Depois de um longo período de silêncio, Abel Capella regressa com Fora do Tempo, um álbum profundamente pessoal que transforma inquietações, memórias e reencontros em canções marcadas pela honestidade e pela reflexão. O primeiro avanço, “1996”, abre caminho para um disco onde cada faixa representa um capítulo de uma viagem construída ao longo de vários anos.
Nesta conversa com o MusicaTotal.net, o cantor e compositor fala sobre o processo criativo que deu origem ao álbum, o regresso às suas raízes em Minas Gerais, a importância da família, a colaboração póstuma com Marcos Thalma e a convicção de que a música pode ser muito mais do que entretenimento. Uma entrevista sobre identidade, tempo, propósito e a necessidade de permanecer fiel à própria essência.

Porque sentiste que esta era a canção certa para abrir as portas deste novo capítulo?
Ela funciona bem como uma porta de entrada para os temas que atravessam todo o álbum. Tem uma energia forte, quase como uma explosão a abrir um portal. Passei muito tempo em silêncio, por isso pareceu-me uma boa ideia regressar a fazer barulho para compensar um pouco essa ausência. “1996” é um pé na porta e um convite para a viagem que vem pela frente.
Que inquietações pessoais estiveram na origem da letra?
A sensação de que existe algo estranho a acontecer ao nosso redor. Como se muitas coisas que pareciam sólidas tivessem perdido o sentido e estivéssemos a viver um período de profunda confusão. A letra nasceu desse desconforto, dessa dificuldade em reconhecer-me em certos valores e comportamentos que se tornaram normais. Em determinado momento, isso deixou de ser apenas uma inquietação e passou a ser uma necessidade de expressão.
O que significa para ti assumir essas imperfeições na música?
Tenho mais interesse na verdade do que na perfeição. Gosto de perceber a humanidade de uma obra artística, as suas marcas, as suas falhas e a sua personalidade. Hoje sinto-me mais livre para seguir a minha intuição criativa e menos preocupado em corresponder a expectativas externas. O que me interessa é que a música seja honesta.
Até que ponto a observação do mundo atual alimenta a tua escrita?
Mais do que eu gostaria. Às vezes gostava de escrever apenas sobre o amor e sobre as coisas boas da vida, mas não consigo ignorar o tempo em que vivo. Muitas canções nascem da observação do mundo e das pessoas à minha volta. No fundo, mesmo quando faço críticas ou levanto questionamentos, existe uma motivação afetiva por trás disso. É uma forma de cuidado e de preocupação com as pessoas que amo e com a realidade que estamos a construir juntos.
Como surgiu essa forma de encarar a composição?
Desde o início encontrei na música uma forma de dialogar com o mundo. Sempre vi a arte como algo que pode contribuir para a sociedade de diferentes maneiras. Costumo dizer que a música é a minha ciência. Passei a vida inteira a experimentar nesse laboratório, tentando compreender melhor a mim próprio, as pessoas e o tempo em que vivemos. Quando escrevo uma canção, procuro dizer algo que considero importante, algo que vá para além do entretenimento e que possa permanecer com quem a escuta.
Que aprendizagens continuam a acompanhar-te hoje?
Estamos sempre a aprender com a vida, com as pessoas, com a natureza e, principalmente, quando estamos dispostos a olhar para dentro. Uma das coisas mais importantes que aprendi foi a importância de parar o mundo, de vez em quando, para ouvir a própria consciência. Também aprendi que crescer não significa abandonar quem somos, mas compreender melhor as nossas responsabilidades. Hoje vejo-me como alguém que continua a aprender todos os dias, muitas vezes através de lições difíceis, mas sem perder a disposição para questionar, refletir e seguir em frente.
O que mudou na tua forma de escrever, gravar e interpretar canções ao longo dos anos?
No projeto Abel Capella tudo se tornou mais denso e mais profundo. Sinto uma responsabilidade maior com aquilo que escolho comunicar. Talvez porque o tempo me tenha mostrado que as canções podem transportar muito mais do que melodias e palavras. Hoje, mais do que nunca, quero transmitir algo verdadeiro. Na minha vida, a música tornou-se uma forma de diálogo com a realidade e também uma procura de propósito.
O que te levou a dar esse tempo ao processo criativo?
Muita coisa aconteceu nesse período, mas a principal foi perceber onde estavam as minhas verdadeiras prioridades. Estava em São Paulo quando senti que precisava de voltar para estar mais perto dos meus filhos. Essa decisão mudou tudo. Passei a concentrar a minha energia na educação deles e na construção deste disco. Afastei-me do excesso de distrações e do barulho do mundo para viver esse processo com calma. Não havia pressa. Queria fazer o disco que precisava de fazer. E, olhando para trás, sinto que parte dele fui eu que a encontrei e outra parte encontrou-me pelo caminho.
Que impacto teve esse regresso às origens no resultado final?
Teve um impacto total. Este disco só existe por causa desse regresso às origens. Antes imaginava um primeiro álbum completamente diferente, incluindo músicas que já tinha lançado. Mas, quando voltei para Minas e me reconectei com a minha história, percebi que precisava de começar noutro lugar. Foi nesse contexto que as canções de Fora do Tempo ganharam forma. Também foi um período de reencontro e reconexão com pessoas importantes da minha trajetória, que tiveram um papel fundamental na construção deste trabalho.
O álbum inclui gravações de Marcos Thalma. Que memórias guardas da vossa relação artística e pessoal?
Essa é uma história muito especial porque fala de encontros que o tempo parecia ter interrompido, mas que, de alguma forma, voltaram a acontecer. O Marcos foi uma pessoa importante na minha trajetória artística e humana. O que aconteceu com essas gravações é algo difícil de explicar racionalmente. Quem ouvir o disco estará a ouvir caminhos que se cruzaram, se separaram e voltaram a encontrar-se de uma forma que eu jamais teria conseguido planear.
De que forma a presença de Marcos no disco influenciou a dimensão emocional do projeto?
De uma forma profundamente emocionante. Não apenas pela sua ausência, mas pela maneira como essas músicas atravessaram o tempo até chegarem a este momento. Existe algo de muito especial em ouvir estas gravações hoje e perceber como certas ligações permanecem vivas através da arte. Foi uma grande honra concluir essas canções e poder incluí-las em Fora do Tempo.
Existe alguma faixa que sintas representar melhor a essência do álbum?
Acho que cada faixa revela uma parte importante da história, mas talvez a canção-título concentre a maior intensidade emocional do disco. Foi uma das músicas que mais me atravessou durante o processo de criação. Houve momentos em que precisei de interromper as gravações apenas para absorver tudo o que estava a sentir.
O que esperas que os ouvintes descubram ou questionem?
Espero que encontrem espaço para refletir sobre si próprios e sobre o tempo em que vivem. Que se permitam questionar hábitos, certezas e caminhos que, muitas vezes, seguimos em piloto automático. Mais do que oferecer respostas, acredito que a arte tem a capacidade de despertar perguntas importantes.
Existem novos caminhos sonoros ou artísticos que gostarias de explorar depois deste álbum?
Sim. Durante esses três anos foram compostas muitas canções e, em determinado momento, eu e Rodrigo Nepomuceno percebemos que parte desse material apontava para outra direção. Foi assim que nasceu a banda Rudá, um projeto que também já tem o seu primeiro disco concluído. Mas essa é uma história para outro momento. Aproveito para destacar a importância do Rodrigo em toda esta jornada. Além de produtor, arranjador e compositor, é um amigo de infância que teve um papel fundamental na construção não apenas deste álbum, mas de todo este ciclo criativo que resultou em cerca de trinta canções entre os dois projetos.
Que mensagem gostarias que permanecesse com o público?
Gostaria que as pessoas ouvissem Fora do Tempo da primeira à última música, como quem assiste a um filme. Que se permitissem viver essa experiência sem pressa, acompanhando cada capítulo da história.
E, se pudesse deixar uma única mensagem, seria esta: preservem a vossa essência, os vossos princípios e procurem viver da forma mais natural e consciente possível. Vivemos uma época de excesso de informação, excesso de estímulos e pouca ligação àquilo que realmente importa. Em meio a tanto ruído, distração e pressa, continuar a ouvir a própria consciência, cuidar da saúde, cultivar relações verdadeiras e manter a capacidade de pensar pela própria cabeça pode fazer toda a diferença.
Mesmo quando o mundo parece seguir noutra direção, não deixem de seguir o vosso coração.
Abel Capella regressa com “1996” e antecipa o álbum Fora do Tempo



