Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026
LIVROS

“A história do contador de histórias”: quando uma cabine telefónica faz nascer um leitor

Por Jorge Silva Medeiros 10 Set 2026

Miyase Sertbarut chega a Portugal com uma história juvenil que parte de uma ideia simples e eficaz: um rapaz que detesta ler encontra numa velha cabine telefónica a voz que pode mudar a sua relação com os livros.

Há uma ironia interessante no centro de “A história do contador de histórias”. O protagonista não começa por encontrar um livro que o fascine. Encontra uma voz.

Ílhami é um rapaz que não gosta de ler e que se vê confrontado com uma nova exigência da professora: todas as semanas, terá de ler uma história. O problema parece simples, mas para quem não encontra qualquer prazer nos livros, a obrigação rapidamente se transforma num obstáculo.

Depois da desmontagem de um circo, Ílhami descobre uma antiga cabine telefónica vermelha abandonada num parque. Pega no auscultador e ouve uma voz misteriosa que começa a contar-lhe histórias. É nesse momento que a relação do rapaz com a leitura começa a mudar.

Publicada em Portugal pela Porto Editora em junho de 2026, a obra de Miyase Sertbarut tem 128 páginas e é apresentada como literatura juvenil.

A história começa antes do livro

O aspecto mais interessante da premissa está precisamente aqui: Sertbarut não começa pela leitura, começa pela curiosidade.

Ílhami precisa de contar histórias na escola, mas não tem vontade de as procurar nos livros. A cabine telefónica resolve inicialmente esse problema de uma forma quase mágica. Há uma voz do outro lado da linha e há histórias que podem ser levadas para a sala de aula.

Mas a narrativa ganha outra dimensão quando a curiosidade deixa de estar ligada apenas à necessidade de cumprir uma tarefa.

A questão passa a ser saber quem está do outro lado.

É esse mistério que pode transformar uma obrigação numa descoberta. A cabine funciona, assim, como uma espécie de ponte entre dois mundos: de um lado está a resistência de uma criança perante o livro; do outro está o prazer de ouvir uma boa história.

E é aqui que a obra encontra o seu melhor argumento.

Para criar um leitor, talvez seja mais eficaz despertar primeiro a vontade de saber o que acontece a seguir.

Uma cabine telefónica entre o passado e o presente

A escolha da cabine telefónica também não é um simples elemento decorativo.

É um objeto associado a uma tecnologia que perdeu espaço no quotidiano, mas que, dentro da história, recupera uma função inesperada. O telefone torna-se o instrumento através do qual Ílhami entra em contacto com histórias.

A obra cruza dessa forma um objeto tradicional com uma experiência narrativa ligada à tecnologia. A própria sinopse da edição portuguesa destaca essa combinação entre o tradicional e o digital, juntamente com o mistério, a imaginação e o prazer da leitura.

Essa escolha dá ao livro uma camada particularmente interessante para os leitores mais jovens.

A tecnologia não aparece simplesmente como inimiga dos livros. Pelo contrário, é precisamente através de um dispositivo tecnológico que Ílhami começa a aproximar-se das histórias.

A oposição deixa de ser telefone contra livro.

Passa a ser indiferença contra curiosidade.

E essa é uma diferença importante.

Quando a obrigação deixa de funcionar

A professora acredita que Ílhami precisa de ler. Ílhami acredita que não gosta de ler. A cabine telefónica introduz uma terceira possibilidade: talvez ele ainda não tenha encontrado uma história capaz de lhe despertar interesse.

É uma distinção pequena, mas fundamental.

“A história do contador de histórias” pode ser lido como uma aventura juvenil sobre uma voz misteriosa, mas também como uma reflexão sobre a forma como nasce o gosto pela leitura.

Não através de uma imposição.

Não através de uma lista de livros obrigatórios.

Mas através de uma pergunta.

Quem está a contar estas histórias?

A partir dessa pergunta, Ílhami começa a querer saber mais. E quando um leitor começa a querer saber mais, o livro deixa de ser apenas um objeto que é preciso abrir. Passa a ser um lugar onde a resposta pode estar.

É nesta transformação que a proposta de Miyase Sertbarut ganha força.

Miyase Sertbarut chega a Portugal

Miyase Sertbarut nasceu em Ceyhan, na Turquia, em 1963. Estudou Língua e Literatura Turcas na Universidade de Gazi e começou por escrever peças radiofónicas antes de se dedicar também aos contos e romances. A edição portuguesa apresenta-a como uma das autoras turcas de maior destaque na literatura contemporânea para jovens.

“A história do contador de histórias” chega agora aos leitores portugueses depois de ter sido originalmente publicada na Turquia com o título “Yuan Huan’ın Kulübesi”, em 2019.

A edição portuguesa mantém no centro a ideia que sustenta toda a narrativa: uma criança que não encontra prazer na leitura pode precisar, antes de tudo, de encontrar uma história que lhe desperte vontade de continuar.

E talvez seja precisamente aí que o livro ultrapassa a sua premissa fantástica.

Porque uma cabine telefónica misteriosa pode ser ficção.

Mas a pergunta que coloca é bem real:

E se uma criança não detestar ler? E se simplesmente ainda não tiver encontrado a história certa?

Ficha do livro

Título: A história do contador de histórias
Autora: Miyase Sertbarut
Editora: Porto Editora
Edição portuguesa: junho de 2026
Páginas: 128
ISBN: 9789720732279
Género: Literatura juvenil

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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