O novo disco-livro “Mão Verde III” chega num momento em que a música infantil portuguesa volta a assumir um papel ativo na formação cívica e cultural das novas gerações.

Disponível em formato físico e nas plataformas digitais, o projeto cruza canções e poesia com uma intenção clara: transformar temas complexos em linguagem acessível sem perder densidade.
Um projeto que cresce com o país
Depois dos dois volumes anteriores, este terceiro capítulo amplia o alcance do coletivo formado por Capicua, Francisca Cortesão, António Serginho e Pedro Geraldes. A base mantém-se, música com propósito pedagógico, mas o discurso torna-se mais abrangente e politizado.
São 12 faixas no total, incluindo dez canções inéditas e dois poemas, que abordam ecologia, desigualdade social, democracia, diversidade e solidariedade. O formato disco-livro reforça essa missão: além do áudio, inclui letras, notas explicativas e ilustrações de Bernardo Carvalho, criando uma experiência completa entre escuta e leitura.
Entre a pedagogia e o entretenimento
A grande força de “Mão Verde III” está na forma como equilibra mensagem e fruição. Não se trata apenas de ensinar, trata-se de envolver. As canções funcionam tanto em contexto familiar como em ambiente escolar, abrindo espaço a conversas que raramente entram no quotidiano das crianças de forma estruturada.
Temas como capacitismo, crise da habitação ou desigualdade de género surgem aqui sem simplificações excessivas. Há um cuidado evidente em não infantilizar os assuntos, mas sim traduzi-los. Esse detalhe faz diferença: o projeto respeita o público mais jovem enquanto desafia também os adultos.
Um momento simbólico: “Vira do Reviralho”
Lançado em semana de celebração do Revolução dos Cravos, o tema “Vira do Reviralho” assume um papel central neste novo trabalho. A canção revisita a história recente de Portugal com um olhar pedagógico, quase narrativo, propondo uma leitura de “antes e depois” da democracia.
O vídeo, realizado por Macedo&Cannatà e pela dupla Juno, parte das ilustrações de Bernardo Carvalho para construir uma estética visual coerente com o universo do projeto. Aqui, a memória histórica transforma-se em linguagem acessível, sem perder o peso simbólico.
Dez anos de estrada e um público em crescimento
O lançamento de “Mão Verde III” coincide com uma década de concertos pelo país. A apresentação recente na Casa da Música reforçou essa dimensão coletiva: famílias inteiras, crianças e adultos, a partilhar o mesmo espaço, o mesmo ritmo, a mesma curiosidade.
Esse detalhe não é menor. O projeto consolidou-se como um raro ponto de encontro intergeracional na música portuguesa, onde a infância não é tratada como um nicho, mas como parte ativa da cultura.
“Mão Verde III” já está disponível em todas as plataformas digitais e nas livrarias, afirmando-se como mais do que um disco. Funciona como ferramenta, ponto de partida e, em muitos casos, pretexto para conversas que começam na música e continuam muito depois de a canção terminar.

