O novo single de Tayob J surge como um momento de afirmação dentro do rap lusófono contemporâneo. “Na Vanguarda de Mim Mesmo” não é apenas mais uma colaboração internacional. Funciona como declaração estética e pessoal de um produtor que sempre trabalhou nos bastidores e agora começa a ocupar o centro da narrativa.

Este segundo avanço de A Beleza do Erro, com edição prevista para o final de maio, revela um artista interessado em cruzar disciplinas e geografias. A presença de Rashid e Dino d’Santiago não surge como estratégia óbvia de alcance. Há coerência conceptual, há ligação real ao tema.
Uma balada noturna com peso emocional
A construção sonora afasta-se da lógica mais direta do rap tradicional. O tema desenvolve-se como uma balada noturna, onde o piano cria espaço e respiração antes da entrada das batidas e do baixo, já com assinatura clara de Tayob J.
As vozes não competem. Dialogam. Há uma escuta mútua entre os três artistas que se sente na forma como cada verso entra e sai. Dino acrescenta dimensão melódica e emocional, Rashid traz densidade lírica, e Tayob mantém o eixo conceptual firme.
A ideia como ponto de partida
O conceito nasce de uma inquietação concreta. A ausência de formação musical formal dentro do rap não é vista aqui como limitação, mas como território fértil. A ideia torna-se ferramenta principal. O erro deixa de ser falha e passa a linguagem.
“Na Vanguarda de Mim Mesmo” traduz essa lógica. Estar no rap, neste contexto, significa competir com o próprio percurso, com as próprias versões. Não há um adversário externo. Há um processo interno em constante ajuste.
Quando o tema chega a Rashid, ganha outra camada. O discurso torna-se mais afirmativo, mais ligado à noção de crescimento individual. Não perde introspeção, mas ganha direção.
Um processo longo, entre cidades e encontros
A música não nasceu de um impulso imediato. A pré-produção começa em 2023, o convite a Rashid acontece pouco depois, e a gravação final concretiza-se em São Paulo já em 2024. Esse intervalo sente-se no resultado final. Há maturação.
O convite a Dino d’Santiago surge naturalmente. A ligação prévia com Tayob e a afinidade com o conceito fazem com que a colaboração se feche como um triângulo coerente. Não soa forçado. Parece inevitável.
Em 2025, Lisboa serve de ponto de encontro para a gravação do videoclipe, realizado por Chris Costa. A abordagem é simples, quase contemplativa. Três artistas a ouvir-se uns aos outros. Sem excesso de narrativa, com foco na presença.
Um álbum que nasce da mistura
A Beleza do Erro posiciona-se como um dos discos mais ambiciosos dentro da nova geração de produtores em Portugal. A lista de participações aponta para uma rede ampla que inclui nomes como Criolo, Djodje, Iolanda ou Selma Uamusse, entre outros.
O percurso de Tayob J ajuda a explicar essa amplitude. Com raízes multiculturais e uma formação construída entre DJing, beatmaking e produção, o artista desenvolveu uma linguagem que cruza rap, soul e jazz sem parecer exercício académico.
Depois de anos a trabalhar com nomes como Chullage ou a contribuir para projetos transversais, este disco surge como ponto de síntese. “Na Vanguarda de Mim Mesmo” deixa claro que não se trata apenas de mostrar versatilidade. Trata-se de definir identidade. E isso ainda está em construção, à vista de quem quiser acompanhar.

