Quinta-feira, 24 de Setembro de 2026
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AETHERFALL assume ao Musica Total: “The Girl Who Never Fell” foi criada com IA

Por Jorge Silva Medeiros 24 Set 2026

Uma música gerada com inteligência artificial chegou ao Musica Total com uma particularidade que merece ser registada: o próprio criador explica como foi feita.

François Brunel apresenta-se como o responsável pelo AETHERFALL, um projecto a solo francês de metal cinematográfico construído em torno de uma saga de ficção científica com 18 álbuns. “The Girl Who Never Fell”, com 6:23, integra “PARALLAX”, o oitavo capítulo dessa narrativa, centrado em vidas paralelas, escolhas e identidades que se cruzam.

Mas há outra história a acontecer por baixo desta.

Brunel diz de forma directa que a música foi gerada com recurso ao Suno. Ao mesmo tempo, esclarece que assumiu o arranjo e a mistura e afirma ter os direitos necessários para apresentar a obra.

É a primeira vez que recebemos no Musica Total um projecto que assume de forma tão explícita a utilização de inteligência artificial na criação de uma música. E é precisamente essa transparência que torna o caso interessante.

 

 

A música antes da discussão

Antes de discutirmos quem fez o quê, existe uma música para ouvir.

“The Girl Who Never Fell” nasce dentro de um universo de metal cinematográfico e de uma narrativa de ficção científica que não foi pensada para uma única canção. A faixa pertence a uma obra maior, construída como uma sequência de capítulos, onde a música funciona também como parte de uma história.

Essa dimensão é importante porque impede que a questão da IA seja vista isoladamente.

Não estamos apenas perante uma experiência com uma ferramenta de geração musical. Existe um projecto artístico, uma narrativa e uma pessoa que assume decisões sobre aquilo que apresenta como obra final.

A utilização de Suno passa, assim, a ser parte do processo de produção de AETHERFALL, e não apenas uma curiosidade técnica sobre a música.

Onde começa a autoria?

É aqui que o caso começa a ficar mais difícil.

Se uma ferramenta de inteligência artificial gera material musical, mas existe depois uma intervenção humana no arranjo e na mistura, onde começa exactamente a autoria?

A pergunta parece simples, mas a resposta já não é.

Durante décadas, a produção musical também foi alterando a fronteira entre composição e execução. A gravação multifaixa, os samplers, os sintetizadores, o Auto-Tune, as estações de trabalho digitais e, mais recentemente, as ferramentas de produção assistida por computador foram mudando aquilo que um músico pode fazer sozinho.

A IA acrescenta uma diferença importante: pode participar directamente na geração de material musical.

É essa mudança que torna projectos como AETHERFALL particularmente interessantes para quem acompanha a evolução da música.

O músico continua dentro do processo

François Brunel não apresenta a inteligência artificial como substituta do seu trabalho.

Pelo contrário, identifica a ferramenta utilizada e assume a sua intervenção posterior no arranjo e na mistura. É uma descrição que interessa mais do que qualquer discurso genérico sobre o futuro da música, porque permite perceber um processo concreto.

A questão passa então a ser outra: quanto da identidade de uma obra está naquilo que é gerado inicialmente e quanto está nas escolhas feitas depois?

Escolher, rejeitar, alterar, organizar, misturar e construir uma narrativa também são decisões criativas.

Isso não resolve a discussão sobre autoria. Mas torna-a mais interessante.

A primeira vez no Musica Total

Para o Musica Total, este contacto marca um momento editorial.

A inteligência artificial já está presente nas conversas sobre composição, produção e indústria musical. O que ainda não é tão comum é encontrar artistas ou projectos dispostos a dizer claramente que uma determinada obra foi criada com recurso a essas ferramentas e a explicar qual foi a sua intervenção.

AETHERFALL faz exactamente isso.

Não cabe ao Musica Total decidir se uma música criada desta forma deve ser considerada mais ou menos legítima. Cabe-nos ouvir, contextualizar e colocar as perguntas que a própria música levanta.

Neste caso, a pergunta parece inevitável.

Se uma canção pode nascer da colaboração entre uma ideia humana e uma ferramenta capaz de gerar música, onde termina a ferramenta e começa o autor?

É uma discussão que está apenas a começar.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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