O pop psicadélico português atravessa um momento de afirmação geracional em que tradição e irreverência já não vivem em campos opostos. No meio desse cruzamento inquieto, os Unsafe Space Garden voltam a mexer nas coordenadas.

A banda vimaranense prepara a edição de O Melhor e o Pior da Música Biológica, com lançamento marcado para 4 de março de 2026, e apresenta agora “Mais Uma Voltinha” como segundo avanço de um disco que promete consolidar uma identidade cada vez mais assumida.
Depois da descarga frontal de “FKNKU”, revelada em outubro passado, o novo tema abre espaço a outra respiração. Menos embate direto, mais abraço coletivo. O quarto longa duração do grupo aproxima-se com uma tese clara: explorar o português como matéria viva, como músculo criativo, como ponto de fricção entre herança e futuro.
Entre o furacão e o bálsamo
Se “FKNKU” funcionava como um choque imediato, quase provocatório, “Mais Uma Voltinha” escolhe o gesto contrário. A canção constrói-se como um recomeço cantado em uníssono, uma espécie de mantra delicado que insiste na ideia de retorno. “Aqui vai mais uma voltinha / Quem me leva que o faça com jeitinho” não é apenas refrão, é declaração de intenção.
A vocalista Alexandra Saldanha volta a assumir um papel central, com o seu característico “virou” a marcar o arranque do tema. O resultado equilibra psicadelismo de cores garridas com ecos de tradição portuguesa, num diálogo que já não soa experimental, mas natural. A banda parece menos interessada em provar algo e mais focada em aprofundar caminho.
Comunidade como matéria-prima
Um dos momentos mais significativos do single surge na participação do coro dos Alunos de Música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos. A colaboração não aparece como adereço simbólico, mas como extensão orgânica do trabalho que Nuno Duarte e Alexandra Saldanha têm desenvolvido com comunidades de diferentes regiões do país.
Esse contacto direto com arquivos vivos da tradição oral portuguesa começa a infiltrar-se nas composições. Não se trata de folclore estilizado nem de citação nostálgica. É antes um reconhecimento de que a memória coletiva pode coexistir com sintetizadores, distorções e estética psicadélica. A canção ganha espessura humana precisamente nesse cruzamento.
Um universo visual em expansão
“Mais Uma Voltinha” prolonga-se numa animação 3D assinada pelo Studio Sparks, de Cristiana Figueiredo e Lucas Moreira. O vídeo amplia o universo cromático da banda e traduz em imagens a tensão entre inclusão, solidão e alienação que atravessa o tema.
O reforço visual confirma algo que os Unsafe Space Garden têm vindo a trabalhar desde os primeiros lançamentos: a construção de um mundo próprio. Não apenas músicas soltas, mas uma identidade estética coerente, onde som e imagem funcionam como partes de um mesmo organismo.
Março decisivo dentro e fora de portas
A 3 de março, o Studio Sparks, no Porto, recebe uma listening party que antecede em 24 horas a edição oficial do álbum. O gesto sublinha a importância da comunidade criativa que orbita em torno da banda e transforma o lançamento num momento partilhado.
Quase em simultâneo, o grupo prepara-se para duas montras internacionais determinantes: o SXSW, nos Estados Unidos, e o The Great Escape, no Reino Unido. O calendário aponta para expansão, mas o centro permanece aqui. “Mais Uma Voltinha” sugere que, antes de conquistar novos palcos, é preciso reaprender a caminhar. E talvez seja nessa repetição insistente, nesse pedido de “só mais uma”, que reside a força tranquila deste novo capítulo.
