Uma música gerada com inteligência artificial chegou ao Musica Total com uma particularidade que merece ser registada: o próprio criador explica como foi feita.
François Brunel apresenta-se como o responsável pelo AETHERFALL, um projecto a solo francês de metal cinematográfico construído em torno de uma saga de ficção científica com 18 álbuns. “The Girl Who Never Fell”, com 6:23, integra “PARALLAX”, o oitavo capítulo dessa narrativa, centrado em vidas paralelas, escolhas e identidades que se cruzam.
Mas há outra história a acontecer por baixo desta.
Brunel diz de forma directa que a música foi gerada com recurso ao Suno. Ao mesmo tempo, esclarece que assumiu o arranjo e a mistura e afirma ter os direitos necessários para apresentar a obra.
É a primeira vez que recebemos no Musica Total um projecto que assume de forma tão explícita a utilização de inteligência artificial na criação de uma música. E é precisamente essa transparência que torna o caso interessante.
A música antes da discussão
Antes de discutirmos quem fez o quê, existe uma música para ouvir.
“The Girl Who Never Fell” nasce dentro de um universo de metal cinematográfico e de uma narrativa de ficção científica que não foi pensada para uma única canção. A faixa pertence a uma obra maior, construída como uma sequência de capítulos, onde a música funciona também como parte de uma história.
Essa dimensão é importante porque impede que a questão da IA seja vista isoladamente.
Não estamos apenas perante uma experiência com uma ferramenta de geração musical. Existe um projecto artístico, uma narrativa e uma pessoa que assume decisões sobre aquilo que apresenta como obra final.
A utilização de Suno passa, assim, a ser parte do processo de produção de AETHERFALL, e não apenas uma curiosidade técnica sobre a música.
Onde começa a autoria?
É aqui que o caso começa a ficar mais difícil.
Se uma ferramenta de inteligência artificial gera material musical, mas existe depois uma intervenção humana no arranjo e na mistura, onde começa exactamente a autoria?
A pergunta parece simples, mas a resposta já não é.
Durante décadas, a produção musical também foi alterando a fronteira entre composição e execução. A gravação multifaixa, os samplers, os sintetizadores, o Auto-Tune, as estações de trabalho digitais e, mais recentemente, as ferramentas de produção assistida por computador foram mudando aquilo que um músico pode fazer sozinho.
A IA acrescenta uma diferença importante: pode participar directamente na geração de material musical.
É essa mudança que torna projectos como AETHERFALL particularmente interessantes para quem acompanha a evolução da música.
O músico continua dentro do processo
François Brunel não apresenta a inteligência artificial como substituta do seu trabalho.
Pelo contrário, identifica a ferramenta utilizada e assume a sua intervenção posterior no arranjo e na mistura. É uma descrição que interessa mais do que qualquer discurso genérico sobre o futuro da música, porque permite perceber um processo concreto.
A questão passa então a ser outra: quanto da identidade de uma obra está naquilo que é gerado inicialmente e quanto está nas escolhas feitas depois?
Escolher, rejeitar, alterar, organizar, misturar e construir uma narrativa também são decisões criativas.
Isso não resolve a discussão sobre autoria. Mas torna-a mais interessante.
A primeira vez no Musica Total
Para o Musica Total, este contacto marca um momento editorial.
A inteligência artificial já está presente nas conversas sobre composição, produção e indústria musical. O que ainda não é tão comum é encontrar artistas ou projectos dispostos a dizer claramente que uma determinada obra foi criada com recurso a essas ferramentas e a explicar qual foi a sua intervenção.
AETHERFALL faz exactamente isso.
Não cabe ao Musica Total decidir se uma música criada desta forma deve ser considerada mais ou menos legítima. Cabe-nos ouvir, contextualizar e colocar as perguntas que a própria música levanta.
Neste caso, a pergunta parece inevitável.
Se uma canção pode nascer da colaboração entre uma ideia humana e uma ferramenta capaz de gerar música, onde termina a ferramenta e começa o autor?
É uma discussão que está apenas a começar.
