Daniela Silveira: “O problema nunca foi a falta de talento, mas o acesso às ferramentas certas”

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A cultura açoriana vive há muito tempo um paradoxo difícil de ignorar. Existem artistas, associações e projetos com qualidade reconhecida, mas o acesso a financiamentos nacionais e internacionais continua a ser uma realidade distante para grande parte do setor. Entre regulamentos complexos, informação dispersa e falta de acompanhamento especializado, muitas oportunidades acabam por passar ao lado de quem mais delas precisa.

Foi para responder a esse desafio que nasceu o Radar Cultural, plataforma criada por Daniela Silveira com o objetivo de aproximar artistas e organizações culturais das oportunidades de financiamento, formação e capacitação. Nesta entrevista ao Musicatotal, a gestora cultural fala sobre as fragilidades estruturais que continuam a marcar o setor nos Açores, o trabalho desenvolvido através do Radar Cultural e a visão que tem para o futuro da profissionalização cultural no arquipélago.

 

 

Antes do Radar Cultural nascer, em que momento percebeu que existia realmente uma falha estrutural no acesso ao financiamento cultural nos Açores?

Percebi isso ao longo dos últimos 15 anos de trabalho como gestora cultural. Fui encontrando artistas, associações e agentes culturais com projetos de qualidade que não conseguiam aceder aos apoios por falta de informação, acompanhamento técnico ou tempo para preparar candidaturas de forma adequada.

Ao longo dos últimos anos, quais foram os obstáculos mais repetidos que encontrou junto de artistas, associações e agentes culturais açorianos?

Sobretudo a dificuldade em acompanhar avisos, interpretar regulamentos e estruturar candidaturas. Existe também muita sobrecarga nas pequenas estruturas culturais.

O setor cultural açoriano fala há muito tempo da necessidade de maior apoio técnico e estratégico. Porque acha que essa resposta demorou tanto a aparecer?

Durante muitos anos não existiu uma resposta estruturada para esta necessidade, nem uma mobilização suficiente para criar mecanismos de apoio técnico permanentes. Ao mesmo tempo, o setor cultural continua bastante fragmentado, o que dificulta a criação de respostas coletivas. O Radar Cultural surge precisamente para ajudar a colmatar essa lacuna, aproximando a informação, a capacitação e as oportunidades de quem trabalha na cultura.

O Radar Cultural surge numa altura importante para os programas de apoio nacionais e europeus. O que mudou no presente para tornar este projeto urgente agora?

Nos Açores, a condição insular e ultraperiférica continua a criar desafios acrescidos no acesso à informação, às redes de contacto e às oportunidades de financiamento. O Radar Cultural nasce precisamente para criar essa ponte, aproximando artistas e organizações culturais dos apoios e recursos disponíveis.

A plataforma aposta muito na ideia de mediação e capacitação. O que significa isso na prática para quem trabalha diariamente na cultura?

Significa transformar informação técnica em algo acessível e útil. Ajudar estruturas culturais a perceber oportunidades, planear candidaturas e tomar decisões mais estratégicas.

Muitas estruturas culturais continuam a olhar para candidaturas e financiamentos como algo distante ou demasiado burocrático. Como se combate esse bloqueio?

Com acompanhamento próximo, linguagem clara e formação prática. Quanto mais as pessoas compreendem os processos, mais confiança ganham para se candidatarem.

O Radar Cultural combina informação, formação e acompanhamento direto. Qual destas áreas acredita que pode ter impacto mais imediato no setor?

A formação prática. Quando as pessoas entendem como funcionam os apoios e como estruturar projetos, o impacto é quase imediato na capacidade de ação.

Sendo um projeto criado nos Açores, de que forma a realidade insular influencia a forma como pensam a plataforma e os seus serviços?

Influencia totalmente. Trabalhamos a partir de uma realidade marcada pela distância, pela fragmentação territorial e pelo acesso desigual à informação e às oportunidades.

Nas formações que já realizou desde 2025, houve algum momento, reação ou caso concreto que lhe tenha mostrado que este trabalho estava realmente a fazer falta?

Sim. Uma das reações mais frequentes é ouvir participantes dizerem que, pela primeira vez, conseguem perceber um aviso sem se sentirem perdidos. Muitas vezes, é também durante as formações que dão os primeiros passos práticos, como registar a entidade nas plataformas ou começar a estruturar uma candidatura.

O setor cultural açoriano atravessa atualmente uma fase de transformação ou ainda sente muita precariedade e falta de estrutura?

As duas coisas coexistem. Existe uma nova geração de projetos culturais muito dinâmica, mas continuam a existir fragilidades estruturais e dificuldades de sustentabilidade.

Olhando para o futuro, o que gostaria de ver acontecer nos Açores nos próximos cinco anos em relação ao financiamento e profissionalização cultural?

Gostava de ver estruturas mais capacitadas, maior continuidade nos apoios e mais profissionais da cultura a conseguirem trabalhar com estabilidade e visão de longo prazo.

Se o Radar Cultural conseguir cumprir plenamente a sua missão, como imagina o panorama cultural açoriano daqui a alguns anos?

Imagino um setor mais informado, mais preparado e com maior capacidade de criar projetos sustentáveis, colaborativos e com impacto dentro e fora da região.

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