Domingo, 26 de Julho de 2026
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Nuno Bettencourt: o açoriano que conquistou o mundo com uma guitarra e Portugal ainda insiste em redescobrir

Por Jorge Silva Medeiros 26 Jul 2026

O Nuno Bettencourt nasceu na Praia da Vitória. Ainda mal sabia o nome das ruas da ilha e já a vida lhe mudava o mapa. Aos quatro anos partiu para o Massachusetts. Levou pouco mais do que uma infância interrompida. O resto construiu-o com os dedos.

Foto: Pedro Chagas Freitas / Nuno Bettencourt

Enquanto muitos colecionavam diplomas, ele colecionava horas de estudo, cordas partidas e calos nas mãos. Aprendeu que uma guitarra também pode ser uma forma de sobreviver. E fez dela um idioma.

Hoje, esse idioma é falado nos maiores palcos do mundo.

Em Portugal, continua demasiadas vezes a ser tratado como uma nota de rodapé.

O músico que tocou com Rihanna. O guitarrista que subiu ao palco do Super Bowl. O homem que é citado como influência por músicos de várias gerações. Ainda assim, para muitos portugueses, continua a ser apenas um nome que aparece de vez em quando, como se o extraordinário pudesse viver discretamente entre nós.

Talvez porque o génio nos incomode.

A música é um país onde nunca se chega verdadeiramente a casa. Vive-se sempre entre aeroportos, hotéis, palcos e silêncios. Nuno Bettencourt conhece bem essa geografia. Cada solo parece desenhar um mapa onde cabem a distância, a saudade, a raiva, o orgulho e uma estranha vontade de continuar.

Quando o oiço tocar, encontro qualquer coisa que me leva aos Açores. Não é folclore. Não é nostalgia. É a força da lava. Uma energia que avança sem pedir licença e que transforma tudo aquilo em que toca.

Quando o oiço tocar, encontro qualquer coisa que me leva aos Açores. Não é folclore. Não é nostalgia. É a força da lava.

Há guitarristas que impressionam pela técnica.

Nuno Bettencourt emociona porque nunca deixou que a técnica falasse mais alto do que a verdade.

A guitarra diz aquilo que, por vezes, as palavras não conseguem suportar.

Imagino que não seja fácil conquistar o mundo e continuar a sentir que o próprio país ainda olha para nós com alguma distância. Não por falta de talento, mas porque o reconhecimento, em Portugal, chega muitas vezes tarde. Quando chega.

Para mim, Nuno Bettencourt é o maior guitarrista português de sempre.

Não espero que todos concordem. As grandes figuras nunca vivem do consenso. Vivem da marca que deixam em quem as escuta.

Talvez seja essa a verdadeira medida do talento. Não o número de prémios, de discos vendidos ou de concertos dados. Mas a capacidade de mudar a vida de alguém através de meia dúzia de notas.

E isso, gostemos mais ou menos de o admitir, Nuno Bettencourt já conseguiu há muito tempo.

 

Artigo de opinião de Pedro Chagas Freitas, publicado originalmente na sua página oficial de Facebook e reproduzido com autorização do autor.

O escritor Pedro Chagas Freitas dedicou um texto a Nuno Bettencourt que rapidamente começou a ser partilhado nas redes sociais. Mais do que uma homenagem ao guitarrista açoriano, é uma reflexão sobre talento, emigração, reconhecimento e a dificuldade que Portugal continua a ter em valorizar alguns dos seus maiores artistas enquanto continuam a escrever a sua história.

Reproduzimos, de seguida, o texto integral, com autorização do autor.

Nos Açores nasceu alguém que nos mostrou que uma guitarra também pode mudar o mundo

O Nuno Bettencourt nasceu na Praia da Vitória. Ainda mal sabia o nome das ruas da ilha e já a vida lhe mudava o mapa. Aos quatro anos partiu para o Massachusetts. Levou pouco mais do que uma infância interrompida. O resto construiu-o com os dedos.

Enquanto muitos colecionavam diplomas, ele colecionava horas de estudo, cordas partidas e calos nas mãos. Aprendeu que uma guitarra também pode ser uma forma de sobreviver. E fez dela um idioma.

Hoje, esse idioma é falado nos maiores palcos do mundo.

Em Portugal, continua demasiadas vezes a ser tratado como uma nota de rodapé.

O músico que tocou com Rihanna. O guitarrista que subiu ao palco do Super Bowl. O homem que é citado como influência por músicos de várias gerações. Ainda assim, para muitos portugueses, continua a ser apenas um nome que aparece de vez em quando, como se o extraordinário pudesse viver discretamente entre nós.

Talvez porque o génio nos incomode.

A música é um país onde nunca se chega verdadeiramente a casa. Vive-se sempre entre aeroportos, hotéis, palcos e silêncios. Nuno Bettencourt conhece bem essa geografia. Cada solo parece desenhar um mapa onde cabem a distância, a saudade, a raiva, o orgulho e uma estranha vontade de continuar.

Quando o oiço tocar, encontro qualquer coisa que me leva aos Açores. Não é folclore. Não é nostalgia. É a força da lava. Uma energia que avança sem pedir licença e que transforma tudo aquilo em que toca.

Há guitarristas que impressionam pela técnica.

Nuno Bettencourt emociona porque nunca deixou que a técnica falasse mais alto do que a verdade.

A guitarra diz aquilo que, por vezes, as palavras não conseguem suportar.

Imagino que não seja fácil conquistar o mundo e continuar a sentir que o próprio país ainda olha para nós com alguma distância. Não por falta de talento, mas porque o reconhecimento, em Portugal, chega muitas vezes tarde. Quando chega.

Para mim, Nuno Bettencourt é o maior guitarrista português de sempre.

Não espero que todos concordem. As grandes figuras nunca vivem do consenso. Vivem da marca que deixam em quem as escuta.

Talvez seja essa a verdadeira medida do talento. Não o número de prémios, de discos vendidos ou de concertos dados. Mas a capacidade de mudar a vida de alguém através de meia dúzia de notas.

E isso, gostemos mais ou menos de o admitir, Nuno Bettencourt já conseguiu há muito tempo.

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Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais.