Birds Are Indie: “O processo de fazer música juntos continua a entusiasmar-nos”

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Os Birds Are Indie regressam com um novo desafio criativo. Depois de Ones & Zeros, um álbum que refletia sobre as inquietações do mundo contemporâneo, o trio de Coimbra prepara a edição de The Stone of Madness, um disco que troca o olhar sobre o coletivo por uma exploração mais profunda da mente, das emoções e dos conflitos interiores.

O primeiro avanço chama-se “Not Today” e abre caminho para aquele que será o sétimo álbum de estúdio da banda. A nova canção confirma a vontade de continuar a evoluir sem perder a identidade que os tornou uma das referências da música independente portuguesa.

Nesta entrevista ao Música Total, os Birds Are Indie fazem uma viagem pelo seu percurso, recordam o nascimento da banda, refletem sobre a evolução da sua escrita, explicam o conceito do novo álbum, revelam a importância da independência criativa e falam dos concertos que vão marcar esta nova fase. Uma conversa sincera sobre o passado, o presente e aquilo que ainda está para acontecer.

 

 

 

Olhando para o início do projeto em Coimbra, quais foram os momentos ou decisões que mais marcaram o nascimento dos Birds Are Indie?

O momento que estávamos a viver quando formámos a banda, curiosamente, não era o melhor. Andávamos um pouco desiludidos com algumas coisas, estávamos até a ponderar ir viver ou trabalhar para o estrangeiro. Mas, ainda assim, ao mesmo tempo, tínhamos razões para ficar. Foi nessa altura que, vinda do nada, surgiu uma canção que compusemos com uma guitarra velha, lá em casa. Como fazer essa canção nos ajudou a pensar nas coisas boas e a ter uma certa perseverança, seguiram-se rapidamente outras. Decidimos formar uma banda e, também por isso, ficar em Portugal.

Ao longo da vossa discografia, o que sentem que mudou mais na forma como escrevem e pensam as canções?

As nossas primeiras canções eram extremamente ingénuas. Não há mal nenhum nisso. Houve muita gente que lhes reconheceu um encanto próprio. Mas eram assim porque nós, apesar de já termos 30 anos, não tínhamos experiência a compor, a gravar ou a tocar ao vivo. Com o passar dos anos, dos discos e dos concertos, fomos aprendendo à frente de toda a gente. Ganhámos confiança, descobrimos em nós capacidades que não sabíamos ter e fomos aprendendo a tocar instrumentos novos. Foi isso que nos fez mudar ou, se quiserem, evoluir.

O percurso da banda tem sido muito ligado ao circuito independente português. Que aprendizagens ficaram desses primeiros anos a tocar em salas pequenas e festivais alternativos?

Tirando algumas exceções, nós não saímos muito desse circuito independente ou alternativo. Gostamos muito dele e esperamos que não desapareça tão cedo. Apesar de muita gente nos conhecer e de passarmos na rádio, nunca fomos uma banda de massas nem tivemos um “pico” estranho de popularidade, que muitas vezes é passageiro ou até negativo. Nesses espaços e festivais mais pequenos, bem como com as pessoas que os tornam realidade, aprendemos a respeitar esse trabalho invisível e, por vezes, pouco valorizado: o de manter o tecido musical e cultural ativo e vibrante, à margem dos megaeventos, das ativações de marca e da contagem cega de streams e visualizações. O “do it yourself” não tem de ser apenas uma necessidade quando as portas se fecham. Pode também ser um manifesto pessoal ou de uma determinada comunidade.

O álbum Ones & Zeros olhava muito para o mundo exterior e para as fraturas do presente. Que reflexões ficaram desse período criativo?

Essas reflexões e essas referências, três anos depois, mantêm-se ou, em certa medida, agravaram-se. Isso mostra que eram pertinentes na altura. A possibilidade de um grupo muito reduzido de pessoas multimilionárias e sem escrúpulos ter capacidade para influenciar o destino de toda a humanidade é revoltante. E, com uma tecnologia tão impactante como a inteligência artificial à disposição dessas mesmas pessoas, tudo se torna ainda mais assustador.

Com The Stone of Madness parece haver uma viragem para um território mais interior e psicológico. Em que momento perceberam que queriam explorar esse caminho?

Quando começámos a pensar neste disco, achámos que seria interessante torná-lo uma espécie de irmão siamês do anterior, Ones & Zeros. Mas, apesar dessa interdependência a vários níveis, queríamos também explorar novos sons e novos temas. Depois de um álbum que olhava para o coletivo, para aquilo que é a experiência de estarmos todos, enquanto humanidade, a viver um mesmo destino, algo que a pandemia de Covid-19 evidenciou bem, optámos por pensar The Stone of Madness numa lógica mais individual e mental.

O novo single “Not Today” fala de adiamento e tensão interior. De onde nasceu esta canção e como evoluiu até à versão final?

A canção nasceu de um sentimento de frustração provocado por esse adiamento constante. Da ideia de que nos estão sempre a ser prometidas coisas que depois não se cumprem, possibilidades que desaparecem e sonhos que se esgotam. Assim, “Not Today” surge como uma espécie de catarse ritmada.

A interpretação vocal da Joana Corker tem um papel muito forte nesta faixa. Como foi o processo de levar para estúdio a intensidade construída em palco?

Antes de gravarmos “Not Today”, ainda a tocámos algumas vezes ao vivo e isso foi muito importante para a performance da banda em estúdio, nomeadamente para transmitir o sentimento de urgência e desespero presente na voz da Joana. Queríamos abrir o disco com essa sensação de estar no limite, para depois perceber o que vem a seguir.

O videoclipe de “Not Today” faz parte de um tríptico visual ligado ao álbum. Que papel tem a imagem na construção do universo dos Birds Are Indie?

Com o disco anterior, que foi um álbum conceptual, percebemos a vontade que tínhamos de transformar os videoclipes numa camada complementar ao álbum como um todo, e não apenas numa ilustração de um single isolado. Foi isso que fizemos agora com The Stone of Madness. Não através de um vídeo-álbum com dez canções, como aconteceu em Ones & Zeros, mas com três vídeos que funcionam como um tríptico narrativo e que, de alguma forma, tocam em todos os temas do disco.

Mantêm há muitos anos um controlo criativo muito direto sobre música, imagem e narrativa. O que é que essa autonomia vos permite fazer que seria impossível noutro contexto?

Nunca vivemos outro contexto que não fosse tratarmos nós de quase tudo, embora sempre com a colaboração de pessoas que, ao longo dos anos, nos foram ajudando em estúdio, nas fotografias e nos vídeos. Mesmo assim, a última palavra é sempre nossa e o motor criativo parte sempre de nós. Isso acontece também na imagem, onde somos nós que definimos os ambientes, os guiões e os storyboards. Esta é mais uma forma de sermos criativos, que é aquilo de que mais gostamos, além da música, que continua a ser a faísca inicial.

A digressão de apresentação do disco passa por várias cidades do país. O que é que o público pode esperar destes novos concertos?

Ao vivo vamos tocar grande parte do disco novo, num alinhamento que intercala essas canções com músicas de discos anteriores. Além disso, podem contar com três pessoas a libertar uma energia e um à-vontade que nunca estiveram tão em alta. O que esperamos é que o público se junte a nós nessa catarse, nessa intensidade, mas também nos sorrisos e na dança.

Depois de sete discos, o que ainda vos entusiasma mais no processo de fazer música juntos?

O que nos entusiasma, desde o início, é precisamente isso que está na pergunta: o processo de fazer música juntos. E sete discos ainda não chegaram para nos cansarmos.

Quando olham para o futuro dos Birds Are Indie, que territórios ou ideias ainda gostariam de explorar nos próximos anos?

Em termos de projetos para o futuro, temos um espetáculo que vamos estrear no final de 2027, na sequência de algumas residências artísticas. Ainda não podemos revelar muito sobre isso. Mas, antes, temos muitos concertos para dar, muitas cidades para conhecer e muita gente para reencontrar, tanto em Portugal como em Espanha. The Stone of Madness é mais um pretexto para nos voltarmos a encontrar por aí.

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