Há discos que chegam como continuidade. Outros chegam como correção de rota. O terceiro capítulo de Snail Mail parece querer ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Lindsey Jordan já não escreve a partir do impulso adolescente que marcou o início da carreira. Há mais controlo, mais silêncio entre as notas, mais consciência do peso que cada canção carrega.
Ricochet tem data marcada para 27 de março, pela Matador Records, e cada avanço funciona como fragmento de um retrato maior. «My Maker» é o mais recente. E não soa a simples single promocional. Soa a peça central de um estado de espírito.
Crescer sem perder fricção
Desde Lush que Lindsey Jordan se impôs como uma compositora que sabia transformar insegurança em melodia memorável. Depois, em Valentine, veio a produção mais polida, quase radiofónica em certos momentos. Havia quem temesse um amaciamento excessivo. Não aconteceu. Houve expansão.
Agora, o que se sente é outra coisa. Menos urgência juvenil. Mais tensão interna. A escrita continua direta, mas existe um filtro novo, uma espécie de maturidade desconfortável. Como se cada verso fosse revisto não para soar melhor, mas para doer exatamente no ponto certo.
Não há aqui reinvenção radical. Há aprofundamento. E isso, muitas vezes, é mais arriscado.

«My Maker» e a contenção como força
«My Maker» foi coproduzido por Jordan ao lado de Aron Kobayashi Ritch, conhecido pelo trabalho com os Momma. A colaboração não descaracteriza o projeto. Pelo contrário. Amplifica-lhe a densidade.
A canção avança sem pressa. Guitarras que não explodem quando esperamos que explodam. Uma secção rítmica que parece segurar o fôlego. E depois a voz. Sempre a voz. Frágil, mas firme. Há algo quase confessional na forma como a melodia se instala, mas nunca cai na autopiedade.
O interessante é essa contenção. A música parece constantemente à beira de abrir em catarse, mas recua. Escolhe ficar ali, nesse espaço tenso. E é nesse recuo que ganha força.
Imagem como extensão da ferida
O videoclipe foi realizado pela própria Lindsey Jordan em parceria com Elsie Richter. Não é um detalhe menor. Quando um artista assume também o lado visual, há sempre uma declaração implícita de controlo narrativo.
O vídeo não procura espetáculo nem efeitos grandiosos. Trabalha com atmosfera. Com ambiguidades. Há planos que demoram mais do que o habitual. Há silêncios visuais que ecoam a própria música. Nada parece gratuito.
É um prolongamento da canção, não uma ilustração literal. E isso nota-se na forma como as imagens respiram. Ou talvez hesitem. Como se também elas estivessem a tentar perceber algo que nunca é totalmente explicado.
O que ‘Ricochet’ pode significar agora
O terceiro álbum é sempre um momento delicado. Já não existe o benefício da surpresa inicial. Também não há espaço para repetir fórmulas. É aqui que se percebe se o projeto tem fôlego real ou se vivia apenas de um contexto geracional específico.
No caso de Snail Mail, tudo indica que estamos perante consolidação. Mas uma consolidação inquieta. Não há sinais de acomodação. Pelo contrário. Há risco na escolha de desacelerar, de não oferecer refrões fáceis, de confiar na tensão como motor.
Se «My Maker» for indicativo do conjunto, Ricochet poderá ser o disco onde Lindsey Jordan deixa definitivamente de ser promessa para assumir estatuto de autora plena. Não porque soe maior. Mas porque soa mais consciente.
Março ainda não chegou. As canções ainda não foram todas reveladas. Mas já se percebe que este novo capítulo não quer apenas repetir ecos do passado. Quer testá-los contra a parede. Ver o que volta. O que resiste. O que se parte pelo caminho. E talvez seja precisamente nesse impacto que a verdadeira medida do álbum se vai revelar. Ou não.
