A música vive muito para lá dos palcos. Cresce nos estúdios, nas salas de ensaio, nos pequenos clubes, nas associações culturais e nas conversas entre quem a cria. Quando uma cidade decide parar para pensar o seu ecossistema musical, está também a pensar o seu futuro cultural.

É precisamente esse exercício que o Coliseu Porto Ageas propõe na próxima terça-feira, 30 de junho, às 18h30, com “A Cidade não está Deserta: uma conversa sobre a música no Porto”, mais uma sessão dos Mantras do Coliseu dedicada a refletir sobre o momento atual da cena musical portuense.
Um retrato da música que se faz no Porto
O debate reúne Jorge Sobrado, vereador da Cultura do Porto, Paula Guerra, socióloga e investigadora ligada aos movimentos musicais e de contracultura, e João Vieira, músico dos X-Wife e DJ Kitten, além de curador do novo ciclo Primeira Box.
Com moderação de Valentina Jesus, da Antena 3, a conversa pretende olhar para quem faz a música na cidade, em que condições trabalha, quais os apoios existentes e que desafios poderão marcar os próximos anos. Entre salas de concertos, espaços de ensaio, editoras independentes, coletivos e transformações urbanas, o Porto continua a afirmar-se como um dos principais centros criativos da música portuguesa.
Uma cidade que continua a enfrentar desafios
A pandemia expôs a fragilidade do setor cultural e levou ao nascimento do movimento “Ao Vivo ou Morto”, criado para defender as salas de música ao vivo em Portugal. Apesar da recuperação da atividade, muitos dos desafios permanecem.
Mais recentemente, a situação do centro comercial STOP voltou a demonstrar a importância dos espaços informais de criação artística. Durante décadas, aquele edifício acolheu dezenas de salas de ensaio utilizadas por centenas de músicos, tornando-se uma peça essencial da identidade musical da cidade. A mobilização em torno da sua preservação mostrou que proteger estes espaços é também proteger o futuro da música.
Primeira Box quer abrir portas às novas bandas
O debate acontece numa fase em que o Coliseu prepara também o arranque do Primeira Box, um novo ciclo dedicado às bandas emergentes do Porto, cuja estreia está marcada para 6 de julho.
Na apresentação da iniciativa, Pedro Ledo, dos Astra Vaga, deixou uma ideia que resume bem o momento atual da música portuguesa: nunca existiram tantas bandas nem tanta qualidade. Mas talento, por si só, não chega. São necessários espaços, oportunidades e plataformas que permitam aos novos projetos crescer e encontrar o seu público.
O exemplo do Porto deixa uma pergunta para os Açores
É difícil olhar para esta iniciativa sem pensar na realidade açoriana. Nos últimos anos, Ponta Delgada viu crescer o número de festivais, consolidou eventos que já fazem parte da agenda cultural da Região e assistiu ao aparecimento de novos artistas, coletivos e promotores independentes. A cena musical está mais ativa, mais diversificada e mais visível do que há uma década.
Apesar dessa evolução, continua por existir um momento de reflexão coletiva onde músicos, promotores, técnicos, produtores, programadores, associações culturais, autarquias e público possam sentar-se à mesma mesa para discutir o futuro da música nos Açores. Questões como os espaços para ensaios, as salas de pequena e média dimensão, a circulação dos artistas açorianos, a criação de públicos ou o reforço da cooperação entre agentes culturais merecem um debate aberto.
O exemplo do Coliseu Porto Ageas demonstra que estas conversas podem aproximar diferentes gerações, gerar novas ideias e ajudar a construir estratégias para o setor. Talvez esteja na altura de Ponta Delgada promover um encontro semelhante. Afinal, uma cidade que dedica tempo a pensar a sua música mostra que acredita nela. E talvez o exemplo venha do Porto, mas a próxima conversa possa muito bem começar nos Açores.



