Duas décadas depois da formação nos Açores, Sanctus Nosferatu continuam longe de soar acomodados ao passado. O novo single “1.E4” surge precisamente como sinal de transformação e não apenas como regresso.

A banda inicia agora uma nova fase criativa onde o peso continua presente, mas acompanhado por uma abordagem mais atmosférica, contemporânea e conceptualmente ambiciosa.
O tema chega acompanhado por lyric video e antecipa o próximo EP do grupo, reforçando uma identidade mais épica, obscura e socialmente agressiva. Inspirado na jogada clássica de xadrez que lhe dá nome, “1.E4” transforma estratégia e manipulação numa metáfora sobre controlo invisível, alienação colectiva e a falsa sensação de liberdade dentro de estruturas maiores.
E percebe-se rapidamente que a banda não quer apenas recuperar terreno. Quer ampliar o seu universo.
Thrash, Death e Black Metal numa abordagem mais moderna
A nova faixa mantém as raízes extremas da Sanctus Nosferatu, mas existe uma preocupação clara em expandir a linguagem sonora da banda. “1.E4” cruza Thrash, Death e Black Metal sem cair numa simples repetição de fórmulas clássicas do género.
A produção aposta numa dimensão mais cinematográfica e atmosférica, criando tensão constante entre agressividade e ambiência. Há riffs densos, mudanças abruptas e uma sensação quase claustrofóbica ao longo da composição, mas também espaço para texturas modernas e detalhes mais subtis.
Essa evolução torna-se particularmente importante num panorama extremo onde muitas bandas acabam presas à nostalgia. Sanctus Nosferatu parecem escolher outro caminho. O de reforçar identidade sem perder capacidade de transformação.
A própria temática da canção ajuda a elevar o conceito do tema acima da violência sonora. O xadrez funciona aqui como representação de sistemas invisíveis de manipulação, questionando a ideia de livre-arbítrio numa sociedade cada vez mais condicionada.
Uma banda dos Açores com percurso sólido no underground
Formada em 2002 na Ilha de São Miguel, nos Açores, a banda construiu lentamente uma reputação sólida dentro do underground português e europeu. Desde cedo, o grupo procurou combinar peso extremo com uma forte componente conceptual e atmosférica.
Depois da promo track “Revelation”, lançada em 2006, a Sanctus Nosferatu consolidou a sua identidade com o álbum SAMCA, editado em 2012, trabalho que ajudou a afirmar a dimensão mais obscura e grandiosa da banda.
Ao longo dos anos, o grupo foi desenvolvendo uma estética própria, marcada por temas existenciais, simbolismo sombrio e uma abordagem quase ritualista à composição. Esse ADN mantém-se intacto em “1.E4”, embora agora acompanhado por uma produção mais ampla e contemporânea.
Também a atual formação parece desempenhar um papel importante nesta renovação. Nuno Carreiro no baixo, Rúben Ferreira e João Raposo nas guitarras e o brasileiro Jota Fortinho na voz surgem como núcleo criativo desta nova etapa.
Produção reforça dimensão pesada e cinematográfica do single
A gravação, produção, mistura e masterização ficaram a cargo de Tiago Alves, do Waveyard Studio, responsável por preservar a agressividade da banda sem sacrificar clareza ou profundidade sonora.
Visualmente, o projeto mantém igualmente uma identidade forte. A capa e o lyric video foram criados por Jota Fortinho, reforçando a coerência estética desta nova fase, enquanto a fotografia promocional assinada por Stepan Kobyakin acrescenta ainda mais peso visual ao lançamento.
Mais do que um simples avanço para o próximo EP, “1.E4” funciona como manifesto de intenções. A banda parece determinada em aprofundar a componente conceptual e emocional da sua música sem abdicar da brutalidade que sempre definiu o seu percurso.
Sanctus Nosferatu continuam a crescer longe das fórmulas fáceis
Num contexto onde parte do metal extremo contemporâneo oscila entre revivalismo e excesso de produção artificial, Sanctus Nosferatu apresentam uma proposta mais densa, inquietante e carregada de personalidade.
“1.E4” não procura acessibilidade imediata. Procura impacto psicológico, tensão e desconforto. E talvez seja precisamente isso que torna este regresso particularmente interessante.
Porque há bandas que envelhecem a repetir fórmulas antigas. E depois existem outras que usam o tempo para se tornarem ainda mais perigosas.

