O novo single “Bicicleta” marca o arranque de mais um ciclo para os Exclusive Os Cabides, num momento em que o indie brasileiro volta a mostrar sinais de renovação fora dos grandes centros. A banda de Florianópolis surge aqui mais direta, mais crua, como se estivesse a traduzir para estúdio a energia acumulada ao longo de um ano inteiro de estrada.

Depois do impacto de Coisas Estranhas, “Bicicleta” funciona como pista clara do que aí vem: um EP com sete faixas gravadas ao vivo, onde o grupo acentua uma inclinação mais roqueira sem perder o humor e a leveza que sempre os distinguiu.
Um single que nasce da espontaneidade
“Bicicleta” apresenta-se como uma composição simples, rápida e assumidamente lúdica. João Paulo Pretto descreve-a sem rodeios, quase como quem não quer complicar o que nasceu instintivo. E percebe-se. A música parece construída para acontecer sem filtros, sem excesso de produção, quase como um ensaio que ficou bom demais para não ser lançado.
A origem da canção reforça essa ideia. Foi criada num contexto informal, num palco aberto, quando o próprio João ainda era adolescente. Há ali uma provocação juvenil, um gesto quase impulsivo, que sobrevive intacto na versão final. E isso dá-lhe carácter.
A influência psicadélica e o humor como assinatura
A referência direta à fase inicial dos Pink Floyd, sobretudo ao tema “Bike” de Syd Barrett, não é apenas estética. Há uma lógica de absurdo controlado, uma narrativa meio nonsense, que encaixa perfeitamente na identidade dos Cabides.
Mas o grupo não fica preso à citação. O humor continua a ser ferramenta central, quase um mecanismo de desconstrução. A “mensagem duvidosa” de que João fala não é falha, é intenção. É esse jogo entre o banal e o inesperado que mantém a música interessante.
Um EP que reflete a estrada
O próximo lançamento promete captar a banda no seu estado mais orgânico. Sete temas gravados ao vivo, pensados para preservar a intensidade dos concertos que marcaram 2025. Mais de 40 datas, circulação por festivais relevantes, contacto direto com público. Tudo isso deixa marcas.
Essa transição para um som mais cru não é uma reinvenção forçada. É consequência natural. Quem viu a banda ao vivo percebe que havia ali uma energia ainda pouco documentada em estúdio. Este EP parece querer resolver isso.
Identidade visual e espírito coletivo
A capa de “Bicicleta” reforça o lado artesanal e colaborativo do projeto. Desenhos de João Pretto cruzam-se com a direção criativa de Ramires, num resultado que mistura referências têxteis com traço simples. Nada excessivamente polido, tudo com intenção.
E depois há o detalhe que diz muito sobre a banda: o processo criativo partilhado, informal, com vinho, amendoins e discussões artísticas. Parece irrelevante, mas não é. Ajuda a perceber como funcionam. Há uma lógica de coletivo que vai além da música.
No percurso recente, Coisas Estranhas consolidou o nome dos Exclusive Os Cabides dentro da cena independente brasileira, com presença em várias listas de melhores do ano e um alcance ampliado por temas como “Lagartixa Tropical”. Agora, “Bicicleta” não tenta repetir essa fórmula. Aponta noutra direção, mais imediata, talvez mais honesta. Fica a sensação de que isto ainda está a ganhar forma, e é precisamente aí que está o interesse.

