Nem todos os festivais se medem pelo tamanho do cartaz. Alguns distinguem-se pela forma como ocupam uma cidade e se tornam parte da vida das pessoas.

@oliviapinto
É precisamente esse o caminho que o Festival Que Jazz É Este? volta a seguir em 2026, apostando numa programação que aproxima o jazz de públicos pouco habituados a encontrá-lo e transformando Viseu num espaço de encontro, criação e partilha.
Entre 8 e 19 de julho, a 14.ª edição do festival regressa com entrada livre em todas as atividades e um forte compromisso com a descentralização cultural. Ao longo de quase duas semanas, concertos, oficinas, intervenções comunitárias e projetos colaborativos espalham-se por diferentes espaços da cidade e da região, mostrando que o jazz pode existir muito para além dos palcos tradicionais.
Música onde raramente chega
O arranque acontece a 8 de julho com uma das iniciativas mais emblemáticas do festival: Jazz ao Domicílio. Este ano, a dixieband Chinfrim leva a música ao Departamento de Psiquiatria do Hospital de Viseu, ao Internato Dr. Vítor Fontes e ao Estabelecimento Prisional de Viseu.
A proposta mantém uma das ideias centrais do Que Jazz É Este?: usar a música como ferramenta de proximidade e inclusão. Em vez de esperar pelo público, o festival vai ao encontro dele, criando momentos de partilha em contextos onde a programação cultural nem sempre está presente.
Várzea de Calde recebe criação coletiva
A 12 de julho, o festival desloca-se até Várzea de Calde para uma tarde dedicada à relação entre comunidade, território e criação artística.
A programação inclui uma oficina de videoarte orientada pela artista Beatriz Rodrigues e concertos dos Chinfrim e do projeto Três Tempos. Desenvolvido pelo Teatro Viriato e orientado pelos músicos Xullaji e Bruno Pinto, o projeto reúne nove jovens participantes que apresentam agora o resultado de um processo criativo colaborativo construído ao longo dos últimos meses.
Mais do que um espetáculo final, trata-se de um retrato artístico das experiências, inquietações e observações de uma nova geração.
O jazz invade o quotidiano da cidade
A ligação ao espaço público continua no dia 14 de julho com a iniciativa Jazz na Rua. O palco será a feira semanal de Viseu, onde alunos da Escola Profissional da Serra da Estrela protagonizam um concerto ambulante.
A proposta rompe com a ideia de sala de espetáculos e transforma um dos locais mais movimentados da cidade num espaço inesperado de escuta. É uma forma simples, mas eficaz, de aproximar novos públicos da linguagem do jazz.
Vera Morais e as jam sessions marcam o arranque do grande fim de semana
O momento mais intenso da programação começa a ganhar forma a partir de 17 de julho. Nessa noite, a cantora e compositora Vera Morais apresenta o projeto Eupnea nos claustros do Museu Nacional Grão Vasco.
Radicada em Amesterdão, a artista explora a voz como instrumento de descoberta, respiração e escuta coletiva, num concerto pensado para um ambiente intimista e de forte dimensão sensorial.
O Carmo’81 volta também a receber as tradicionais jam sessions do festival. No dia 16, o coletivo Batalha da Visa sobe ao palco acompanhado por músicos da Gira Sol Azul. Já no dia 17, os Santa Combo, ligados ao Conservatório de Música e Artes do Dão, dão início a mais uma noite aberta à improvisação e ao encontro entre diferentes gerações de músicos.
Enquanto o programa completo dos dias 18 e 19 de julho no Parque Aquilino Ribeiro continua por revelar, a identidade desta edição já é clara: o Festival Que Jazz É Este? mantém-se como um dos projetos culturais mais singulares do país, não apenas pela música que apresenta, mas pela forma como transforma a cidade num território de participação e descoberta.
À medida que julho se aproxima, permanece a mesma pergunta que acompanha o festival desde a primeira edição. Talvez a resposta continue a mudar de concerto para concerto, de rua para rua, de encontro para encontro.



