Ricardo Cabral: “Tem de haver mais respeito pelos músicos açorianos”

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Durante décadas, Ricardo Cabral viveu a música açoriana de vários lados diferentes. Tocou bateria, montou som, criou estruturas, acompanhou artistas, produziu eventos e assistiu à transformação cultural das ilhas por dentro. O nome pode não surgir sempre nos cartazes, mas atravessa gerações de músicos, festivais e projetos que ajudaram a construir a identidade musical açoriana.

Nesta entrevista ao Musicatotal, fala da infância em Vila Franca do Campo, da criação da Brumasom, das dificuldades de fazer música nos Açores e das experiências que viveu ao lado de nomes como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Carlos Paredes e Extreme.

Pelo meio, deixa também uma reflexão direta sobre o estado atual da cultura nas ilhas, o papel dos festivais e a necessidade urgente de criar mais condições para os músicos açorianos crescerem sem terem de abandonar a região.

Quando olha para a sua infância em Vila Franca do Campo, que memórias sente que ainda influenciam a pessoa que é hoje?

“Tive uma infância vivida num regime fascista mas, de certa forma, tranquila em Vila Franca do Campo, onde estudei até ao 5.º ano antigo.”

Como nasceu a ligação à música e ao ambiente dos espetáculos nos Açores?

“O gosto pela música apareceu naturalmente porque a minha família, pelo lado paterno, eram todos músicos, incluindo o meu pai. Sempre estive perto dos instrumentos.”

O que recorda dos primeiros tempos como baterista e, paralelamente, da experiência com os Bruma Som?

“Sempre tive um fascínio pela bateria. Acabei por tocar com amigos e animámos muitas festas naquela altura. Depois, mais ou menos por acidente, começo a fazer som com os poucos recursos que havia. Daí fui convidado para integrar a Banda, onde estive muito tempo como técnico. Aí já estou em Ponta Delgada, o que para mim foi um salto positivo.”

“Conheço algumas pessoas importantes no meio do som, como Raul Resendes, grande técnico na RDP, e também o senhor Santos Figueira e Toni Figueira, ligados ao Teatro e Coliseu. Anos mais tarde nasce a Brumasom, a primeira empresa de som dos Açores.”

Trabalhou muitos anos na área dos seguros antes de mergulhar mais profundamente na cultura. O que o levou a mudar de caminho?

“Sempre trabalhei na indústria dos seguros e em simultâneo no som, como técnico. Quando a Brumasom aparece e os compromissos com a empresa começam a ser maiores, abrandei na área dos seguros.”

Ser técnico de som, produtor e agente cultural ao mesmo tempo obriga a olhar para a música de forma diferente?

“Ao longo dos anos, como técnico, fui-me interessando pela produção e pela descoberta de novos projetos musicais. Aí aparece o Açores Pop Rock, onde surgiram muitas bandas novas nos Açores.”

Ao longo dos anos acompanhou muitos artistas regionais. O que acha que ainda falta à música açoriana para crescer mais fora das ilhas?

“Viver nos Açores é um problema para quem faz música e até outras artes porque é difícil chegarmos às produtoras nacionais. A prova é que quem quer crescer acaba por ir viver para Lisboa ou Porto.”

“Tenho defendido que deve haver uma maneira mais fácil dos artistas circularem entre as ilhas, mas enquanto não houver vontade política para que isso aconteça será difícil.”

Como vê a evolução dos eventos e festivais nos Açores comparando com aquilo que existia há duas ou três décadas?

“Nos Açores os festivais evoluíram muito nos aspetos técnicos e também na vinda de artistas nacionais e estrangeiros. Acho que ainda são poucas as oportunidades para projetos açorianos de muito valor nesses festivais. Já foi pior, mas acho que ainda se pode fazer mais.”

A experiência como jurado e consultor mudou a forma como escuta ou avalia novos projetos musicais?

“Ser jurado e consultor muda, sim, a tua forma de ver os projetos que te passam pelas mãos, até porque passas a conhecer os seus criadores.”

Existe algum momento da sua carreira ligado à cultura ou à música que nunca esqueceu?

“Há algumas experiências como técnico ou produtor que me marcaram. Trabalhar com Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Carlos Paredes e os Extreme talvez tenham sido experiências especiais.”

Hoje, o que ainda o motiva a continuar ligado à produção de eventos e ao acompanhamento de artistas?

“Gosto muito de estar ligado às artes, especialmente à música. Já não faço som. Dedico-me só à produção de eventos e à representação de artistas. Para mim é estar ativo e fazer aquilo de que gosto.”

Sente que o trabalho desenvolvido por pessoas nos bastidores continua pouco reconhecido dentro do meio cultural?

“O trabalho que pessoas como eu fazem nos bastidores só tem de ser reconhecido pelos artistas a que estão ligadas. Não tem de ser reconhecido por mais ninguém. É assim que tem de ser.”

Quando pensa no futuro da música feita nos Açores, imagina uma nova geração preparada para ocupar mais espaço a nível nacional?

“Agora acho que tem de haver mais respeito pelos músicos açorianos.”

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