Durante muito tempo dizia-se que nascer nos Açores era partir atrás na corrida. A distância do continente, os custos das deslocações e a falta de oportunidades pareciam criar um teto difícil de ultrapassar.
Hoje já não é bem assim.

Os Açores continuam longe no mapa, mas estão muito mais perto dos ouvidos de quem procura música nova. Há uma geração de artistas que escreve, grava, produz e sobe aos palcos sem esconder de onde vem. Pelo contrário. As ilhas deixaram de ser um obstáculo e passaram a fazer parte da identidade de cada projeto.
Não existe um único som açoriano. Existem várias formas de contar a mesma história.
Romeu Bairos
Se há um artista que conseguiu transformar as raízes açorianas numa assinatura muito própria, esse artista é Romeu Bairos.
Natural das Furnas, em São Miguel, constrói canções onde a tradição popular convive com uma linguagem contemporânea. Em vez de esconder o sotaque ou as referências às ilhas, faz delas o centro da sua música. O álbum Romê das Furnas mostrou precisamente isso e confirmou-o como um dos nomes mais originais da música portuguesa atual.
Cristóvam
A música de Cristóvam parece feita para viajar.
Natural da Terceira, começou por dar nas vistas com os October Flight, mas foi a solo que encontrou uma voz muito pessoal. Mistura folk, americana e canção de autor numa escrita simples, emocional e elegante. O sucesso de “Andrà Tutto Bene” levou-o muito para lá dos Açores e continua a abrir-lhe portas em Portugal e no estrangeiro.
Sara Cruz
Há artistas que impressionam pela força da voz. Sara Cruz conquista pela forma como escreve.
A cantora micaelense mistura folk, pop e indie num registo intimista, onde cada canção parece nascer de pequenas histórias do quotidiano. Depois do álbum Fourteen Forty-Five, continua a afirmar-se como uma das compositoras mais interessantes da sua geração, acumulando concertos, distinções e novos públicos fora do arquipélago.
WE SEA
Os WE SEA representam outra face da música açoriana.
A banda aposta num indie pop luminoso, moderno e internacional, sem perder a personalidade. As melodias são imediatas, mas existe sempre um cuidado especial com a construção das canções. É um daqueles projetos que podia ter nascido em qualquer cidade europeia, mas nasceu em São Miguel.
Samuel Pacheco
Muitos conheceram Samuel Pacheco através da televisão, mas o seu percurso vai muito além desse momento.
Pianista, cantor e compositor, tem vindo a construir um caminho próprio, apostando em interpretações emotivas e numa escrita cada vez mais madura. É um nome que merece ser acompanhado com atenção nos próximos anos.
KAKERLAKK
Enquanto muitos procuram seguir fórmulas já conhecidas, os KAKERLAKK preferem experimentar.
O projeto cruza eletrónica, rock e sonoridades alternativas, mostrando que a criatividade açoriana também passa pela inovação e pela vontade de arriscar. É um dos exemplos de como a nova geração não tem receio de explorar caminhos diferentes.
Muito mais do que uma nova geração
Falar destes artistas é apenas abrir uma porta.
Continuam a surgir bandas, produtores, compositores e projetos independentes nas nove ilhas. Alguns começam agora a dar os primeiros passos. Outros já percorrem festivais nacionais e internacionais. Todos ajudam a construir uma imagem diferente da música açoriana.
Durante anos, os Açores eram vistos sobretudo como um lugar onde se organizavam bons festivais. Hoje, começam também a ser reconhecidos como um território onde nascem artistas capazes de competir com qualquer nome da música portuguesa.
Talvez essa seja a maior mudança.
Já não se olha para um músico açoriano como uma curiosidade regional. Olha-se para um artista. E isso diz muito sobre o momento que a música produzida nas ilhas está a viver.



