Torcido estreia-se em longa duração com Fora do Lugar, um disco nascido da urgência de sentir

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Num tempo em que a produção musical se acelera ao ritmo dos algoritmos e da distração constante, há projetos que escolhem o caminho inverso.

Demoram. Pensam. Sentem. O primeiro longa-duração de Torcido nasce precisamente desse gesto raro: parar para transformar inquietação em som. Editado a 27 de fevereiro, Fora do Lugar surge como um objeto emocional moldado ao longo de quase uma década.

O disco apresenta-se como um filme-concerto imaginário. Cada faixa funciona como fragmento de um período instável, onde a fragilidade não é escondida e a tensão não é suavizada. Existe uma intenção clara de capturar o desconforto contemporâneo e organizá-lo em música.

Nove anos a maturar inquietações

A construção de Fora do Lugar atravessou mudanças pessoais profundas e um contexto global marcado por pandemia, conflitos armados, desinformação e um avanço tecnológico que reconfigura a forma como nos relacionamos. Esse peso infiltra-se nas composições. Não como discurso panfletário, mas como atmosfera.

As melodias respiram vulnerabilidade. As harmonias carregam densidade emocional. Os silêncios surgem com significado próprio, quase como pausas necessárias para absorver o que acabou de ser dito. O disco não oferece respostas prontas. Organiza perguntas. E essa opção estética torna-o mais humano.

Entre eletrónica, canção e cinema interior

Musicalmente, Torcido constrói um território aberto. Sintetizadores modulares, programações rítmicas e guitarras elétricas convivem sem hierarquias rígidas. O resultado evita rótulos fáceis e move-se entre formato canção e criação de ambientes.

Essa dimensão imagética não é acidental. O videoclipe de “Vi-pular” foi selecionado para o Berlin Lift-Off Film Festival em 2021 e recebeu menção honrosa no London International Monthly Film Festival. O reconhecimento confirma uma vocação narrativa que ultrapassa o áudio e se estende à imagem.

Um single que condensa o espírito do disco

O tema de avanço, “Fora do Lugar”, sintetiza o núcleo conceptual do trabalho. A canção evoca uma distopia próxima, onde a distração se impõe à atenção e a sensibilidade parece perder terreno. Não assume tom moralista. Propõe um espelho.

Mais do que alerta, funciona como apelo à emoção enquanto força coletiva. A música surge como espaço de resistência íntima, um lugar onde ainda é possível sentir com intensidade num cenário cada vez mais automatizado.

Quem é Torcido

Torcido é o projeto de André Nunes, músico formado na Academia de Música de Espinho, com passagem pelo curso de jazz da Jazz ao Norte e pelo Curso de Formação de Animadores Musicais da Casa da Música. Paralelamente à criação autoral, desenvolve trabalho pedagógico e comunitário, além de compor para teatro.

Integra atualmente a Orquestra Paus e Cordas como diretor artístico e mantém atividade regular com os Retimbrar!, colaborando com diversos nomes da música portuguesa. Ao longo do percurso, trabalhou com projetos como Bezegol, X-Wife e Atongo Zimba, e participou na criação dos Boitezuleika. Em 2017 lançou o EP Cabaça sob o nome Torcido. Em 2026 apresenta finalmente o primeiro álbum de longa duração.

Fora do Lugar posiciona-se assim como retrato sonoro de um período conturbado e de um músico que escolheu reorganizar o caos exterior através da criação. Um disco que não procura encaixar-se no seu tempo, mas confrontá-lo a partir da sensibilidade.

 

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