Poucas bandas portuguesas podem contar uma história tão longa e atribulada como os Carnification. Formados nos Açores no início dos anos 90, os pioneiros do death metal melódico atravessaram mudanças de formação, pausas prolongadas, a perda de um dos seus elementos mais importantes e até o desaparecimento de um álbum praticamente concluído. Ainda assim, nunca deixaram que a música morresse.
Nesta entrevista ao Musicatotal, os Carnification recordam os primeiros passos da banda, o impacto da morte de Paulo Castro, a recuperação de um projeto que parecia perdido e o lançamento de um novo álbum que simboliza a continuidade de um percurso construído à força de persistência, amizade e paixão pelo metal extremo. Entre memórias, desafios e planos para o futuro, a banda açoriana revela como conseguiu transformar os momentos mais difíceis em combustível para continuar a avançar.

Os Carnification nasceram numa época muito diferente da atual. O que vos levou a criar uma banda de metal extremo nos Açores no início dos anos 90?
Basicamente, fomos apanhados pela “febre da música” que estava a começar naquela altura. No nosso grupo havia alguns amigos que tocavam e que também tinham as suas bandas. Como já tínhamos algumas bases de música, aproveitámos a boleia. Foi desta forma que se formaram os Carnification.
Que recordações guardam dos primeiros concertos e da reação do público quando começaram a apresentar a vossa música ao vivo?
Guardamos como recordação os ensaios de preparação para o concerto de estreia. Depois, o primeiro concerto fica sempre gravado na memória por ser o primeiro. Neste caso, ficou ainda mais vincado porque, a meio da terceira ou quarta música da nossa atuação, o quadro elétrico “explodiu” e ficámos sem energia em palco. O concerto terminou naquele preciso momento.
A nossa estreia aconteceu em 1995 e, apesar dessa adversidade, muitas pessoas vieram dar-nos os parabéns pela atuação e pelo nosso som. Houve até algumas entidades que não conseguiram assistir ao concerto, mas que ouviram falar dele e vieram falar connosco para assistir aos ensaios. Mais tarde, estiveram presentes no concerto seguinte. É sinal de que, no meio disto tudo, fizemos alguma coisa bem feita.
O tema “Embracing Solitude” continua a ser uma referência importante na vossa história. O que representa hoje para a banda essa fase inicial?
O tema “Embracing Solitude” é um marco na história da banda e, na nossa opinião, apesar de já ter alguns anos, continua atual e não parece ter a idade que tem.
Temos um enorme orgulho neste trabalho, lançado em 1999, e que nos valeu um contrato discográfico, algo muito gratificante naquela época.
A fase inicial é muito importante para qualquer banda. Trabalhámos imenso nesse período e, apesar de todos os entraves e obstáculos que surgiram pelo caminho, conseguimos sempre encontrar forças para ultrapassar tudo. A prova disso é que ainda cá estamos.
Ao longo dos anos passaram por várias mudanças de formação e períodos de pausa. O que permitiu manter viva a vontade de continuar?
Basicamente, foi a paixão pela música. O “bichinho” está sempre a correr nas veias e, para nós, parar é morrer.
A perda de Paulo Castro foi um momento particularmente difícil. De que forma essa ausência continua presente no percurso dos Carnification?
A morte do Paulo Castro foi o acontecimento mais triste que aconteceu no seio dos Carnification. No entanto, a sua presença continua viva. O seu nome surge frequentemente nas nossas conversas, o que prova que, espiritualmente, continua vivo nos nossos corações e nas nossas mentes.
Era um verdadeiro amigo e um “irmão de armas”. Será para sempre um de nós.
Chegaram a perder um trabalho praticamente concluído. Como foi enfrentar essa situação e encontrar motivação para começar tudo de novo?
Podemos dizer que foi duplamente desmotivante. Primeiro, perdemos um “irmão de armas” e, depois, nunca tivemos acesso ao trabalho que já estava praticamente concluído.
Na altura decidimos fazer uma pausa para assentar ideias. Por vezes, as paragens podem ser benéficas e, pelo menos para nós, foram. Recarregámos baterias e isso permitiu-nos continuar o nosso percurso até estarmos aqui hoje.
Quando decidiram regressar ao estúdio para regravar o material perdido, sentiram que estavam a recuperar o passado ou a construir algo completamente novo?
Depois da longa paragem, voltámos mais fortes. Falámos com o Gualter Couto, que vive em Inglaterra, explicámos aquilo que pretendíamos e perguntámos se estaria disposto a regravar todo o trabalho que já tinha realizado. Aceitou o desafio de imediato.
Depois escolhemos o Stepkeys Studio para gravar com o produtor Stepan Kobyakin.
Regravámos algumas músicas já existentes, mas com novas baterias e teclados. Ao mesmo tempo, surgiram também temas novos ou que nunca tinham sido tocados pela banda, como é o caso de “Cry of the Wind”, que deu origem ao single de apresentação do álbum.
O que podem revelar sobre o novo álbum e quais são as principais diferenças em relação ao material que gravavam nos anos 90?
A versão digital do álbum já foi lançada, faltando apenas a edição física, que estará disponível muito em breve.
Posso dizer que é um álbum bastante equilibrado em termos musicais. Tem partes rápidas, partes mais lentas, agressividade, melodia. Como costumamos dizer, tem todos os ingredientes.
Atualmente somos músicos muito mais experientes do que éramos nos anos 90 e temos muito mais conhecimento musical. Com o passar dos anos fomos aperfeiçoando a nossa técnica. Digamos que é a evolução natural.
Como descreveriam a identidade atual dos Carnification para alguém que nunca ouviu a banda?
Os Carnification são um grupo de amigos de longa data que adora música e que, através dela, demonstra os seus sentimentos, tentando transmitir essas emoções ao público.
Podemos dizer que a música é o nosso escape do dia a dia e que nos transporta para outra dimensão. Tudo à nossa volta desaparece quando estamos focados nela.
Musicalmente, somos uma banda de death metal melódico. Se as pessoas vão gostar ou não do nosso som, isso dependerá sempre do gosto musical de cada um.
Depois de tantos anos ligados ao death metal, como veem a evolução da cena extrema portuguesa?
Penso que o metal em Portugal tem evoluído de forma muito positiva. Temos bandas com muita qualidade e estilos bastante diversificados. Falta apenas aquele clique para dar o salto e atingir outros patamares.
Que importância teve a colaboração com Stepan Kobyakin na concretização deste novo trabalho?
O Stepan foi como um sexto elemento da banda. Para além de ter sido o produtor do álbum, gravou também os teclados, fotografou os elementos da banda para o booklet e trabalhou em todo o artwork do trabalho.
Foi, sem dúvida, uma peça fundamental em todo o processo. Sem ele nesta equação, o resultado final teria sido diferente.
Com um álbum pronto a chegar e novas músicas já em desenvolvimento, que objetivos gostariam de alcançar nos próximos anos?
O nosso principal objetivo passa por levar os nomes Carnification e Açores o mais longe possível.
Queremos regressar ao estúdio para gravar um novo trabalho. Vamos avaliar as hipóteses que temos e, depois, perceber quando essa nova etapa poderá concretizar-se.




