O regresso dos Tinariwen a Portugal ganha uma nova camada de interesse com a confirmação de Calcutá na primeira parte dos concertos. A escolha não parece casual.

Há aqui uma continuidade estética subtil entre dois universos que, à primeira escuta, podem parecer distantes, mas que partilham uma relação profunda com repetição, trance e território.
A digressão passa pelo Casa da Música a 13 de abril e pelo Lisboa ao Vivo a 14, com apresentação do novo trabalho The Hoggar. Duas salas que já conhecem bem a resposta do público português ao coletivo do Mali, que construiu ao longo dos anos uma ligação consistente com o país.
Calcutá abre o espaço antes do deserto
Calcutá, projeto de Teresa Castro, tem vindo a ganhar forma própria dentro da cena nacional, com uma linguagem que cruza folk, drone e experimentação sem pressa de se explicar. O álbum Soon After Dawn, editado no início de 2026, funciona como ponto de entrada para um universo onde o som respira e se expande com tempo.
Em palco, a artista surge acompanhada por Luís Barros e Maria Amaro, criando uma formação que amplia a dimensão orgânica das composições. Guitarras repetitivas, harmónios em suspensão e uma voz que não se impõe, mas guia. Existe uma sensação de espaço aberto, quase físico, que prepara o terreno para o que vem a seguir.
Tinariwen e a força contínua do assuf
Falar de Tinariwen é falar de resistência cultural transformada em linguagem musical. O chamado blues do deserto não é apenas uma estética. É memória, deslocação e identidade traduzidas em padrões de guitarra que parecem circular sem fim.
Com The Hoggar, o coletivo volta a explorar esse território com a maturidade de quem já percorreu o mundo sem perder o centro. As canções mantêm aquela pulsação hipnótica, feita de repetição e pequenas variações, enquanto as vozes carregam histórias que não precisam de tradução direta para serem sentidas.
Duas noites que se cruzam no detalhe
A junção destes dois projetos cria uma narrativa que se constrói ao longo da noite. Calcutá abre espaço, desacelera, cria escuta. Tinariwen entra depois com outra densidade, mas sem quebrar esse estado. Existe continuidade, não contraste.
Os concertos começam às 18h00 e os bilhetes continuam disponíveis por 30€, através da Symbiose e locais habituais. Não é apenas mais uma passagem por Portugal. É um encontro entre geografias sonoras que, por momentos, parecem falar a mesma língua.

