Há bandas que fazem da longevidade um feito. Os Dixit fizeram dela uma missão. Trinta e três anos depois dos primeiros ensaios, a banda continua a acreditar que a música pode ser mais do que entretenimento, mais do que ruído de fundo, mais do que um produto consumido à velocidade de um scroll.
Com o lançamento de “Madrugar em Gaza”, um tema que olha para a perda da infância em contexto de guerra, os Dixit regressam ao território que sempre conheceram bem: o da reflexão, da inquietação e da palavra como ferramenta de intervenção. Num momento em que as canções de comentário social parecem cada vez mais raras, a banda mantém-se fiel a uma identidade construída ao longo de décadas.
Nesta conversa com o Musicatotal, viajamos pelos primeiros anos do grupo, pelas transformações do rock português, pelos desafios de permanecer independente e pelo significado deste novo single. Pelo meio, há espaço para falar sobre criação, resistência, esperança e sobre aquilo que ainda alimenta a vontade de continuar a subir aos palcos depois de mais de três décadas de estrada.

Quando olham para os primeiros anos dos Dixit, em 1993, o que sentem que continua intacto na banda?
Desde o início do projeto, ainda em formato de duo, quisemos sempre contar histórias, deixar mensagens e dar destaque à palavra. O “dizer” — Dixit — continua a ser a essência da nossa música.
O rock português dos anos 90 tinha uma energia muito própria. Como viveram esse período enquanto banda independente?
Vivemos esse período intensamente. Tocámos muito antes mesmo de gravarmos o primeiro álbum. Foi uma viagem feita entre palcos e salas de ensaio, numa altura em que existiam centenas de bandas de originais e muitos bares e espaços abriam portas aos criadores de rock.
Que memórias guardam dos primeiros concertos e da reação inicial do público às vossas letras de intervenção?
Desde cedo fomos criando um grupo de seguidores que acabaram por se tornar amigos. Acompanhavam-nos para todo o lado e davam-nos uma sensação quase familiar, mesmo quando ainda estávamos fechados nas salas de ensaio. Foram eles que marcaram presença nos primeiros concertos.
Guardamos memórias muito boas dessa fase, apesar da imaturidade natural da época e dos inevitáveis problemas técnicos.
Ao longo de mais de três décadas abordaram temas difíceis, como suicídio, violência doméstica ou racismo. Houve algum tema que tenha gerado reações particularmente fortes?
Todas as temáticas mais difíceis acabam por causar desconforto. Na verdade, nunca estivemos demasiado atentos às reações imediatas, mas o racismo é provavelmente o tema mais fraturante entre todos aqueles que abordámos.
Sentem que o público compreendeu melhor a mensagem dos Dixit com o passar dos anos?
Hoje em dia, talvez o mais difícil seja fazer quem nos ouve parar para procurar o verdadeiro sentido do que escrevemos. Continua a ser um desafio. Ainda assim, muitos dos nossos temas deixam espaço para interpretações pessoais de quem escuta.
Como foi manter uma identidade própria numa cena musical que mudou tantas vezes desde os anos 90?
Ao longo destas três décadas muita coisa mudou, embora nos tenhamos mantido fiéis ao rock. Todo este percurso, o crescimento pessoal e a chegada à maturidade refletem-se naturalmente na expressão de um coletivo que continua a gostar genuinamente daquilo que faz.
O que aprenderam sobre resistência e sobrevivência artística ao longo destes 33 anos?
Os 33 anos dos Dixit resultam sobretudo da vontade de duas pessoas que, apesar das pausas e dificuldades, acreditaram que ainda valia a pena continuar. O Falcão e eu, Zé Rui, somos os elementos mais antigos e tivemos a felicidade de encontrar muitos músicos talentosos que quiseram contribuir para esta ideia musical.
“Madrugar em Gaza” nasce de que necessidade emocional ou humana dentro da banda?
Nasce da urgência de escrever sobre aquilo que continua a revoltar-nos em pleno século XXI. A morte indiscriminada de crianças é demasiado desumana para ser ignorada.
Porque decidiram usar a figura de Samir como centro narrativo da canção?
O Samir representa todas as crianças do mundo. Uma criança que sonha, brinca e imagina o futuro como qualquer outra. Todos nós deveríamos cuidar de todos os “Samirs” que existem neste planeta.
Sentem que atualmente existe menos espaço para músicas de intervenção social no rock português?
É evidente. Existe uma enorme falta de espaço para muitas bandas e criadores de rock nacional. Faltam locais onde tocar, onde passar música e onde as bandas possam ser realmente ouvidas.
A canção fala da perda da infância em contexto de guerra. O que vos afetou mais durante o processo de escrita?
A perda da infância é talvez uma das maiores tragédias que uma guerra pode provocar. Pensar em crianças obrigadas a crescer entre o medo, a destruição e a morte foi algo profundamente difícil de transformar em palavras.
O lançamento do videoclipe no Dia Mundial da Criança foi pensado desde o início?
Sim. Fez todo o sentido lançar o videoclipe nessa data. É a nossa homenagem a todas as crianças que crescem em cenários de guerra.
Como equilibram a componente musical com a responsabilidade emocional de um tema tão pesado?
A parte musical, criada pelo nosso baixista, acabou por sugerir naturalmente esta narrativa. Embora música e letra tenham nascido separadamente, acabaram por se unir naquilo que realmente importava contar.
O que gostavam que as pessoas sentissem depois de ouvir “Madrugar em Gaza”?
Gostávamos que as pessoas ouvissem o coração e pensassem em todas aquelas crianças que continuam a viver o terror provocado por interesses geopolíticos.
Acreditam que a música ainda consegue provocar reflexão real numa era dominada pelo consumo rápido e pelas redes sociais?
É cada vez mais difícil, mas é precisamente por isso que temos de continuar a criar. Haverá sempre pessoas que recusam viver apenas no consumo rápido. A música nem sempre é feita para as massas; muitas vezes é feita para nichos que ainda procuram sentir e refletir.
Depois deste single, os Dixit estão a preparar um novo álbum ou mais temas dentro desta linha de intervenção?
Ainda não temos nada definido. A ideia é continuar a criar música. Um novo álbum surgirá naturalmente se existir vontade de reunir temas e editá-los em formato físico, como aconteceu com o último trabalho, “Uma Maravilhosa Supernova”, lançado em CD e vinil.
Há assuntos sociais que sentem necessidade urgente de abordar nos próximos trabalhos?
Tudo aquilo que nos preocupa ou inspira pode transformar-se em letra. O mundo continua a ser um enorme quadro em branco pronto para ser pintado.
Como imaginam os Dixit nos próximos anos?
Reformados dificilmente estaremos. A ideia é continuar a criar e a tocar enquanto o corpo permitir. O importante é continuar feliz e fazer aquilo de que gostamos.
O que ainda vos move para continuar a fazer música depois de mais de três décadas?
A vontade de viver, criar e ser feliz.
Que conselho dariam hoje às bandas portuguesas independentes que estão a começar?
Que procurem a sua própria linguagem, que não se preocupem demasiado com modas e que nunca deixem de ser genuínos.
Acham que o rock português perdeu voz interventiva ou ainda existem artistas dispostos a correr riscos?
Ainda existe muita gente a fazer esse rock interventivo. Na nossa Confraria de Rock Tuga temos mais de vinte bandas que provam exatamente isso. O rock de intervenção continua vivo. Basta procurar.
Existe algum sonho ou objetivo que os Dixit ainda gostassem de concretizar?
Talvez o maior sonho, hoje em dia, seja simplesmente ter mais palcos para mostrar a nossa música. Continuamos a acreditar que a música nacional merece ser reconhecida e respeitada.
Quando olham para o futuro da música portuguesa, o que vos preocupa e o que vos dá esperança?
Preocupa-nos a possibilidade de a Inteligência Artificial vir a retirar ao ser humano essa capacidade maravilhosa de sonhar e criar música.
Mas temos esperança nestes novos miúdos que continuam a beber das influências do passado para criar rock de forma genuína, sem viverem obcecados por algoritmos, números ou seguidores.



