Unsafe Space Garden falam do novo disco no dia em que “O Melhor e o Pior da Música Biológica” chega ao mundo

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Algumas bandas demoram anos a encontrar o seu centro. Outras vão descobrindo caminho disco a disco, ajustando o olhar, afinando a linguagem, percebendo com mais nitidez o lugar que ocupam. Os Unsafe Space Garden parecem mover-se nesse território de descoberta contínua. O coletivo vimaranense tem vindo a desenhar um percurso particular dentro da música portuguesa, onde psicadelismo, humor, inquietação existencial e um forte sentido de comunidade se encontram de forma natural, quase como se sempre tivessem pertencido ao mesmo espaço criativo.

O novo álbum dos Unsafe Space Garden, O Melhor e o Pior da Música Biológica, é lançado hoje em Portugal.

Nos últimos anos, esse caminho começou também a aproximar-se cada vez mais da língua portuguesa. Aquilo que surgiu primeiro como experiências pontuais foi ganhando espaço dentro do universo da banda até se tornar num gesto assumido. Agora, esse movimento ganha forma definitiva com a chegada de O Melhor e o Pior da Música Biológica, o quarto longa duração do grupo.

Os avanços já revelados deixavam perceber que algo estava a mudar. “FKNKU” apareceu como um gesto direto, quase provocatório. Depois, “Mais Uma Voltinha” trouxe outra respiração, mais coletiva, mais calor humano, como um abraço depois do impacto. Entre humor, reflexão e uma pop psicadélica cheia de cor, o novo disco parece ampliar ainda mais o território criativo da banda.

No dia em que o álbum chega finalmente ao público, os Unsafe Space Garden conversam com o Musicatotal sobre o percurso que os trouxe até aqui, o processo de criação deste trabalho e a forma como comunidade, tradição e experimentação continuam a moldar a identidade do projeto. Uma conversa aberta sobre música, humanidade e sobre a vontade persistente de continuar a dar mais uma volta.

Quando começaram a trabalhar em O Melhor e o Pior da Música Biológica, já sabiam que o português iria assumir este lugar central ou foi uma decisão que se impôs aos poucos?

Nós tínhamos músicas só em português desde 2019, por isso a ideia de fazer um disco só em português foi-nos parecendo apelativa. Nesse ano, parecia-nos muito estranho lançá-las, parecia que estavam a ser feitas para outra altura, sentíamos que não batia certo com aquilo que tínhamos acabado de lançar, nomeadamente o nosso EP “Bubble Burst”. A “Já Não Há Pachorra”, por exemplo, é de 2019 e foi uma das primeiras a despertar o que veio a ser este disco, quando finalmente fez sentido pegar nestas músicas.

Olhando para os primeiros discos, que ideias ou intuições dessa fase continuam vivas na banda de hoje?

Não é de todo algo que fazemos por vontade própria porque tende a ser custoso, mas ainda ontem ouvimos o nosso segundo LP, “Bro, You Got Something In Your Eye”. Recebemos um comentário no YouTube e, de repente, o disco estava a dar e deixámos estar. Foi curioso notar que a tentativa de apelar à esperança, à persistência, à compreensão e à narrativa que puxa para nos considerarmos a todos como da mesma equipa estão bem presentes. Este novo disco tem músicas como a “Sítios”, a “Ser Humano” ou “A Vida Não É Uma Merda”, que são tudo isso em esteroides e agora em português.

 “FKNKU” surgiu como um gesto frontal, quase incendiário. Sentiram necessidade de começar este novo ciclo com confronto antes de mostrar o lado mais agregador de “Mais Uma Voltinha”?

Achamos que a “FKNKU” era uma canção forte para anunciar este passeio musical em português. E por ser tão divertida de tocar e tão berrante, pareceu a melhor forma de começar a transição para este disco. A “Mais Uma Voltinha” deu um breve olá ao mundo através da “Música Portuguesa A Gostar Dela Própria” e teve uma receção muito aconchegadora e inesperada por parte de quem a ouviu. Por isso, pareceu-nos que merecia este destaque e, por ser, como apontam, uma música que depois da “FKNKU” berrar, volta a convocar em abraço.

 O contacto com comunidades e com a tradição oral portuguesa alterou a forma como escrevem ou apenas confirmou algo que já estava latente?

Certamente impulsionou algo que provavelmente já cá morava. Foi exatamente em 2018 que começámos a fazer coisas com a comunidade, a convite do Rui Souza, e foi a partir daí que coisas em português começaram a surgir. Começámos a experimentar coisas com a linguagem que estávamos a desenvolver para Unsafe, juntamente com coisas que andávamos a aprender desses projetos. Trabalhar com a comunidade é sempre uma dádiva grande para os artistas envolvidos porque aprendemos mais sobre as possibilidades de construir pontes com a música, e este disco mostra muito daquilo que trouxemos das pessoas com quem nos cruzamos nesse contexto.

 Trabalhar com o coro da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos mudou a dinâmica emocional do tema ou a própria forma de o produzir em estúdio?

Já tínhamos trabalhado previamente com eles e estabeleceu-se um laço muito especial. Era importante para nós e fez todo o sentido tê-los neste disco. Fomos ao encontro deles, ao lado da Junta de Freguesia de Moreira de Cónegos, e fizemos duas sessões que foram uma autêntica alegria. Foi lindo revê-los e foi incrível a entrega imediata deles. No fim, ficámos super contentes, pois sentimos que a participação deles tornou a canção mais ampla e, acima de tudo, ainda mais sobre o que ela transmite.

 O que significa, na prática, falar de inclusão, solidão e alienação dentro de uma linguagem pop psicadélica tão colorida?

Significa manter bem presente a noção da nossa própria humanidade porque tudo isso são experiências inerentes ao ser-se humano. A parte em que tudo isso é aglutinado com uma linguagem pop psicadélica colorida é talvez a nossa forma de nos expressarmos intensamente sobre isso, fazendo com que esses temas sejam de certa forma pensados, sentidos e talvez transformados em coisas que são possíveis de perceber e apreender, sempre com a noção de que compensa mais rir e lançar serpentinas no processo do que rastejar em lágrimas.

 No estúdio, como equilibram intuição e método? Existe um processo definido ou cada canção nasce de um acidente diferente?

O estúdio só surge depois das canções estarem compostas pelo Nuno e pela Alexandra. Esse processo de composição é uma coisa mais de eremita, de experimentação, muitos risos, muitos falhanços, algum desespero, mas sempre muita diversão. As ideias vêm literalmente de qualquer lado.

Depois, desta vez, as canções foram trabalhadas em banda um bocadinho antes de serem gravadas. Aí ganharam mais alguma cor nas mãos do resto da banda. Chegada a altura de gravar, foi um misto de mantermo-nos fiéis àquilo que as demos tinham que nos interessava e tudo o que podia surgir de novo com as possibilidades que tínhamos no estúdio. As guitarras, por exemplo, mudaram bastante porque o nosso técnico, o Rafael Silva, teve ideias mirabolantes que funcionaram incrivelmente bem e tornaram as músicas muito mais ricas. Ele consegue ter uma perceção do sítio da guitarra relativamente à mistura e transforma aquilo que compusemos em casa. As baterias ganham vida quando passam de ser feitas no computador para serem tocadas pelo Cardita, e a pedaleira mágica do José Vale é um armário de especiarias. Tudo isto sob a orientação e com o vasto conhecimento esotérico do Filipe Louro torna aquilo que fazemos não só mais de acordo com o que sonhamos, mas também mais especial.

 Sentem que este quarto longa duração marca uma viragem estrutural na identidade da banda ou é antes uma consolidação de caminho?

Vemos isto como um disco que queríamos muito lançar, que faz sentido para nós e do qual nos orgulhamos bastante. Continuamos a querer encher o mundo de cor e esperança, e desta vez um dos veículos foi a língua portuguesa, mas as nossas dúvidas existenciais e procuras místicas são sempre poliglotas. Sempre fomos deambulando entre línguas e sempre nos pareceu fazer sentido assim. É um ponto de viragem mais na medida em que descobrimos sempre coisas novas sobre este projeto e sobre nós mesmos quando trabalhamos num disco novo.

Como vivem a preparação para palcos como o SXSW e o The Great Escape? Existe pressão ou funciona mais como curiosidade e teste?

Tentamos sempre preparar os espetáculos tendo o lugar onde vamos e o seu contexto em conta. Queremos chegar próximo das pessoas que nos vêm ouvir e ver, e por isso pensamos sempre a fundo de que forma podemos adaptar certos momentos para aquele sítio em particular. Nestes casos do SXSW e do The Great Escape, mantém-se. É empolgante sair do país para tocar e poder chegar a outras pessoas, mas o carinho com que preparamos o concerto é o mesmo para Fafe e para Londres, embora, claro, o entusiasmo de viajarmos todos juntos e ver como é recebido o que fazemos noutros países seja sempre muito mágico.

 A dimensão visual tem crescido muito no vosso universo. O vídeo em 3D para “Mais Uma Voltinha” já aponta para um pensamento mais conceptual para o álbum inteiro?

O vídeo incrível que o Studio Sparks executou encapsula uma ideia de união, perseverança e esperança, que é sempre o ponto central do que tentamos dizer, às vezes com mais ou menos comédia. Ainda assim, este talvez seja o disco menos conceptual que já fizemos, na medida em que não há bem um fio condutor como, por exemplo, o “Bro, You Got Something In Your Eye” ou o “WHERE’S THE GROUND?”. O fio condutor acaba por ser uma celebração constante, em todas as músicas, da vida e da capacidade do ser humano de criar o melhor e o pior na sua experiência biológica.

 Quando pensam no futuro dos Unsafe Space Garden, imaginam expansão internacional como prioridade ou aprofundamento da relação com o público português?

A vontade é manter ambas as vias abertas e nutridas, o que não é fácil porque exige uma carga de trabalho e de disponibilidade enorme para manter os motores a funcionar em ambas as direções. Mas o desejo é esse: lançar disco atrás de disco que seja capaz de alimentar essas duas veias que nos parecem naturais, uma mais ligada à nossa língua materna e outra mais ligada ao internacional, havendo sempre uma colisão que para nós é hilariante entre as duas. Esta colisão do português com o inglês para nós é sempre divertida de explorar. Diria que os nossos planos são sempre em torno de lutar para conseguirmos continuar a viver na música e a tocar onde nos quiserem ouvir. Somos muito felizes quando estamos a compor, a ensaiar e, acima de tudo, a tocar para um público que se dispõe a ouvir (ou até um que não se disponha), e sendo isso possível, seguimos sempre com a vontade de alegrar e elevar a experiência humana.

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