“A Maré não é apenas um festival, é uma experiência”: Rui Parece conta o segredo de 42 anos de sucesso

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Há 42 anos que a Baía da Praia Formosa, em Santa Maria, se transforma, todos os meses de agosto, num dos palcos mais singulares dos Açores. O Festival Maré de Agosto, pioneiro na região e hoje reconhecido como um verdadeiro embaixador cultural açoriano, prepara-se para receber, entre os dias 19 e 22 de agosto, mais uma edição repleta de novidades. Este ano, a grande aposta passa por uma parceria inédita com a Moby Dick Tours, que vai permitir a festivaleiros de  chegarem a Santa Maria de barco, numa viagem que promete ser, ela própria, uma experiência atlântica. Falámos com Rui Parece, membro da direção da Associação Cultural Maré de Agosto, sobre esta e outras novidades da 42.ª edição, sobre a essência que tem mantido o festival vivo ao longo de mais de quatro décadas e sobre os desafios que se colocam à sua continuidade.

 

O Festival Maré de Agosto chega à sua 42.ª edição. Como é que um festival consegue manter-se relevante durante mais de quatro décadas?

R: O Festival Maré de Agosto, já um ícone no panorama cultural dos Açores, mantém-se relevante ao longo destes 42 anos, acima de tudo, pelo gosto e persistência dos marienses, mas também pelo esforço de todas as direções que, ao longo dos anos, passaram pela Maré e trabalharam para manter um evento que consideramos de máxima relevância cultural, turística, social e económica, não só para Santa Maria, mas também para os Açores. Cada ano que passa temos mais consciência da sua importância. O Festival Maré de Agosto chega a esta longevidade sobretudo por nunca ter perdido o seu foco e, sobretudo, a sua essência. Desde o seu início, fomos pioneiros em diversas áreas e trabalhamos diariamente para o continuar a ser. O seu rumo está traçado há 42 anos.

A Maré não é mais um festival. A Maré é um festival diferenciado pelas experiências vividas por quem assiste, onde se pode sempre contar, com confiança, que o que se vai viver será certamente diferente. Identificamo-nos como um festival de world music.

A parceria com a Moby Dick Tours introduz uma viagem de barco até Santa Maria. Como nasceu esta ideia e qual foi o principal objetivo desta iniciativa?

R: Esta parceria resulta de uma conversa que o Hernâni Sousa, membro diretivo, teve com um amigo, que lhe deu a conhecer a vinda para São Miguel de um barco de uma empresa marítima turística de São Miguel. Rapidamente percebemos que isso poderia ser uma oportunidade para trazer mais gente ao festival deste ano e, além disso, retomar aquilo que consideramos ter feito história na Maré: vir de barco a Santa Maria e ao festival.

Contactámos os proprietários, explicámos a nossa intenção e pretensão, que foi prontamente acolhida. Da ideia à concretização foi apenas afinar a parceria, já consolidada e disponível em www.mobydick-tours.com, com venda da viagem a Santa Maria já com o ingresso do festival incluído.

Deixo um agradecimento especial ao Leonardo e ao seu pai, José Fernando, da Moby Dick Tours, pela coragem, entusiasmo e empenho neste projeto, e por terem confiado em nós.

Considero que, mais uma vez, a Maré de Agosto deu um passo pioneiro na solução para trazer mais gente a Santa Maria. Sentimos que esta novidade deste ano foi bem acolhida, não só pelos festivaleiros, que poderão vir a Santa Maria e ao festival por apenas 90 euros, mas também pela nossa comunidade local. A Associação Cultural Maré de Agosto tem plena consciência da sua importância económica, turística e cultural em Santa Maria, e fá-lo sempre de forma desprendida, pelo amor à sua ilha.

A organização refere que esta não é apenas uma viagem, mas uma verdadeira experiência atlântica. O que podem os participantes esperar durante o percurso?

R: Tal como temos vindo a divulgar, esta será mais do que uma viagem para chegar a Santa Maria. Será sim uma vivência de cruzar o mar com amigos rumo a um festival e, pela experiência da empresa Moby Dick Tours, os participantes poderão, durante o percurso, observar a vida marinha tão abundante nos nossos mares. Pelas características da embarcação, queremos que estas viagens perdurem na memória de quem embarcar nesta aventura. Queremos proporcionar uma experiência diferente, tal como provavelmente já ouviram nas histórias dos seus pais, que fizeram o mesmo.

A Maré é mais do que apenas um festival: queremos criar memórias.

De que forma esta iniciativa reforça a missão do festival de aproximar pessoas, culturas e ilhas através da música?

R: Reforça, desde já, ao trazer mais gente a Santa Maria e ao festival, que é o nosso foco. Depois, dá oportunidade a que os festivaleiros da ilha vizinha de São Miguel tenham mais esta alternativa, mais económica, para virem assistir ao festival e, assim, poderem desfrutar de um festival diferenciado, como já os habituámos, sempre com um cartaz cultural diferente daquilo que se faz nos Açores. Mas, sobretudo, proporciona ao nosso público a possibilidade de ouvir e assistir a sonoridades do mundo. Este tem sido sempre o foco do Festival Maré de Agosto.

Acreditam que esta experiência poderá tornar-se uma aposta regular nas próximas edições do Maré de Agosto?

R: Acreditamos que sim. Este foi o primeiro passo: a primeira experiência da própria associação a trabalhar para trazer mais gente ao seu festival. Julgamos que será uma boa experiência e, quem sabe, poderá abrir horizontes a quem de direito para fazer o mesmo.

Temos muito orgulho neste nosso trabalho de criar um transporte marítimo “de festivaleiros”. Mais uma vez, a Maré de Agosto é pioneira nisso, e são estes desafios que nos dão alento diariamente para fazer sempre mais e melhor, não só pelo festival, mas por Santa Maria.

Que impacto esperam que esta parceria tenha na promoção da ilha de Santa Maria como destino cultural e turístico?

R: Desde já, trazer mais gente a Santa Maria. O destino Santa Maria sempre foi apetecível no panorama regional pelas suas praias, as melhores dos Açores, pelos seus festivais, pelas suas festas do Espírito Santo, pelas paisagens, pelos seus trilhos, pelos seus fósseis, pelas suas atividades subaquáticas, mas sobretudo pela hospitalidade dos marienses em saber receber.

Somos um povo que, há mais de 80 anos, se habituou a receber gente de todas as partes do mundo, desde a instalação da base militar americana até ao seu aeroporto internacional, que diariamente recebia gente de todo o mundo. Isso fez com que os marienses soubessem sempre receber bem e dar o melhor de si e da sua ilha. E nós, na Maré de Agosto, teimosamente e contra tudo e todos, tentamos fazer a nossa parte, contribuindo este ano com essa parceria.

O cartaz deste ano reúne artistas de diferentes geografias e estilos musicais. Que critérios orientam a escolha dos nomes que integram o festival?

R: O cartaz da Maré de Agosto não tem fugido muito daquilo que sempre foi o foco e a essência do festival. Tentamos sempre trazer artistas de qualidade, vindos de diversos pontos do globo, para proporcionar ao nosso público a possibilidade de ouvir bandas e sons que, de forma voluntária, não se deslocariam até fora da região. Temos consciência de que esta é a nossa missão: oferecer cultura de outras paragens.

Temos sempre o cuidado de incluir um ou outro artista mais conhecido, internacional, nacional ou açoriano, também como forma apelativa de trazer mais gente, mas sem nunca perder o nosso rumo. Não somos, nem queremos ser, um festival comercial — para isso existem outros na região que o fazem. Queremos ser apenas o Festival Maré de Agosto, que, ao longo de 41 anos, já habituou o seu público a vir a Santa Maria ouvir e assistir a coisas diferenciadas. Muitas vezes ouvimos o nosso público dizer que vem mesmo sem conhecer as bandas, porque, ao longo de todos estes anos, apresentámos qualidade — e esse sentimento acresce-nos maior responsabilidade anual na escolha dos artistas. Estamos convictos de que este ano não vos iremos desiludir. O cartaz foi escolhido sempre a pensar numa experiência diferente.

Para complementar o cartaz, oferecemos sempre a garantia de um festival num recinto muito agradável e seguro, com uma paisagem única: um palco a 50 metros da melhor praia de areias brancas dos Açores. Até para os artistas é um cenário único!

Quais são as principais novidades que o público encontrará nesta 42.ª edição, para além da viagem de barco?

R: Além do transporte de barco, esta sim a grande novidade, este ano, tal como no ano passado, voltamos a ter o Palco Terra. Foi uma excelente experiência na 41.ª edição, e este ano voltamos a realizá-la. Desta vez, no Miradouro da Macela, que pensamos ser um dos melhores cenários da Maré de todos os tempos, por ser um miradouro sobre a Baía da Praia Formosa, num espaço idílico que estamos a preparar para que perdure, por muitos anos, na memória de quem lá for. Este palco será em formato sunset, no dia 19 de agosto.

Este ano voltamos a ter quatro dias de festival, de 19 a 22 de agosto. Podemos garantir que as entradas e saídas do recinto serão permitidas, além de uma oferta de artigos de merchandise da 42.ª edição do festival, bem como segurança e bem-estar dentro do recinto.

Orgulhamo-nos por, ao longo destes 41 anos, não termos registo de ocorrências a nível de segurança, até porque trabalhamos muito a sério nesse aspeto, por este ser um festival familiar, onde se podem ver avós a cuidar dos netos de tenra idade para que os pais possam estar na frente a desfrutar do festival. Isso é, sem dúvida, o que nos diferencia e nos orgulha.

O Festival Maré de Agosto é reconhecido pelo ambiente intimista e pela forte ligação à natureza. Como conseguem preservar essa identidade ao longo dos anos?

R: O festival ocorre no mesmo recinto há 41 anos. A sua configuração foi renovada há mais de 30 anos, mas com melhorias. É um anfiteatro natural, onde não temos grandes estruturas fixas, inserido numa paisagem natural, verde, junto ao mar. Julgamos ter todas as condições e qualidade para receber quem nos visita. Temos uma infraestrutura sanitária ótima, que consideramos essencial para um evento desta natureza, além de termos melhorado, há alguns anos, o piso frente ao palco, para proporcionar mais conforto aos festivaleiros.

Temos um bar que é mais do que um bar! É, na verdade, um ponto de encontro de amigos, onde a simpatia e a alegria festiva dos nossos voluntários fazem parte da nossa identidade de bem receber no festival. É um festival onde os artistas se misturam com o público, num ambiente descontraído e festivo. A nossa ligação à natureza não poderia ser melhor, quando temos um palco em cima da praia! Temos montanha e verde em frente ao palco. O que poderíamos querer mais?

Qual tem sido o papel do festival na afirmação cultural dos Açores e na projeção da música produzida dentro e fora da região?

R: A Maré de Agosto conta já com 41 edições, e isso, por si só, já revela a consolidação de um festival bem firmado no panorama cultural dos Açores e nacional.

Durante muitos anos fomos o único festival de música nos Açores, trazendo sons dos quatro cantos do mundo. Isso sempre foi uma premissa que ainda hoje perdura. Em mais de quatro décadas de história, a Maré de Agosto já recebeu mais de 350 artistas, representando mais de 40 países, ao longo da sua história na mítica Baía da Praia Formosa — artistas e projetos musicais oriundos de vários pontos do mundo, somando mais de 2.000 músicos. Com estes números, é bem claro que levamos o nome de Santa Maria e dos Açores além-fronteiras, e essa é também a nossa missão. Hoje, a Maré de Agosto é, sem dúvida, conhecida no mundo dos festivais, a nível nacional e internacional. Sentimo-lo anualmente aquando das contratações dos artistas.

Para quem está, neste momento, a gerir os destinos da Associação Cultural Maré de Agosto, e para todos os que por cá passaram, é, sem dúvida, um sentimento de motivação, orgulho e dever cumprido saber que, numa ilha pequena no meio do Atlântico, se consegue realizar um evento desta natureza com qualidade, levando o nome dos Açores pelo mundo fora. Considero que o Festival Maré de Agosto é, sem dúvida, um embaixador dos Açores no mundo!

Que mensagem gostariam de deixar às pessoas que ainda nunca viveram um Festival Maré de Agosto e estão a pensar estrear-se este ano?

R: A mensagem que deixamos a quem ainda nunca viveu uma Maré de Agosto é simples: venham sem expectativas… porque a Maré não é apenas um festival, é uma experiência.

É chegar a Santa Maria, sentir o Atlântico, ouvir música de diferentes partes do mundo a poucos metros do mar, conhecer pessoas, criar memórias e perceber por que há quem volte ano após ano.

A Maré de Agosto tem uma magia própria. Tem o seu “spirit”, tão bem caracterizado pelo Antoine de Laborde. Não é só o palco, não são só os artistas: é o ambiente, a ilha, a partilha, a liberdade e aquela sensação de que, durante aqueles dias, a Praia Formosa se transforma num lugar onde todos pertencem.

Para quem vem pela primeira vez, o nosso convite é: tragam vontade de descobrir, deixem-se surpreender e preparem-se para viver algo que dificilmente se explica — tem de ser vivido. Porque a Maré de Agosto não é apenas um festival que se vê. É um festival que se sente.

Olhando para o futuro, qual é a visão da organização para os próximos anos do Festival Maré de Agosto e que desafios consideram mais importantes para garantir a continuidade deste evento histórico?

R: O Festival Maré de Agosto é organizado pela Associação Cultural Maré de Agosto, uma associação sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública.

Como qualquer associação, nem tudo é “um mar de rosas”, e a ACMA não foge a esses desígnios. Tem tido, ao longo dos seus 42 anos, dificuldades inerentes e transversais a muitas associações, desde problemas de financiamento a dificuldades diretivas. Mas estes são, no fundo, os desafios diários que, por vezes, são os mais motivadores para que a associação e o festival não morram.

A Maré de Agosto é feita de pessoas! E de pessoas que, ao longo destes 42 anos, sempre deram o seu melhor em prol de Santa Maria e do festival propriamente dito, sempre num espírito pro bono público — e esta sempre foi a nossa essência, que ainda hoje perdura e assim deverá continuar. Anualmente contamos com mais de 130 colaboradores, incluindo a direção, que dão muito do seu tempo a esta causa, porque consideramos a Maré de Agosto uma causa pública pela ilha de Santa Maria.

Na minha humilde opinião, julgo que, enquanto se mantiver este espírito voluntário, a Maré nunca acabará — claro, com altos e baixos, com mais ou menos dificuldades.

Um dos objetivos desta nossa direção, que termina em outubro, foi incluir gente jovem, para que tivesse oportunidade de sentir o que é a Maré de Agosto, como se faz um festival, mas, acima de tudo, para que criasse gosto e percebesse o conceito e a sua importância, para que perdure nas gerações vindouras. No fundo, ao longo destes 42 anos, sempre houve essa passagem geracional, que considero muito importante, não só para garantir continuidade, mas também para introduzir ideias frescas, novidades, e acompanhar as tendências e as preferências musicais e culturais dos novos públicos. Essa é também a nossa missão, e julgo que a estamos a conseguir cumprir.

Queria aproveitar para agradecer a todos os nossos colaboradores e parceiros, privados e institucionais, que, ao longo de todos estes anos, perceberam a importância do festival e sempre deram o seu melhor para que, hoje, possamos estar a celebrar 42 anos do Festival Maré de Agosto — porque, sem eles, não seria possível, de todo!

Para terminar, deixo um apelo aos nossos empresários locais e da região, para que se juntem a nós. Santa Maria, hoje, não seria a mesma sem o Festival Maré de Agosto. São 42 anos de confiança e de provas dadas na dinamização económica, turística e cultural de Santa Maria e dos Açores.

É deveras importante todo o vosso apoio.

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