Abril e maio trouxe uma programação que cruza arquivo, criação independente e circulação cultural fora dos grandes centros. A atividade da Rock’n’Cave não se limita a eventos isolados. Funciona como um sistema vivo que liga comunidades, recupera histórias e abre espaço a novas vozes através de formatos muitas vezes ignorados pelo circuito dominante.

Entre a exibição do documentário “1982, Sede de Sede”, a expansão da fanzinoteca e o concurso aberto a criadores, há um fio comum claro. A ideia de que cultura também se constrói com memória, edição DIY e encontros físicos, num tempo em que tudo tende a desaparecer no digital.
Vira Fest 2026 reafirma o papel formativo e comunitário
O regresso do Vira Fest 2026 a Paredes de Coura mostrou uma coisa simples mas essencial. A formação musical continua viva fora dos grandes palcos mediáticos.
Durante os dias 14 e 15 de março, o festival ocupou o Centro Cultural Paredes de Coura e o Xapas Lounge com uma programação centrada em escolas, projetos pedagógicos e intercâmbio entre Portugal e Galiza.
A presença de academias, conservatórios e ensembles reforçou a diversidade do ensino musical. Do jazz ao tradicional, passando por projetos coletivos como “Acordar Histórias Para Adormecer”, percebe-se uma aposta clara na construção de linguagem e identidade desde a base.
À noite, o foco mudou para o palco mais informal. Concertos e showcases trouxeram uma energia diferente, mais direta, onde projetos emergentes e convidados internacionais cruzaram linguagens. O encerramento com a Escola do Rock de Paredes de Coura manteve a tradição de reinterpretar clássicos, fechando o ciclo com um gesto coletivo.
“1982, Sede de Sede” continua a circular e a provocar diálogo
O documentário “1982, Sede de Sede” segue agora para a Galiza, com exibição na Asociación Cultural O Faiado de Ponteareas.
Construído a partir de imagens captadas durante as eleições autárquicas de 1982, o filme não funciona apenas como registo histórico. Há ali uma observação direta sobre comportamento coletivo, comunicação e contexto político num período de transformação em Portugal.
O gesto de exibir este material hoje ganha outro peso. Tal como nos anos 80, o encontro acontece à volta de um ecrã, mas agora com uma camada adicional de leitura. O público não vê apenas o passado. Reconhece padrões, compara realidades, questiona o presente.
Essa continuidade entre épocas é talvez o elemento mais forte do projeto. Não há nostalgia gratuita. Existe confronto.
Fanzinoteca expande-se e leva cultura DIY a novos territórios
A Fanzinoteca Rock’n’Cave continua o seu percurso itinerante e chega agora à Biblioteca Municipal de Alvaiázere.
Depois de passar por várias cidades, esta nova paragem reforça a ideia de descentralização cultural. O acervo, construído ao longo de mais de duas décadas, reúne publicações independentes de várias partes do mundo, com curadoria de Rosita Uricchio.
Mais do que exposição, o projeto propõe interação. Visitas guiadas e workshops com Maria Inês Ferreira aproximam o público do processo de criação. Não se trata apenas de ver fanzines. Trata-se de perceber como nascem, como circulam e porque continuam relevantes.
Num momento em que a produção independente ganha nova força, este tipo de iniciativa funciona como ponto de entrada para novas gerações.
Concurso de fanzines mantém o circuito ativo e em crescimento
A open call do Concurso de Fanzines 2026 prolonga essa dinâmica até ao verão. Com candidaturas abertas até 31 de julho, o foco está na criação contemporânea.
O formato mantém-se simples mas eficaz. Três prémios de 250 euros e a integração dos trabalhos no acervo físico e digital da fanzinoteca. Parece pouco à primeira vista. Não é.
Para muitos criadores, este tipo de plataforma representa visibilidade, arquivo e continuidade. Um espaço onde o trabalho não desaparece após publicação, mas passa a fazer parte de um circuito maior, com possibilidade de exposição futura.
No fundo, a Rock’n’Cave está a construir algo raro. Um ecossistema onde memória, criação e circulação coexistem sem hierarquias rígidas. E isso levanta uma questão que fica no ar. Quantos projetos conseguem hoje manter esse equilíbrio sem se perderem no ruído?

