Entre ruas apertadas, quarteirões irregulares e fachadas que acumulam décadas, o espaço urbano raramente é neutro. Ele respira, impõe ritmos, cria fricções.
É nesse território concreto e simbólico que o arquiteto e ensaísta José António Bandeirinha mergulha para pensar a cidade como corpo exposto, vulnerável e cheio de cicatrizes.
Publicado pela Tinta-da-China, este ensaio não se limita a observar a malha urbana. Interroga-a. Questiona o modo como construímos, habitamos e transformamos os lugares onde vivemos. A cidade deixa de ser pano de fundo e passa a ser protagonista, quase pele sensível onde se inscrevem decisões políticas, económicas e culturais.
A cidade como organismo vivo
O título não é gratuito. Ao associar a cidade a um corpo nu, Bandeirinha convida-nos a olhar para o espaço urbano sem maquilhagem. Sem discursos promocionais. Sem a retórica habitual do progresso inevitável.
A nudez aqui é exposição. É fragilidade, mas também verdade. Ao despir a cidade das camadas de propaganda e dos clichés urbanísticos, o autor revela as tensões internas que estruturam o território: desigualdades, conflitos de memória, disputas pelo espaço público. Cada rua torna-se sintoma de algo maior.
Ensaio, não manual
Este livro não é um guia técnico de arquitetura nem um compêndio académico fechado sobre si mesmo. É um ensaio no sentido mais livre da palavra. Um pensamento em movimento, que cruza história, teoria e observação concreta.
A escrita alterna entre reflexão crítica e imagens mentais muito claras do tecido urbano português. Sente-se a experiência de quem conhece profundamente as cidades, mas também a inquietação de quem não aceita respostas fáceis. A cidade é analisada como construção cultural, resultado de escolhas acumuladas e, muitas vezes, pouco questionadas.
Entre memória e transformação
Um dos eixos centrais do livro é a relação entre passado e presente. As cidades carregam memórias materiais: traçados antigos, edifícios reaproveitados, cicatrizes de demolições. Mas carregam também esquecimentos deliberados.
Bandeirinha sugere que cada intervenção urbana é uma tomada de posição. Conservar, destruir, reabilitar, expandir. Nada é neutro. O corpo da cidade muda com cada gesto. E, como qualquer corpo, guarda marcas que contam histórias, mesmo quando preferimos não as ouvir.
Pensar o espaço como responsabilidade
Ler este ensaio é aceitar um convite exigente. Obriga a olhar para o lugar onde vivemos com outro grau de atenção. A perguntar quem decide. Quem ganha. Quem fica de fora.
Ao recusar simplificações, o autor coloca a arquitetura no centro do debate cívico. Não como disciplina isolada, mas como prática que molda a experiência coletiva. A cidade deixa de ser cenário e passa a ser questão ética.
No fim, permanece uma sensação clara: caminhar por uma rua depois desta leitura já não é o mesmo gesto automático. O chão parece mais denso. As paredes mais carregadas de significado. E a cidade, exposta como um corpo, continua ali, à espera de ser tocada com mais consciência.

