O Nuno Bettencourt nasceu na Praia da Vitória. Ainda mal sabia o nome das ruas da ilha e já a vida lhe mudava o mapa. Aos quatro anos partiu para o Massachusetts. Levou pouco mais do que uma infância interrompida. O resto construiu-o com os dedos.
Foto: Pedro Chagas Freitas / Nuno Bettencourt
Enquanto muitos colecionavam diplomas, ele colecionava horas de estudo, cordas partidas e calos nas mãos. Aprendeu que uma guitarra também pode ser uma forma de sobreviver. E fez dela um idioma.
Hoje, esse idioma é falado nos maiores palcos do mundo.
Em Portugal, continua demasiadas vezes a ser tratado como uma nota de rodapé.
O músico que tocou com Rihanna. O guitarrista que subiu ao palco do Super Bowl. O homem que é citado como influência por músicos de várias gerações. Ainda assim, para muitos portugueses, continua a ser apenas um nome que aparece de vez em quando, como se o extraordinário pudesse viver discretamente entre nós.
Talvez porque o génio nos incomode.
A música é um país onde nunca se chega verdadeiramente a casa. Vive-se sempre entre aeroportos, hotéis, palcos e silêncios. Nuno Bettencourt conhece bem essa geografia. Cada solo parece desenhar um mapa onde cabem a distância, a saudade, a raiva, o orgulho e uma estranha vontade de continuar.
Quando o oiço tocar, encontro qualquer coisa que me leva aos Açores. Não é folclore. Não é nostalgia. É a força da lava. Uma energia que avança sem pedir licença e que transforma tudo aquilo em que toca.
Quando o oiço tocar, encontro qualquer coisa que me leva aos Açores. Não é folclore. Não é nostalgia. É a força da lava.
Há guitarristas que impressionam pela técnica.
Nuno Bettencourt emociona porque nunca deixou que a técnica falasse mais alto do que a verdade.
A guitarra diz aquilo que, por vezes, as palavras não conseguem suportar.
Imagino que não seja fácil conquistar o mundo e continuar a sentir que o próprio país ainda olha para nós com alguma distância. Não por falta de talento, mas porque o reconhecimento, em Portugal, chega muitas vezes tarde. Quando chega.
Para mim, Nuno Bettencourt é o maior guitarrista português de sempre.
Não espero que todos concordem. As grandes figuras nunca vivem do consenso. Vivem da marca que deixam em quem as escuta.
Talvez seja essa a verdadeira medida do talento. Não o número de prémios, de discos vendidos ou de concertos dados. Mas a capacidade de mudar a vida de alguém através de meia dúzia de notas.
E isso, gostemos mais ou menos de o admitir, Nuno Bettencourt já conseguiu há muito tempo.
Artigo de opinião de Pedro Chagas Freitas, publicado originalmente na sua página oficial de Facebook e reproduzido com autorização do autor.
O escritor Pedro Chagas Freitas dedicou um texto a Nuno Bettencourt que rapidamente começou a ser partilhado nas redes sociais. Mais do que uma homenagem ao guitarrista açoriano, é uma reflexão sobre talento, emigração, reconhecimento e a dificuldade que Portugal continua a ter em valorizar alguns dos seus maiores artistas enquanto continuam a escrever a sua história.
Reproduzimos, de seguida, o texto integral, com autorização do autor.
Nos Açores nasceu alguém que nos mostrou que uma guitarra também pode mudar o mundo
O Nuno Bettencourt nasceu na Praia da Vitória. Ainda mal sabia o nome das ruas da ilha e já a vida lhe mudava o mapa. Aos quatro anos partiu para o Massachusetts. Levou pouco mais do que uma infância interrompida. O resto construiu-o com os dedos.
Enquanto muitos colecionavam diplomas, ele colecionava horas de estudo, cordas partidas e calos nas mãos. Aprendeu que uma guitarra também pode ser uma forma de sobreviver. E fez dela um idioma.
Hoje, esse idioma é falado nos maiores palcos do mundo.
Em Portugal, continua demasiadas vezes a ser tratado como uma nota de rodapé.
O músico que tocou com Rihanna. O guitarrista que subiu ao palco do Super Bowl. O homem que é citado como influência por músicos de várias gerações. Ainda assim, para muitos portugueses, continua a ser apenas um nome que aparece de vez em quando, como se o extraordinário pudesse viver discretamente entre nós.
Talvez porque o génio nos incomode.
A música é um país onde nunca se chega verdadeiramente a casa. Vive-se sempre entre aeroportos, hotéis, palcos e silêncios. Nuno Bettencourt conhece bem essa geografia. Cada solo parece desenhar um mapa onde cabem a distância, a saudade, a raiva, o orgulho e uma estranha vontade de continuar.
Quando o oiço tocar, encontro qualquer coisa que me leva aos Açores. Não é folclore. Não é nostalgia. É a força da lava. Uma energia que avança sem pedir licença e que transforma tudo aquilo em que toca.
Há guitarristas que impressionam pela técnica.
Nuno Bettencourt emociona porque nunca deixou que a técnica falasse mais alto do que a verdade.
A guitarra diz aquilo que, por vezes, as palavras não conseguem suportar.
Imagino que não seja fácil conquistar o mundo e continuar a sentir que o próprio país ainda olha para nós com alguma distância. Não por falta de talento, mas porque o reconhecimento, em Portugal, chega muitas vezes tarde. Quando chega.
Para mim, Nuno Bettencourt é o maior guitarrista português de sempre.
Não espero que todos concordem. As grandes figuras nunca vivem do consenso. Vivem da marca que deixam em quem as escuta.
Talvez seja essa a verdadeira medida do talento. Não o número de prémios, de discos vendidos ou de concertos dados. Mas a capacidade de mudar a vida de alguém através de meia dúzia de notas.
E isso, gostemos mais ou menos de o admitir, Nuno Bettencourt já conseguiu há muito tempo.

