Terça-feira, 18 de Agosto de 2026
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Rita Redshoes: “Criar implica deixar o que já se conhece para trás”

Por Jorge Silva Medeiros 18 Ago 2026
FOTO:©Lilit Danielyan

 

Decidiu deixar, por momentos, o lugar de autora para perceber o que acontece quando uma canção chega já escrita às suas mãos. O novo álbum nasce desse gesto: interpretar compositoras portuguesas, mexer nas suas canções e descobrir nelas outras histórias, mas também uma nova forma de se descobrir enquanto artista.

Depois de The Other Women, a cantora e compositora regressa com um projecto que coloca outras mulheres no centro da criação. As canções abordam liberdade, maternidade, intimidade, cansaço e os papéis que continuam a ser impostos pela sociedade. Entre elas está “Não É Normal”, de Cláudia Pascoal, escolhido como segundo single pela forma directa como confronta essas expectativas.

A estreia acontece no Festival Bons Sons e marca também a passagem destas novas canções para o palco, num espectáculo pensado como uma história colectiva, com versões, um coro e uma dimensão narrativa própria. Para Rita Redshoes, criar continua a ser uma necessidade e também uma forma de não ficar presa ao que já conhece. Afinal, como ela própria diz, “criar implica deixar o que já se conhece para trás ou de lado e ir em busca de coisas novas.”

Este novo álbum nasce da vontade de dar voz a compositoras portuguesas. Em que momento percebeu que este era o caminho que queria seguir para o seu próximo projeto?

Ao longo dos últimos anos, já me tinha ocorrido algumas vezes a vontade de querer fazer um disco diferente, em que não fosse eu a autora das canções. Um disco em que me concentrasse mais nos arranjos e na interpretação. Olhando para o que já tinha construído em 2012, este pareceu-me ser o passo que fazia mais sentido nesta fase da minha carreira, sobretudo por existirem atualmente inúmeras mulheres autoras e muito boas no nosso país.

Depois da experiência de The Other Women, o que a motivou a criar agora um trabalho inteiramente dedicado às autoras nacionais?

Gosto desta ideia de enaltecer aquilo que, durante muitos anos e séculos, não pôde ser assim tão evidente. O espaço da autoria, da voz própria das mulheres na música e noutras áreas, foi muitas vezes silenciado e até desprezado. Nos últimos anos, as coisas têm-se alterado, mas, como nos mostram as notícias, este é um trabalho constante: continuar a chamar a atenção para uma ideia que muitas vezes foi deturpada ou esquecida.

“Não É Normal”, escrito por Cláudia Pascoal, aborda a liberdade e os papéis que a sociedade continua a impor. O que a levou a escolher este tema como segundo single?

Para mim, é uma canção muito forte que expõe um problema que diz respeito a todos, mulheres e homens. Queremos caber em formas que não são à nossa medida? Queremos respeitar ideias que não nos respeitam? Queremos corresponder e cumprir papéis que não nos cabem? Por ser bastante certeira, fez-me todo o sentido que fosse um dos singles.

Cada canção foi escrita por uma autora diferente. Como foi o processo de receber essas músicas e transformá-las no seu próprio universo artístico?

Foi um processo que me deu um enorme prazer. É mágico e íntimo o momento em que se recebe uma canção de alguém e se tem a permissão para mexer nela e descobri-la à nossa maneira. É um processo de partilha, altruísta e de comunhão. A arte permite estas coisas, estes encontros, estes momentos de liberdade que, por vezes, se tornam difíceis no dia a dia.

Ao interpretar palavras escritas por outras compositoras, sentiu que descobriu novas formas de contar histórias através da sua voz?

Sim, é a maravilha de cantar canções escritas por outras pessoas. Há uma história que eu desconhecia, que me vem parar às mãos e, de repente, estou dentro dela a contá-la à minha maneira. É como lermos nós próprios um livro em vez de estarmos a ouvir outra pessoa a falar da história desse livro. As personagens hão de ser diferentes, a cor do cabelo, o som da voz, etc. É uma viagem muito boa.

O álbum aborda temas como a maternidade, a intimidade, o cansaço e a liberdade. Qual destes temas acabou por a desafiar mais durante a criação do disco?

Todos têm um eco grande em mim, porque todos fazem parte da minha existência enquanto mulher e ser humano, e acredito que sejam temas bastante transversais a muitas mulheres.

A música portuguesa tem assistido ao surgimento de uma nova geração de cantautoras. Como vê este momento e que importância atribui à diversidade de vozes femininas na criação musical?

Acho que finalmente vivemos aquilo que teria sido bom termos vivido sempre. Haver espaço, liberdade e respeito para olhar para a criação das mulheres da mesma maneira que se olha para a dos homens. Mas não tenhamos ilusões: a igualdade ainda não é plena. Há trabalho a fazer, mas, como somos muitas e como acredito na união entre as mulheres, diz-se por aí que a união faz a força.

A estreia deste projeto acontece no Festival Bons Sons. O que pode o público esperar desse primeiro concerto e de que forma será diferente dos espetáculos anteriores da sua carreira?

É um concerto para o qual estou muito entusiasmada. Não toco num festival há algum tempo. Será a primeira vez que iremos tocar músicas do novo disco, algumas versões que me parecem fazer todo o sentido dentro da temática do espetáculo, e haverá um coro muito especial, que será como uma espécie de consciência narrativa. Está a ser pensado como um momento, uma história contada em palco.

Os concertos na Casa da Música e no Teatro Maria Matos terão um formato especial. Que experiência pretende proporcionar a quem assistir a estas apresentações?

Ainda falta um bocadinho, mas vou seguir aquilo que me tem guiado até na construção do disco. Existem várias histórias, várias visões para partilhar, sobre as mulheres e sobre os homens. Quer queiramos quer não, estamos todos aqui. O palco servirá para um pensamento coletivo, uma partilha de emoções, de perguntas, de desabafos. Será um espaço e um convite ao pensamento.

Depois de sete álbuns e de uma carreira consolidada, sente que continua a descobrir novas formas de criar música e de surpreender o público?

Sinto que criar é uma necessidade. E criar implica deixar o que já se conhece para trás ou de lado e ir em busca de coisas novas. Eu preciso desse processo. Nos dias de hoje, dá-me a sensação de que nem sempre é isso que se pede à música. Talvez seja mais confortável conviver com linguagens semelhantes, em que consigamos ter maior controlo e previsibilidade, mas eu não consigo viver assim. Tenho esta vida e quero descobrir-me ao máximo nela.

Ao longo dos anos, a sua escrita e a sua visão artística evoluíram bastante. Em que aspetos sente que a Rita Redshoes de hoje é diferente daquela que lançou os primeiros discos?

Oh… conheço-me muito melhor. Emocionalmente, há coisas que não mudaram. A música continua a arrepiar-me, a fazer-me chorar, a deixar-me em suspenso. Mas o lado profissional, da profissão em si, tornou-se mais clarificado e menos interessante. Faz parte, passados tantos anos. Como em todos os ofícios, há partes que dispensávamos.

Para terminar, que mensagem gostaria que os ouvintes levassem consigo depois de escutarem este novo álbum do princípio ao fim?

Gostava que fizessem uma boa viagem à boleia destas canções, que falam de coisas reais, que nos dizem respeito a todos enquanto seres humanos, mães, filhos, maridos, amigas. É um disco sobre pessoas, sobre a vida real. Ser autoconsciente é das coisas mais importantes na vida, porque permite a mudança, a mudança interna e a mudança perante o outro.

LER: Rita Redshoes lança “Não É Normal”, o novo single

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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