Há qualquer coisa que acontece quando os Calema entram num refrão. Não é só a letra. Não é só a história romântica. É o ritmo. Aquele andamento médio, firme, que parece simples mas não é. Fica no corpo. E quando chega o refrão de “Amar Pela Metade”, especialmente na versão ao vivo no Estádio da Luz, percebe se que não é coincidência. Sessenta mil pessoas não entram todas ao mesmo tempo por acaso.

Os Calema aprenderam cedo a trabalhar o tempo das canções. Raramente aceleram demais. Também não arrastam. Mantêm as músicas num ponto de equilíbrio que permite cantar em coro sem perder intensidade. A percussão é discreta, quase invisível às vezes, mas está sempre lá. Sustenta. Dá balanço. Não rouba protagonismo à melodia.

Nos vídeos oficiais nota se essa construção em camadas. Começa contido. Um piano, uma base leve. Depois entra a batida. Depois as vozes ganham corpo. O refrão abre. Não é explosão caótica. É crescimento controlado. E isso explica muito do impacto. As músicas parecem feitas para serem partilhadas, não apenas ouvidas.

Em “Amar Pela Metade”, o ritmo nunca se impõe de forma agressiva. Ele acompanha a emoção. Quando o estádio canta, o pulso mantém se estável. Não acelera para impressionar. Confia na repetição. Confia na melodia. E essa confiança é talvez o segredo maior do fenómeno.

O Radar desta semana não olha só para números ou recordes. Olha para esse detalhe quase invisível. O compasso certo. A escolha de não exagerar. A consciência de que, às vezes, o que prende não é o excesso. É a constância. E nisso, goste se mais ou menos, os Calema sabem exatamente o que estão a fazer.