Durante muito tempo, a presença da arte africana contemporânea nos grandes circuitos europeus foi tratada como exceção, nicho ou tendência passageira. Hoje, a discussão já não passa apenas pela representação. Passa por influência, circulação e poder cultural.

E é precisamente nesse ponto que a presença da MEXTO e da WAAU na ARCOlisboa ganha dimensão maior do que simples participação institucional.
Entre os dias 28 e 31 de maio, as duas estruturas regressam à feira internacional de arte contemporânea de Lisboa, reforçando uma relação que se tem consolidado nos últimos anos. Fundadas pelo curador e filantropo Elson Angélico, a MEXTO e a WAAU chegam à edição de 2026 com papéis distintos, mas complementares, dentro da programação da feira.
Uma presença que deixou de ser pontual
A MEXTO participa pelo quinto ano consecutivo como patrocinadora oficial da ARCOlisboa. Esse dado, por si só, mostra uma permanência rara num setor onde muitas presenças institucionais acabam diluídas em ciclos curtos de visibilidade.
Ao mesmo tempo, a WAAU, associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da arte africana contemporânea, regressa à programação cultural da feira numa altura em que o mercado internacional olha cada vez mais para artistas africanos e diásporas africanas como parte central da discussão contemporânea e não apenas como periferia curatorial.
Essa mudança tem sido visível em museus, bienais e feiras internacionais. Lisboa, pela sua própria relação histórica e geográfica com África, tornou-se também um território particularmente simbólico nesse diálogo.
Lisboa continua a aproximar diferentes geografias artísticas
A ARCOlisboa tem vindo a consolidar-se como um dos principais pontos de encontro entre galerias, artistas, colecionadores e curadores internacionais na Península Ibérica. Mas existe uma dimensão menos óbvia que continua a crescer: a capacidade da feira funcionar como espaço de cruzamento entre geografias culturais distintas.
É nesse contexto que projetos como a MEXTO e a WAAU ganham peso. Não apenas enquanto presença institucional, mas enquanto estruturas que ajudam a ampliar narrativas ainda pouco representadas no circuito europeu tradicional.
A arte africana contemporânea vive atualmente um momento de forte expansão internacional, impulsionado por novas gerações de artistas, colecionadores e plataformas independentes. Ainda assim, persistem desequilíbrios evidentes no acesso ao mercado, à circulação e à legitimação crítica. A existência de organizações focadas nesse trabalho de mediação continua, por isso, a ser determinante.
O trabalho de Elson Angélico vai além da presença em feiras
O percurso desenvolvido por Elson Angélico nos últimos anos tem passado não apenas pela curadoria e promoção artística, mas também pela construção de redes internacionais ligadas à criação contemporânea africana.
Através da MEXTO e da WAAU, o trabalho tem procurado criar plataformas de visibilidade para artistas africanos e afrodescendentes, aproximando diferentes mercados, instituições e públicos.
Num panorama artístico global onde as discussões sobre representatividade cultural deixaram de ser marginais, iniciativas deste tipo começam também a disputar espaço simbólico dentro do próprio mercado da arte contemporânea.
E talvez seja precisamente aí que esta presença na ARCOlisboa ganha outra leitura. Não como simples participação anual numa feira internacional, mas como sinal de uma transformação mais ampla sobre quem ocupa hoje o centro da conversa cultural.



