espaço, começa a empurrar tudo o resto. O presente encolhe. O futuro fica sem cadeira para se sentar.
Ler para confirmar uma inquietação
Houve uma altura em que li Retromania, de Simon Reynolds, aos bocados. Um capítulo aqui, outro dias depois. Não à procura de respostas fechadas. Mais para confirmar uma inquietação. Para perceber se aquilo que sentia enquanto ouvinte também existia enquanto fenómeno cultural mais amplo.
O livro não acusa artistas nem fãs. Observa padrões. Fala da nostalgia na música contemporânea como uma dependência confortável. Algo que acalma. Algo que vende. Algo que reduz o risco. E enquanto lia, comecei a reconhecer gestos meus. A forma como escolho o que ouço. A facilidade com que me agarro ao que já vem explicado. A tentação de confundir memória com futuro.
O arquivo infinito e a pressa de explicar
A internet prometeu futuro. Acesso ilimitado. Novas possibilidades criativas. Em vez disso, deu nos um arquivo infinito. Tudo disponível ao mesmo tempo. Todas as épocas lado a lado. Sem distância. Sem espera.
Quando tudo está acessível, o novo nasce comparado. Antes de ser ouvido, já foi contextualizado. Antes de respirar, já sabemos a que soa, de onde vem, onde encaixa. Essa pressa de explicar cansa. Não o corpo. A escuta. A sensação de estar sempre a ouvir algo que já conhecemos, mesmo quando é apresentado como novo.
Escrever sobre música também cria memória
Escrever sobre música não é um gesto neutro. Nunca foi. Escolher sobre o que se escreve é escolher o que se valoriza. Quando falamos mais de regressos do que de começos, estamos a reforçar uma ideia de importância, mesmo sem intenção.
Quem acompanha música com regularidade percebe isto cedo ou tarde. É mais fácil escrever quando a história já existe. Quando há referências sólidas. Quando o terreno está firme. O difícil é ficar com o que ainda não tem nome. Com o que soa estranho. Com o que não sabemos bem onde colocar. A música que aponta para a frente raramente chega clara. Chega torta. Chega incompleta. Às vezes falha.
O desconforto de não saber
Talvez o problema esteja aqui. No desconforto de não saber explicar. Preferimos o que reconhecemos porque isso nos protege da dúvida, daquela sensação curta de estarmos perdidos. Mas a dúvida também é espaço criativo. Sem ela, a música transforma se apenas em repetição bem executada.
Quando a experiência vem antes da referência
Lembro me de concertos pequenos. Luz errada. Som irregular. Bandas que ainda não sabiam bem quem eram. Saí sem certezas. Um pouco frustrado até. Mas dias depois aquilo voltou. Um ruído específico. Um verso mal cantado. Uma sensação que não encaixava em lado nenhum.
Isso quase nunca acontece com coisas demasiado polidas. A experiência vem antes da referência. Mas só se lhe dermos tempo. E silêncio.
Ficar no intervalo
Talvez o papel de quem escreve sobre música hoje seja este. Ficar no intervalo. Não fechar sentidos. Não transformar tudo em arquivo. Aceitar escrever a partir da dúvida, não da confirmação.
Não se trata de rejeitar o passado. Trata se de não o deixar ocupar tudo. De lembrar que a música também existe para nos tirar do lugar confortável.
No fim, não há conclusão clara. Fica uma sensação suspensa. Como um som que continua depois de desligar o gira discos. Não sei bem o que é. Mas sei que ainda está ali. E talvez seja isso que ainda importa.



















