O mercado português de música gravada cresceu 8,2% em 2025, mais 3,1 pontos percentuais do que a média da União Europeia. O resultado confirma a expansão do setor, mas também coloca uma questão: como transformar este crescimento em maior valor para os artistas portugueses?
Portugal fechou 2025 com um crescimento de 8,2% nas receitas de música gravada. O valor está acima dos 5,1% registados no conjunto da União Europeia e coloca o mercado português numa trajetória particularmente positiva num setor que continua a ser transformado pelo streaming.
Os números fazem parte do relatório Music in the EU 2026, da International Federation of the Phonographic Industry, IFPI, que aponta para receitas de 6 mil milhões de euros no mercado europeu de música gravada em 2025. A Europa representa atualmente 21,3% das receitas mundiais do setor e nove dos vinte maiores mercados globais estão no espaço europeu.
A diferença entre Portugal e a média europeia é significativa. Não se trata apenas de um mercado que cresceu, mas de um mercado que avançou a um ritmo superior ao de uma região que, no seu conjunto, também continua a crescer.
Para Miguel Carretas, Diretor Delegado da Audiogest, o resultado demonstra a dinâmica da indústria portuguesa e reforça a importância de criar condições para o investimento, o desenvolvimento de artistas e a valorização da música gravada.
A declaração traduz a leitura institucional dos números, mas os dados permitem colocar uma questão mais ampla: o crescimento das receitas está a criar uma indústria portuguesa mais forte ou está sobretudo a acompanhar a transformação global do consumo musical?
O streaming ainda tem espaço para crescer
A resposta passa inevitavelmente pelo streaming.
Na Europa, os serviços de streaming representaram cerca de 66% das receitas de música gravada em 2025. A mudança do consumo físico para o digital já não é uma novidade, mas continua a ser o principal motor económico do setor.
E existe ainda margem significativa para expansão.
A penetração de subscrições de streaming pago na União Europeia situou-se nos 27%. Nos Estados Unidos chegou aos 54% e no Reino Unido aos 47%.
A diferença mostra que o crescimento europeu ainda não atingiu um possível limite de maturidade. Há consumidores que já ouvem música através de plataformas digitais, mas que continuam fora dos modelos de subscrição paga.
Para Portugal, esta realidade é particularmente relevante. Um mercado que cresce 8,2% pode continuar a crescer se conseguir aumentar o valor gerado por cada consumidor e converter uma maior parte do consumo digital em receitas sustentáveis para a indústria.
É aqui que os números deixam de ser apenas um indicador económico e passam a revelar uma oportunidade.
Mais música nacional nos tops, mas o indicador exige cautela
O relatório apresenta também um dado interessante sobre o repertório nacional.
Em média, 53,5% das faixas presentes nos Top 10 anuais de cada país da União Europeia foram interpretadas por artistas nacionais. Outros 5,2% corresponderam a artistas de outros países europeus.
O número mostra a capacidade dos mercados nacionais para manter artistas locais entre os títulos de maior sucesso. Mas não deve ser confundido com uma percentagem de consumo total de música nacional.
Trata-se especificamente da composição dos Top 10 anuais de cada país.
A distinção é importante. Ter artistas nacionais entre os temas mais populares é um indicador relevante de presença cultural e competitividade, mas não responde sozinho à questão de quanto valor económico a música nacional consegue gerar dentro e fora do seu próprio mercado.
No caso português, essa questão ganha ainda maior importância quando se pensa para além do consumo interno.
Crescer no mercado nacional é uma coisa. Conseguir transformar esse crescimento em carreiras sustentáveis e em maior circulação internacional de artistas portugueses é outra.
O investimento será a verdadeira prova
A indústria discográfica investiu mundialmente o equivalente a 8,3 mil milhões de euros em A&R e marketing durante 2025, segundo os dados apresentados pela IFPI.
O valor ajuda a explicar uma das características menos visíveis da economia da música: antes de existir um sucesso, existe investimento em artistas, repertório, produção, desenvolvimento e promoção.
É também por isso que o crescimento das receitas importa.
Mais receitas podem significar maior capacidade de investimento. Mais investimento pode significar mais artistas desenvolvidos, mais repertório produzido e maior possibilidade de construir carreiras com duração para além de um único lançamento.
Mas essa cadeia não acontece automaticamente.
Portugal terá de transformar o crescimento do mercado em capacidade real de desenvolvimento artístico. E isso passa por uma combinação de consumo, investimento, profissionalização e internacionalização.
Os 8,2% são, por isso, uma boa notícia para a indústria portuguesa. Mas talvez sejam mais interessantes como ponto de partida do que como ponto de chegada.
O mercado português está a crescer acima da média europeia. O próximo desafio é perceber se esse crescimento consegue chegar aos artistas, reforçar o investimento e aumentar a presença da música portuguesa fora do país.
Porque um mercado musical saudável não se mede apenas pelo dinheiro que gera. Mede-se também pela capacidade de transformar esse dinheiro em mais música, mais artistas e carreiras capazes de durar.
