Há uma cidade inteira escondida dentro de Let the Alpine Play. Los Angeles surge no disco como cenário, matéria-prima e estado de espírito, entre piscinas infinitas, tendas, estradas, clubes, referências cinematográficas e uma sensação permanente de excesso. James Quentin Devine transforma esse ambiente numa música que tanto pode desaparecer em 64 segundos como mergulhar numa sucessão vertiginosa de imagens e referências.
O contraste não é acidental. Para os Scaled Alps, o luxo contemporâneo pode ser simultaneamente desejo e desperdício, enquanto a beleza pode surgir ao lado da violência e da instabilidade. As canções recusam explicações demasiado fáceis e deixam espaço para que cada ouvinte construa as suas próprias ligações.
Nesta entrevista, James Quentin Devine revela como nasceu Let the Alpine Play, explica a lógica por detrás de “Pink Diamonds” e “Neo Noir (Stelvio)”, fala das referências escondidas nas letras, da sua ideia de “quantum entendre” e da influência decisiva de Los Angeles num álbum construído entre o excesso, a ambiguidade e a procura de algo que esteja para lá da superfície.
“Pink Diamonds” dura apenas 64 segundos, enquanto “Neo Noir (Stelvio)” segue uma abordagem completamente diferente, construindo-se através de uma rápida acumulação de imagens e referências. Até que ponto tem consciência do tempo e da duração quando escreve uma canção?
James Quentin Devine: Muito. Let the Alpine Play funciona como uma série de vinhetas, episódios ou peças. Algumas ideias podem ser expressas muito rapidamente; outras precisam de espaço para se desenvolver. A atenção do ouvinte é um recurso precioso. Esforçamo-nos por não desperdiçar o tempo de ninguém.
“Pink Diamonds” parece encontrar o seu refrão central quase imediatamente e depois desaparecer antes de ter tempo para se esgotar. A sua curta duração fez sempre parte do conceito ou a própria canção indicou-lhe quando estava terminada?
James Quentin Devine: Pink Diamonds é um clube de striptease em North Hollywood. É a primeira coisa que vemos quando saímos da autoestrada a caminho dos Altar Studios, onde Let the Alpine Play foi gravado.
Essa canção começou com aquele riff de piano gelado, aquela pequena coisa provocadora à RZA, e cresceu a partir daí. Acho que funciona como um loop de peep show, como um daqueles reels de despedida de solteiro. Entra aquele monstro de 808 e começa o cântico mutante da stripper.
Esta canção é um exercício deliberado tanto de estupidez deliciosa como de minimalismo.
“Neo Noir (Stelvio)” abre com a frase marcante “neo noir in neon Dior”, colocando imediatamente cinema, moda e imaginário pop no mesmo espaço. De onde surgiu essa combinação específica de referências?
James Quentin Devine: Tenho tendência para escrever através de inversões, subversões e negações. Isto surgiu-me como um enigma particularmente sinistro e sugestivo.
As imagens acumuladas pretendem formar uma tapeçaria que seja muito subjetiva e pessoal para o destinatário final, o ouvinte. Alguém profundamente familiarizado com o trabalho de Stelvio Cipriani vai retirar da canção um significado muito diferente de alguém que não conhece o seu trabalho e não tem curiosidade em descobri-lo. Essa pessoa pode pensar que Cipriani é algum tipo de licor.
Ambos os resultados são válidos. A sensação das sílabas e dos morfemas individuais na boca e no ouvido é fundamental, quer alguém queira ir “para lá da porta verde”, quer não.
Em “Neo Noir (Stelvio)”, nomes e referências culturais como Piccioni e Cipriani parecem funcionar menos como explicações e mais como ritmo ou textura. Espera que os ouvintes reconheçam todas as referências ou o efeito emocional e sonoro é mais importante do que o reconhecimento?
James Quentin Devine: Honestamente, o disco está tão cheio de “easter eggs” e referências escondidas que, ocasionalmente, há letras ou versos que me fazem pensar: “Ah, sim, tinha-me esquecido de que queria fazer isso.”
Escrevo aquilo a que chamo “quantum entendre”, uma forma de expressar múltiplos significados empilhados em superposições.
O “verdadeiro significado” de uma frase é aquilo que alguém retira dela. A canção “Muffler”, por exemplo, contém uma alusão muito estranha ao livro Bore Hole, de 1975, sobre autotrepanação.
O ouvinte típico não vai retirar isso de “Muffler shops and / Porno stores / Dive bars, getting head / Bored”, mas gosto de pensar que atraímos uma espécie particularmente curiosa de ouvintes, que aprecia música e letras que recompensam essa curiosidade.
Parece existir um contraste interessante entre subtração e excesso nestas duas canções: “Pink Diamonds” dá muito pouco tempo ao ouvinte, enquanto “Neo Noir (Stelvio)” lhe oferece quase demasiadas imagens para reter. Essa tensão é algo que explora conscientemente ao longo de Let the Alpine Play?
James Quentin Devine: “Pink Diamonds” é fisicamente brutal. Não é uma canção para pessoas que pensam; é uma canção que consiste em meter um carro roubado em primeira velocidade e fazer violentamente piões no parque de estacionamento de um carnaval abandonado e assombrado.
É idiota, mas satisfatório.
“Neo Noir” desempenha uma função igualmente avassaladora através de meios diferentes, através da sugestão e das imagens. Espero que seja algo em que os ouvintes possam perder-se, flutuar durante algum tempo. Uma espécie de “pensa nisso e depois diz-me o que achaste”.
A sua música cria frequentemente ambientes visuais muito vívidos. Quando escreve, as canções começam pelo som, pelas palavras, pelas imagens ou por uma determinada atmosfera que está a tentar captar?
James Quentin Devine: Cada peça é diferente, na verdade. De certa forma, cada canção começa com um gesto, literalmente.
Sobe, desce, vai para o lado? Está a abrir, a fechar? É uma canção para caminhar, para correr, para dançar? Um cavalo? Se é um cavalo, está a trotar ou a galopar? É uma canção sobre um comboio? 180 quilómetros por hora na autoestrada?
A música é uma contabilidade e uma decoração do tempo, e para mim é muito fácil encaixar-lhe letras. A chave está em combinar a decoração. As letras, neste sentido, são uma forma de ornamentação.
O mundo de Let the Alpine Play parece altamente estilizado, mas existe também algo de instável sob a superfície. Desejo, glamour e beleza parecem frequentemente coexistir com desconforto. Esse contraste é importante na forma como pensa o álbum?
James Quentin Devine: A palavra “luxo” significa literalmente excesso. No sentido de evitar a escassez ser um objetivo desejável, o luxo é aspiracional.
No entanto, no sentido contemporâneo, a maioria dos objetos que se apresentam ou se vendem como artigos de “luxo” — pense em roupa de designer, condomínios acabados de construir, mobiliário de reprodução de meados do século XX, esse tipo de coisas — não possui nenhuma das características que poderiam realmente tornar um objeto “luxuoso”.
Podem ter etiquetas com preços elevados, mas são mal feitos, desprovidos de reflexão, obsoletos no momento em que chegam ao mercado. Frivolidade destrutiva, desperdício.
Penso em alguém como o rapper Pop Smoke, que foi assassinado em Hollywood Hills porque estava a fazer uma transmissão em direto no Instagram enquanto exibia malas Amiri, cintos Gucci e toda aquela merda estúpida, coisas que nem sequer são bonitas ou impressionantes. Tudo isso está tão desligado de qualquer propósito produtivo ou de uma verdadeira beleza ou apreciação pela roupa, pela arte, por qualquer coisa.
Se temos mesmo de viver num consumismo interminável, prefiro que as pessoas desenvolvam algum gosto pessoal em vez de se cobrirem de simulacros da Guccissima.
Los Angeles está frequentemente associada ao universo que rodeia os Scaled Alps. Até que ponto a cidade influencia a própria música e até que ponto Los Angeles é mais uma paisagem psicológica ou imaginária no seu trabalho?
James Quentin Devine: As sessões que deram origem a Let the Alpine Play receberam inicialmente o nome de código “The Desertion Sessions: N. Hollywood Shootout”, numa referência simultânea aos discos Desert Sessions, de Josh Homme, e a um incidente ocorrido em 1997, quando assaltantes de bancos fortemente armados travaram um tiroteio ao ar livre com o LAPD.
É justo dizer que Los Angeles está por todo este disco. Este disco não existiria de todo neste formato sem Los Angeles.
Los Angeles marca, de muitas formas, o fim dos Estados Unidos. Não se pode avançar mais para oeste a menos que se seja um nadador extraordinário. Tentei captar a cidade em toda a sua amplitude. Bilionários em piscinas infinitas e toxicodependentes em tendas. Beleza e brutalidade.
Tanto “Pink Diamonds” como “Neo Noir (Stelvio)” deixam no ouvinte a sensação de que as canções terminam antes de tudo estar completamente resolvido. O que lhe interessa em deixar espaço para a ambiguidade em vez de dar à canção uma conclusão clara?
James Quentin Devine: Tudo é uma demo, tudo é um jam. Uns franceses com capacetes espaciais disseram isso uma vez: “O nosso trabalho nunca termina.”
Se Let the Alpine Play fosse vivido como uma sequência de lugares, imagens ou cenas, em vez de simplesmente como um álbum, onde gostaria que o ouvinte se encontrasse no final dessa viagem?
James Quentin Devine: Acho que “Celestial Sighs”, a segunda faixa do disco, responde provavelmente melhor a essa pergunta:
“You want / For something more / Celestial sighs / A different world / You want / For something else / You find the light / Inside yourself.”
Caso contrário, podem seguir pela Pacific Coast Highway, mas talvez seja melhor certificarem-se de que a estrada não está fechada em Big Sur. Não queremos que acabem por cair de um penhasco.
