Nem toda a música procura ser polida. Algumas canções preferem mostrar as rachaduras, os ruídos e as dúvidas que tornam as pessoas reais.

É exatamente nesse território que Abel Capella se move em “1996”, o novo single que assinala o início da caminhada até ao álbum Fora do Tempo, previsto para outubro.
A nova faixa surge como um comentário sobre identidade, alienação e a dificuldade de encontrar autenticidade num presente cada vez mais moldado por filtros, algoritmos e aparências. Entre humor ácido, crítica cultural e confusão assumida, o músico constrói uma narrativa que olha para o passado sem cair na armadilha da nostalgia fácil.
Um rock de garagem que abraça as imperfeições
Em “1996”, as imperfeições não são acidentes. São parte da linguagem da música. Dissonâncias, arranjos irregulares e pequenas fricções sonoras ajudam a reforçar a sensação de estranheza que atravessa toda a composição.
Abel Capella descreve o tema como “um rock de garagem sincerão e imperfeito”, uma definição que ajuda a compreender o espírito da canção. O resultado aponta para uma energia crua que procura transmitir emoção antes de procurar perfeição técnica.
A composição como última mensagem
O artista mantém uma relação particularmente intensa com o processo de escrita. Para Abel, cada letra nasce da necessidade de dizer algo que realmente importa.
Segundo o próprio músico, compõe sempre como se estivesse a deixar uma última mensagem. Essa urgência emocional acaba por atravessar “1996”, transformando a canção num espaço de questionamento e reflexão. A ideia de que a arte deve desafiar certezas continua a ser uma das bases do seu trabalho criativo.
O regresso depois de três anos de silêncio
O lançamento marca também o regresso de Abel Capella após um período de três anos afastado dos lançamentos. Durante esse tempo, o músico dedicou-se à construção do universo criativo de Fora do Tempo em Uberlândia, Minas Gerais.
Este regresso ficou igualmente marcado por uma reconexão com as suas raízes. O artista revisitou lugares, memórias e pessoas que estiveram presentes no início do seu percurso, procurando recuperar elementos fundamentais da sua identidade artística.
Um álbum dedicado à memória de Marcos Thalma
Produzido por Rodrigo Nepomuceno, o novo trabalho carrega também uma forte dimensão emocional. O álbum incluirá gravações de bateria de Marcos Thalma, amigo de longa data de Abel Capella que entretanto faleceu.
A presença dessas gravações transforma Fora do Tempo numa homenagem e numa forma de preservar um legado artístico que continua vivo através das canções. É um detalhe que acrescenta uma camada de significado a um projeto já construído em torno da memória, do tempo e da procura de sentido.
Com “1996”, Abel Capella abre a porta para um disco que promete explorar o confronto entre passado e presente, realidade e artificialidade, nostalgia e inquietação. Um primeiro capítulo que prefere as perguntas às respostas e que deixa no ar a sensação de que outubro poderá trazer muito mais do que apenas um novo álbum.



