Há bandas que nunca saem realmente de cena. Mudam de ritmo, afinam o discurso, desaparecem por momentos, mas continuam ali, a trabalhar em silêncio.

 

Os The Monochrome Set pertencem a essa categoria rara. Meio século depois do arranque, continuam a produzir discos que não tentam competir com o presente, preferem observá-lo à distância.

“Lotus Bridge”, lançado a 13 de março pela Tapete Records, surge como mais um capítulo dessa trajetória discreta mas consistente. Não é um regresso no sentido clássico, é antes uma continuação natural de um percurso que sempre recusou fórmulas fáceis e tendências óbvias.

Um sonho como ponto de partida

A origem do disco está longe de qualquer estratégia calculada. Parte de um sonho recorrente de Bid, que regressou após meses de ausência precisamente no momento em que voltava ao processo de escrita. Esse detalhe não é apenas curioso, define o tom do álbum.

As canções desenvolvem-se como pequenas narrativas, quase vinhetas, onde personagens e cenários se cruzam num espaço que não é totalmente real nem totalmente abstrato. Existe uma linha condutora, mas nunca explícita. O ouvinte é puxado para dentro, sem mapa.

O próprio Bid sugere uma leitura mais ampla. Fala de uma civilização em declínio, da possibilidade de atravessar para um futuro desconhecido, e de um regresso ao passado como forma de reavaliação. Não há respostas claras, apenas camadas.

Uma sonoridade mais contida e cinematográfica

Musicalmente, “Lotus Bridge” afasta-se ligeiramente daquilo que a banda tem feito nos últimos anos. Há uma contenção evidente. O piano elétrico e a guitarra acústica ganham protagonismo, enquanto as guitarras elétricas aparecem mais abertas, quase a desenhar espaço.

O resultado é um disco com uma textura muito própria. Não procura impacto imediato, constrói atmosfera. Há momentos em que soa quase orquestral, não pela dimensão, mas pela forma como os elementos se organizam.

Os interlúdios e sons ambientes ajudam a ligar tudo. O álbum funciona melhor quando ouvido de forma contínua, como um corpo único, em vez de uma coleção de faixas isoladas.

A continuidade de uma identidade muito própria

Bid continua a ser o centro criativo, com a sua escrita irónica e observadora. A sua voz mantém aquele registo elegante, ligeiramente distante, que sempre marcou a identidade da banda.

Ao seu lado, a formação mantém-se sólida. Andy Warren no baixo, Stephen Gilchrist na bateria e Athen Ayren nos teclados e guitarra garantem estabilidade e coerência. Alice Healey regressa nos coros, acrescentando textura sem nunca dominar.

Essa consistência permite à banda explorar novas direções sem perder a essência. Não há ruptura, há evolução controlada.

Entre passado, presente e uma ideia de futuro

O lançamento surge pouco depois de “Strange Young Alien”, o livro de letras de Bid editado em 2025. Esse detalhe não é menor. Ajuda a perceber melhor o processo criativo por trás das canções, mesmo que esse processo continue a escapar a explicações simples.

“Lotus Bridge” não tenta ser um disco definitivo nem um manifesto. Funciona mais como um ponto intermédio, um espaço de reflexão dentro de uma carreira longa.