Existem discos que nascem de sessões planeadas ao detalhe. E depois existem outros que aparecem quase por acaso, alimentados por convivência, escuta e liberdade criativa. Maracanós pertence claramente à segunda categoria. O projeto junta a experiência lendária de Airto Moreira e Flora Purim a uma abordagem contemporânea profundamente intuitiva, construída entre Fortaleza, improvisação e longas sessões criativas dentro do estúdio Jasmin.
A ligação começou durante a produção de um disco e de um filme dirigidos por Jom Tob Azulay, mas rapidamente ultrapassou o contexto inicial. A convivência diária transformou-se numa residência artística espontânea, onde sintetizadores analógicos, percussões, texturas eletrónicas e referências brasileiras começaram naturalmente a cruzar-se.
O resultado acabou por fugir às fórmulas mais previsíveis do jazz contemporâneo. Maracanós move-se entre experimentação, identidade brasileira e liberdade emocional, criando um espaço sonoro que parece mais interessado em provocar sensação do que em seguir estruturas rígidas. Ao longo desta conversa com Ricardo Bacelar (foi quem deu a entrevista), o músico fala sobre o encontro com dois dos nomes mais importantes da música brasileira, o processo criativo do disco e a vontade de continuar a expandir esta colaboração para territórios ainda mais imprevisíveis.

Como nasceu a aproximação com Flora Purim e Airto Moreira?
A minha aproximação com Flora Purim e Airto Moreira nasceu dentro de um contexto artístico mais amplo. O nosso encontro aconteceu durante a produção de um disco e de um filme sobre eles, dirigidos por Jom Tob Azulay, realizados no meu estúdio, o Jasmin, em Fortaleza. A convivência foi intensa. Eles estiveram hospedados na minha casa em duas ocasiões, e isso transformou o processo numa verdadeira residência artística, onde música, convivência e troca de experiências aconteceram de forma muito natural.
Foi nesse ambiente que sugeri fazermos um disco juntos. A ideia foi imediatamente acolhida por eles, e o processo criativo desenvolveu-se sem rigidez. As músicas nasceram a partir de sessões livres, guiadas pela escuta, pela interação e pela confiança. A química criativa surgiu de maneira espontânea, muito impulsionada pela liberdade estética que eles carregam.
De que forma o estúdio influenciou o processo criativo do disco?
O estúdio teve um papel fundamental. Para mim, funcionou como um espaço de colaboração e experimentação, onde pudemos explorar timbres, texturas e a combinação entre instrumentos acústicos e eletrónicos, incluindo sintetizadores analógicos e modulares. Tudo aconteceu de forma muito orgânica, quase como uma extensão da convivência diária.
Esse disco, Maracanós, tem um caráter muito particular dentro da minha trajetória. Foi um processo extremamente natural e intuitivo, em que as ideias foram surgindo enquanto tocávamos. Ao longo do tempo fomos refinando, mas a essência nasceu desse fluxo espontâneo. O Airto tem uma escuta muito aguçada. Ele acompanha cada movimento musical com uma precisão impressionante, o que torna a interação muito profunda.
O que significou para si trabalhar diretamente com Airto Moreira e Flora Purim?
Para mim, trabalhar com o Airto foi a realização de um encontro com um dos meus grandes heróis musicais. Sempre fui muito influenciado por ele, inclusive como percussionista. Essa experiência abriu um campo estético muito amplo na minha perceção musical.
A presença da Flora também foi essencial, ampliando o universo criativo do projeto e consolidando uma parceria que já resultou, inclusive, no lançamento do single “Aqui, Oh!”.
O que espera que o público encontre em “Maracanós”?
O que eu espero do público é justamente a surpresa. É um trabalho que foge do formato convencional e procura uma narrativa musical menos previsível. A ideia é oferecer uma escuta diferente, mais aberta e mais sensorial, baseada na liberdade e na imprevisibilidade.
Como aprendizado, esse projeto reforçou para mim a importância de confiar nos instintos. Guiei-me muito pelo meu feeling, pelo meu mundo interior como músico. Isso foi determinante no resultado final.
Já existem planos para aprofundar esta colaboração no futuro?
Pensando adiante, tenho vontade de aprofundar esta colaboração. Gostaria, por exemplo, de realizar um projeto com o Airto explorando o repertório vocal que ele cantava no passado.
Além disso, já existem novas ideias a surgir, inclusive com a Flora a preparar uma letra para uma composição minha.
Como vê “Maracanós” dentro do jazz contemporâneo e da sua própria trajetória?
Dentro do jazz contemporâneo, vejo Maracanós como um trabalho muito representativo da minha trajetória. Para mim, abre um espaço estético importante, onde a liberdade criativa se encontra com uma forte identidade brasileira.
Mesmo dialogando com o jazz, é um disco profundamente conectado com o Brasil, com as suas múltiplas influências, regiões e riqueza cultural.

